
O ano de 2026 é muito especial para Cristina Ranzolin: a jornalista completa 60 anos, em outubro, 40 anos de carreira e 30 à frente do Jornal do Almoço – a estreia foi em 1996, em sua volta ao Rio Grande do Sul após um período na Globo, onde apresentou o Jornal Hoje entre 1993 e 1996.
Para a condução do telejornal, nesta quarta-feira (8), Cris prepara uma surpresa aos telespectadores mais atentos. Vai usar o mesmo figurino de 8 de julho de 1996, um terno vermelho que guarda com carinho em seu armário.
— Pensei em usar uma roupa especial. Aí lembrei: "Gente, eu ainda tenho aquela roupa". Fui experimentar, serviu — conta Cris.

Neste bate-papo, a apresentadora relembra os momentos emblemáticos da carreira, abre o coração ao falar do JA e reflete sobre seu futuro na TV.
São 30 anos no ar, diariamente, com o público gaúcho no Jornal do Almoço. Qual foi o maior desafio de manter relevância e conexão ao longo de tantas transformações na comunicação?
Vi bastante coisa, muitas mudanças. Mas eu acho que o nosso papel aqui é realmente relatar fatos, transmitir aquilo que acontece, a realidade, né? A gente, muitas vezes, tem que dar notícias que não gostaria. Mas o principal sempre é a notícia, sabe? Eu sempre procurei fazer jornalismo com muita ética, com muita verdade, ser uma pessoa verdadeira para o meu público, independentemente de qualquer outra coisa, da tecnologia que mudou muito e que nos permite, hoje, uma instantaneidade muito maior. A linguagem também. Com passar do tempo, a gente conseguiu transmitir mais verdade ainda com o sentimento que foi colocando no jeito de falar. Quando eu apresento o Jornal do Almoço, penso que estou falando para uma pessoa conhecida, então procuro falar com mais naturalidade, isso conecta, mas foi acontecendo naturalmente. E eu fico muito feliz com o ritmo que as coisas tomaram.
Ao longo dessas três décadas, o Jornal do Almoço passou por mudanças de formato e linguagem. Mas o que nunca pode mudar em um telejornal regional?
O JA mudou muito. Quantos cenários, quantos colegas diferentes passaram por aqui, quantos chefes diferentes eu tive, né? Mas sempre aqui nesse lugar, sempre aqui nesse estúdio. Fico realmente emocionada de saber que eu sigo aqui. O que não pode mudar é a gente mostrar sempre o Rio Grande acontecendo, sabe? O que acontece no Rio Grande tem que passar pelo Jornal do Almoço. Eu acho que isso é fundamental: ter o que é mais importante para os gaúchos saberem. O Jornal do Almoço me encanta muito, porque é um jornal muito variado. A gente chama de jornal, mas é uma revista, né, porque tem a notícia, mas vem com "um molhinho", um jeito diferente de dar essa notícia. Como é um jornal grande, nos permite aprofundar a análise e falar de outras coisas.
Como é equilibrar a responsabilidade de informar com leveza e proximidade, características tão fortes do Jornal do Almoço?
A gente não pode escolher a notícia, né? Tem que noticiar a realidade. Muitas vezes, as pessoas falam: "Poxa, vocês levam tanta notícia triste, que horror", mas infelizmente a gente não escolhe o que está dizendo, tem que noticiar. Até porque, muitas vezes, é noticiando um caso que o alerta é feito. Agora, a gente também fica extremamente feliz de poder trazer coisas boas, que servem como exemplos. Então eu me coloco sempre a favor da notícia, seja ela boa ou ruim, procurando transmitir do meu jeitinho. E aí, eu equilibro, sempre com naturalidade.
Acompanhou de perto momentos históricos do Rio Grande do Sul. Quais coberturas mais te marcaram emocionalmente?
Muitas foram bem difíceis. A cobertura da tragédia na Boate Kiss, em 2013, em Santa Maria, foi dolorosa. O incêndio em uma creche, em Uruguaiana, em 2000, foi triste demais. As últimas enchentes, em 2023 e 2024, foram momentos em que fiquei muito dividida entre a Cristina pessoa e a Cristina profissional, porque ver as pessoas com a vida devastada me impactou demais. E foi bom saber que eu poderia levar um certo conforto, um certo acolhimento, sabe? E falando de coisas positivas, esses nossos programas no Interior são maravilhosos (o projeto Jornal do Almoço Bem pra Ti). Porque, quando a gente está aqui no estúdio, tem uma câmera, que é uma coisa fria, né? Agora, quando a gente vai fazer esses programas no Interior, se sente num teatro mesmo, tem o telespectador ali, as reação das pessoas. A gente pode sentir esse grande carinho e perceber como a gente é gigante para esse público. Além disso, o período em que fiquei em tratamento do câncer de mama foi algo extremamente emocionante, o acolhimento foi impressionante, o carinho das pessoas, que rezaram e choraram por mim. As pessoas que estiveram comigo foram extremamente importantes pra minha cura. Essa energia maravilhosa do público foi fundamental. Que profissão maravilhosa eu escolhi, que me permite receber esse carinho do público, uma família que eu tenho por esse Rio Grande afora.
Depois de 30 anos à frente do programa, o que te motiva a entrar no estúdio todos os dias? E o que ainda sonha realizar na carreira?
São 30 anos de JA, mas eu comecei na RBS em 1986, como estagiária do departamento de chamadas. Então, são 40 anos de carreira. Nesse período, eu passei pelo Esporte, pelo Campo e Lavoura, pelo Bom Dia Rio Grande, pela Rede Regional de Notícias, que era dentro do Jornal do Almoço. Então, eu já tinha estrada aqui antes de ir trabalhar na Globo (na década de 1990), já tinha uma história muito grande. E agora, veja bem, eu estou fazendo 30 anos desde o meu retorno para cá. Parece inacreditável, sabe? E, ao mesmo tempo, passou voando. Aí, depois, você começa a repensar todas as coisas que passam voando na vida. Mas sabe que não, acho que não tenho pendências a realizar, está tudo sendo costurado. Eu vivo muito o presente. Eu gosto muito do que faço e, quando as coisas ficam diferentes, quando sinto que preciso mudar, eu mudo, não fico esperando. As coisas estão indo num ritmo muito bom. Esses tempos, andei pensando se já não estava na hora de eu dar uma parada, mas como vai ser a minha vida não estando nesse estúdio, vindo todos os dias para cá, buscando a melhor forma de apresentar as notícias? Então ainda não é o momento de parar. Vou ficar mais um pouco, enquanto eu estiver feliz fazendo isso.





