
A informação sobre a proibição de entrada do brasileiro Hugo Calderano, nos Estados Unidos, não pode ser encarada tão somente como uma questão burocrática. Ela precisa ser tratada como um incidente onde a ignorância política ou fanatismo, se quiserem ser mais polidos, supera os limites da diplomacia.
Claro que esperar diplomacia, de quem precisa de um inimigo para satisfazer os anseios de seus seguidores é algo impensável. Mas o mundo tem algumas regras diplomáticas que devem ser seguidas.
E o caso do carioca Calderano, que tem cidadania portuguesa e, por consequência um passaporte europeu, é cristalino. Está escrito que não há necessidade de visto para pessoas da Comunidade Europeia para ingressar no território estadunidense, tanto que ele fez uso desse benefício durante toda sua carreira.
A criação de um inimigo sempre funciona. É o chamado "nós x eles", adotado até mesmo para motivar grupos de esportistas. Quem nunca ouviu ou leu "sabíamos que tínhamos que lutar contra tudo e todos para atingir nossos objetivos"?
Essa fórmula é surrada, mas funciona para angariar seguidores e a política também a adota. Nos EUA de Trump e em outros países com tendências dessa mesma corrente é algo corriqueiro.
Mas você deve estar se perguntando, qual crime cometeu o número 3 do ranking mundial de tênis de mesa, que este ano foi campeão da Copa do Mundo e vice do Campeonato Mundial
Calderano cometeu o crime de, em 2023, disputar o Campeonato Pan-Americano e um torneio classificatório para os Jogos de Paris em Havana, capital de Cuba. Logo a Ilha de Fidel, que cheira a comunismo! Esse foi o argumento utilizado para lhe negar o visto, mesmo ele se enquadrando na condição de detentor de passaporte europeu.
Imagino aqui, do sul do Brasil, os responsáveis por conceder ou não, a aprovação de entrada do jogador brasileiro nos EUA , debatendo o quão comunista ele pode ter se tornado ao ir jogar em Cuba, durante uma semana e a importância de impedir sua entrada na terra do Tio Sam.
Aliás esse não é o primeiro caso e não será o único. Semanas atrás, a seleção cubana de vôlei feminino foi impedida de disputar a fase decisiva do Campeonato das Américas do Norte, Central e do Caribe (Norceca), que seria disputada em Porto Rico, por ter a entrada negada, por decisão da corte, no caso o governo dos Estados Unidos, que detém o poder sobre o território porto-riquenho.
Só para lembrar que essa política adotada seguirá em vigor para a Copa do Mundo de seleções em 2026 e para os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028, o que é preocupante para o esporte, mesmo sabendo que a Olimpíada já aconteceu sob a bandeira do nazismo em 1936 e da ditadura militar argentina em 1978.
Agora, só falta proibir uniformes nas cores vermelhas em estádios, ginásios e outros locais dos Estados Unidos, afinal...
Mas como bem disse Nietzsche: "Existem dois tipos de pessoas neste mundo. Aqueles que querem acreditar e aqueles que querem saber".


