
O produtor de soja do Rio Grande do Sul, que finaliza a colheita da safra 2025/2026 sob condições de tempo firme, deve voltar seu olhar para um cenário de mudanças bruscas a partir do segundo semestre deste ano. Isso porque o retorno do fenômeno El Niño promete impactar o início do próximo ciclo.
Segundo o meteorologista e coordenador do Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro-RS), Flávio Varone, a tendência é de que a safra 2026/2027 enfrente gargalos logo na largada.
Ele destaca que, embora os meses de maio a agosto tragam um clima mais favorável para as culturas de inverno, há previsão de que esse quadro se modifique no final do ciclo.
— O problema deve surgir no final do inverno, com o aumento da chuva e da temperatura. Essa umidade tardia é o prenúncio de um El Niño que se desenha com forte intensidade para a primavera — explica o meteorologista.
Para o setor da soja, o principal reflexo será no calendário. Como a primavera é tradicionalmente chuvosa no Rio Grande do Sul, condição que será potencializada pelo El Niño, Varone projeta que a safra 2026/2027 possa sofrer atrasos significativos no plantio.
— Novamente o produtor gaúcho vai enfrentar dificuldades. É preciso pensar bem qual tipo de variedade plantar e, principalmente, a época em que será realizado o plantio. Será um momento que vai requerer muito cuidado — alerta.
Monitoramento como investimento
A recorrência de eventos extremos, desde a seca histórica de 2021 até as enchentes de 2024, tem forçado uma mudança de mentalidade no campo. Para o coordenador do Simagro-RS, as informações climáticas deixaram de ser apenas uma informação sobre o tempo para se tornarem um insumo estratégico para os produtores, tão relevante quanto máquinas ou sementes.
— Hoje, o monitoramento meteorológico deve ser considerado um investimento pelo produtor. A busca por dados é fundamental para um novo diagnóstico do solo e das culturas, especialmente em áreas de vales e na Serra, onde a recuperação hídrica após as últimas enchentes ainda está ocorrendo — aponta Varone.
Para mitigar os riscos, o Simagro-RS tem apostado na democratização da informação. Por meio de ferramentas gratuitas, como um modelo de previsão com precisão de um quilômetro e um aplicativo que gera índices específicos, como probabilidade de ferrugem na soja e índices de irrigação, o órgão busca equiparar as condições de decisão entre pequenos e grandes produtores.
— Nossa ideia é encurtar o caminho. Oferecemos suporte para que o pequeno produtor tenha as mesmas condições de informação que as grandes lavouras — afirma o coordenador.
Com o El Niño se configurando para o final de 2026, o desafio do produtor gaúcho será técnico, já que é preciso selecionar sementes que se adaptem ao excesso de umidade inicial para aproveitar as temperaturas mais altas que o fenômeno traz, visando garantir a produtividade.



