Uma empresária de Santa Maria, na região central do Estado, viralizou nas redes sociais ao mostrar que a tradicional cuia de chimarrão vem do fruto de uma planta: o porongo.
"É o quê? A cuia é uma planta???", se surpreendeu uma usuária nos comentários do vídeo, que já soma 2,9 milhões de visualizações no Instagram.
O conteúdo foi produzido por Luana da Silva Seeger, 33 anos, uma das proprietárias da fábrica Companhia das Cuias.
— Esse vídeo foi feito de uma forma bem improvisada. Eu não esperava alcançar esse número de visualizações. É claro que sei que é uma coisa superinteressante, mas sou uma amadora fazendo um vídeo para compartilhar um procedimento antigo — conta.
"Não sabem que aqui usamos para tomar chimarrão"

No vídeo, Luana aparece fervendo alguns porongos – já cortados no formato de cuias – logo após a colheita.
Outros conteúdos publicados por ela também alcançaram milhares de visualizações ao mostrar as plantações. Em alguns casos, os vídeos furaram a bolha e chegaram a moradores de outros Estados.
— As pessoas conhecem o porongo, mas, às vezes, não sabem que aqui no Rio Grande do Sul usamos o fruto para fazer cuias de chimarrão — destaca.
No Brasil, o fruto, originário do continente africano, também é conhecido por nomes como cabaça, porunga e taquera.
🧉 Como se faz uma cuia de porongo
Luana nasceu "no meio das cuias", como ela mesma descreve. A família atua no setor há mais de 30 anos no distrito de Arroio do Só, em Santa Maria. Em 2024, ela assumiu a linha de frente do negócio.
O porongueiro pertence à família das cucurbitáceas — a mesma da abóbora, do pepino, da melancia e do melão. Na empresa de Luana, o plantio ocorre entre agosto e setembro. Cerca de seis meses depois, os frutos já podem ser colhidos.
— Os trabalhadores vão quebrando aquele caulezinho que liga a fruta ao pé e deixando os porongos no chão. Depois, outros passam recolhendo e amontoando. Muitas vezes, nessa etapa, já são separados os porongos que não vão virar cuia — detalha.
Ela ressalta que a planta se desenvolve melhor no calor e em terras mais arenosas. Após a colheita, os frutos destinados à fabricação de cuias têm a parte inferior cortada.
— É a parte que seria uma cumbuca, a parte "mais gordinha" do porongo inteiro. Cortamos aquela parte e descartamos. Às vezes, os porcos comem. Às vezes, trituramos e fazemos cobertura de solo — acrescenta.
A parte que se transformará em cuia ainda passa pela retirada do bagaço e da película externa, que costuma estar suja de terra. O processo é feito na água e, depois, o porongo precisa secar por alguns dias.
Na etapa final, a borda recebe acabamento, a cuia é polida por fora, o interior é lixado e um maçarico dá o toque final. Todo esse processo pode se diferenciar entre produtores, mas, no caso da empresa de Luana, são necessários cerca de sete meses entre o plantio e a finalização da cuia.
🗺️ Duas regiões se destacam
Além de Santa Maria, municípios como Restinga Sêca, Formigueiro e São Pedro do Sul, na Região Central do Estado, também se destacam na produção de porongos. A Emater aponta ainda as regiões de Frederico Westphalen, Vicente Dutra, Iraí e Palmeiras das Missões como tradicionais no cultivo da planta.
De acordo com Ilvandro Barreto de Melo, engenheiro agrônomo da Emater e coordenador da Câmara Setorial Estadual da Erva-mate, dados de 2022 indicam que o Rio Grande do Sul produz cerca de cinco milhões de cuias por ano.
Segundo Luana, há mercado para o produto no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, assim como na Argentina, no Uruguai e no Paraguai.
— Se vamos colher de 200 mil a 250 mil cuias, outros vão colher 300 mil, 500 mil cuias, vamos passar de dois milhões de cuias só em Santa Maria. Fora outras regiões que estão plantando também. E para onde vão dois milhões, três milhões de cuias só em um ano? Não sabemos, mas o pessoal está tomando mate (risos) — avalia.
Conforme Ilvandro, as terras cultivadas produzem, em média, de 10 mil a 12 mil frutos por hectare. Mas, apenas cerca de quatro mil têm qualidade adequada para virar cuia.
— Como o porongo é uma espécie que não tem um trabalho de melhoramento genético efetivo, não se consegue ter um alto índice de porongos com boa qualidade para cuia — explica.
Os porongos que não são aproveitados para esse fim podem ser usados no artesanato – para fabricação de casas para pássaros, por exemplo. A parte maior do fruto pode virar cumbuca. Segundo o engenheiro agrônomo, a variedade cultivada normalmente não é comestível.
🤝 Uma tradição que se manteve
A cuia mais tradicional no Estado é de porongo, mas há também de outros materiais, como madeira, chifre, silicone e até vidro.
Mesmo com essa diversidade, a tradição se manteve, como ressalta o engenheiro agrônomo:
— O porongo ainda tem um índice amplamente maior em termos de utilização. Ele sobreviveu nesse período onde se teve uma série de modernidades e novidades, ele resistiu no tempo. A comercialização dele tem mudado um pouco em função do tamanho da cuia porque, no passado, o pessoal preferia cuias maiores. Hoje, a preferência já está para cuias de tamanho menor.
Uma das características das cuias de porongo é justamente a singularidade de cada peça, explica Luana:
— Elas podem ter o mesmo padrão, altura e largura parecidas, mas cada cuia é uma cuia. Às vezes, um bichinho sentou em uma e isso já vai mudar a forma — pontua Luana.
⚠️ Mofo e rachaduras na cuia: como evitar?
- Para evitar rachaduras, a dica é impedir choque térmico: faça primeiro o chimarrão com uma água não muito quente e, na hora de lavar, não utilize água fervente
- Para evitar mofo, deixe a cuia secar em uma área ventilada e não a guarde com a boca virada para baixo




