Gustavo Kuerten completa 50 anos e hoje pouco se ouve ou lê a seu respeito. E o distanciamento das quase três décadas de sua primeira conquista de Roland Garros (em 1997) pode ser algo que acabe por diminuir seus feitos e importância para o esporte brasileiro, ainda mais nos tempos que se vive.
Mas Guga é muito mais que aquele menino nascido em Florianópolis, com roupas pouco convencionais para um esporte que até então era pouco ou quase nada acostumado a ousadias. Ele transformou o esporte dentro e fora das quadras.
O fenômeno Guga foi algo marcante para quem teve a chance de testemunhar ao vivo ou pela televisão. Ele esteve em Porto Alegre em algumas oportunidades, e destaco três delas nas quais tive esse privilégio.
Em abril de 1998, ele voltou à capital gaúcha, onde estivera quatro meses antes para um jogo-exibição contra o chileno Marcelo Ríos, para liderar a equipe brasileira que enfrentou a Espanha pela Copa Davis, em Porto Alegre.
Foi uma semana impressionante e a cidade parou. Os treinos nas quadras da Associação Leopoldina Juvenil e os jogos no estádio montado no Parcão arrastaram milhares de pessoas das mais diversas partes do Estado e do País.

Guga, André Sá, Jaime Oncins e Fernando Meligeni encararam a temida "Armada Espanhola", com Carlos Moyá, Alex Corretja, Emilio Sánchez e Sergio Casal. Os espanhóis levaram a melhor por 3 a 2, em jogos de altíssimo nível de cenas marcantes, como a que ele mesmo narra em seu livro "Guga, um brasileiro" sobre a virada contra Moyá, no primeiro jogo do confronto, quando ele conseguiu vencer após estar dois sets abaixo e ter um break point contra no 4-4 do terceiro set.
"Dei o segundo receoso. Se falhasse, o jogo já era. Tenso, coloquei o saque bem devagar e acertei. Na devolução, o espanhol, com a faca e o queijo na mão, arriscou tudo para ganhar o ponto e a bola saiu meio centímetro. Na hora, assim como eu, 10 mil brasileiros suspiraram aliviados.
Pensei: "É agora. O cara desperdiçou a chance de ouro. Se eu sai desse buraco e trouxer a torcida para a partida, o jogo é meu".
Eu me agarrei nisso e não soltei mais até o fim, em mais um momento sublime de simbiose entre mim e o público. Num dia que se tornou inesquecível, com uma virada histórica venci o jogo no meu país por 3 a 2 e com a torcida vindo abaixo, aplaudindo de pé, gritando meu nome, provocando aquela sensação extraordinária que só o esporte consegue proporcionar".
O trecho, que está na página 218 do livro, retrata o que Guga significava à época para o esporte brasileiro. Ele era jovem, vencedor e supria uma carência existente desde a morte de Ayrton Senna, em maio de 1994, que nem mesmo o futebol foi capaz.
Voltei a revê-lo ao vivo em 2009, quando ele foi um torcedor nas arquibancadas do Gigantinho para um confronto entre Brasil e Equador, mais uma vez pela Copa Davis.
Em 2012, Guga veio participar do projeto WimBelemDon, na zona sul de Porto Alegre. Era uma tarde de sábado, 24 de novembro. Já na condição de ex-jogador, o ídolo de uma geração atendeu crianças para fotos e autógrafos, bateu bola com alguns e ainda foi árbitro de uma partida que envolvia alunos do projeto e nomes como Fernando Meligeni, Marcelo Melo, Bruno Soares, Rogério Dutra Silva e Thomaz Koch.
A última vez que pude estar no mesmo ambiente que o maior tenista brasileiro de todos os tempos foi em novembro de 2014, quando ele veio lançar o seu livro, que está guardado como um troféu, por ter o seu autógrafo.
Sua capacidade como jogador era algo incontestável. Seu backhand de esquerda (algo em extinção nos tempos atuais) foi dos melhores da história. Guga não foi apenas um tenista brasileiro que ocupou o posto de número 1 do mundo, após vencer em sequência os lendários Pete Sampras e Andre Agassi, ele foi responsável por popularizar e democratizar um sisudo esporte, que a partir dele passou a buscar uma maior conexão entre jogadores e torcida.
Guga, como diz seu livro, é um brasileiro e devemos nos orgulhar cada vez mais de tê-lo como ídolo.


