A uva já não representa apenas vinho na campanha gaúcha. Ela passou a simbolizar turismo, identidade cultural, inovação, sustentabilidade, saúde e desenvolvimento regional.
Foi com esse olhar ampliado sobre a vitivinicultura brasileira que especialistas, pesquisadores, produtores e representantes do setor participaram do Campo em Debate, realizado dentro da programação do 4º Fórum de Vitivinicultura da Campanha Gaúcha, na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), em Dom Pedrito, nesta quinta-feira (21).
Presidente do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS), Luciano Rebelatto resumiu essa transformação:
— O consumidor hoje busca vivências autênticas, contato com os produtores, gastronomia e cultura. A uva passou a ser também um motor de turismo, tecnologia e experiências.
Brasil, um "mosaico" de terroirs
Durante sua fala, Rebelatto apresentou dados de um levantamento recém-divulgado sobre a cadeia vitivinícola nacional. O estudo, encomendado pelo Consevitis e conduzido pela Universidade Federal de Lavras, descreve o setor como um "grande mosaico", formado por regiões com características distintas, mas complementares.
Segundo o dirigente, o país reúne desde a viticultura tropical do Vale do São Francisco, no Nordeste, até o sistema tradicional do Sul, passando pelos vinhedos de dupla poda no Centro-Oeste e no Sudeste.
— O consumidor não busca apenas uma garrafa. Busca uma história, pertencimento e identidade. É isso que fortalece o vinho brasileiro — destacou.

União do setor ajudou a consolidar a Campanha
Já o professor da Unipampa Marcos Gabardo falou sobre a Indicação de Procedência (IP) Vinhos da Campanha. Para ele, a principal transformação foi a união entre produtores, técnicos, pesquisadores e universidade.
O reconhecimento obtido em 2020 foi resultado de um trabalho coletivo iniciado pelas próprias vinícolas da região, com apoio de instituições como Embrapa, Sebrae e Unipampa.
A partir da criação da IP, a região estruturou um sistema permanente de degustações técnicas às cegas, reunindo enólogos, professores, estudantes e especialistas para identificar a tipicidade dos vinhos da Campanha. Desde então, já foram degustadas mais de 400 amostras.
— O objetivo não é encontrar um vinho melhor ou pior. É valorizar o que é típico da região — esclareceu Gabardo.
Hoje, mais de 10 milhões de garrafas já carregam o selo da Indicação de Procedência Vinhos da Campanha.
Fortalecimento na formação de enólogos
Gabardo também ressaltou o papel da Unipampa na formação de profissionais para o setor. O curso de bacharelado em Enologia da universidade é o único do Brasil nessa modalidade.
Com duração de quatro anos e meio, a graduação conta com vinhedo experimental, vinícola própria e laboratórios utilizados pelos estudantes.
Sustentabilidade ganha protagonismo
Em outro momento do evento, a enóloga e sommelier Juliana Rossato destacou que as indicações geográficas (IG) também se consolidam como ferramentas para promover sustentabilidade.
Ela citou estudos recentes da União Europeia que apontam as IGs como mecanismos capazes de difundir práticas sustentáveis. E exemplificou:
— O caderno de especificações técnicas, que traz as regras que esse produto precisa cumprir para chegar ao mercado, quando bem entendido, pode realmente difundir essa sustentabilidade.
Mercado sem álcool vira nova aposta
O debate também abordou as mudanças de comportamento do consumidor. CEO da Ballardin Soluções, Roberto Ballardin explicou que o crescimento do consumo moderado de álcool abriu espaço para novos produtos, como vinhos desalcoolizados.
Segundo ele, a tecnologia evoluiu significativamente nos últimos anos, permitindo preservar aroma e características sensoriais do vinho mesmo após a retirada do álcool.
— Quem quer testar o mercado tem que testar com qualidade, tem que ir para o mercado com o melhor possível — acrescentou o empresário.
Ballardin anunciou ainda a criação da Wine Free, empresa que será instalada em Flores da Cunha para prestar serviços de desalcoolização a vinícolas interessadas em testar esse mercado sem precisar investir em equipamentos próprios.
Pesquisas investigam benefícios da uva para a saúde
O cardiologista Protásio da Luz apresentou pesquisas sobre os efeitos do vinho tinto e do suco de uva na saúde cardiovascular. Segundo ele, estudos conduzidos ao longo de mais de 20 anos mostram que compostos presentes na uva, especialmente os polifenóis, podem contribuir para a redução da aterosclerose e melhorar indicadores relacionados ao coração e vasos sanguíneos.
O médico destacou que os benefícios observados estão ligados ao consumo moderado e associado a hábitos saudáveis.
— O efeito benéfico não vem do álcool, mas dos compostos presentes na uva — pontuou Luz.
Ele também revelou que novas pesquisas vão avaliar os efeitos do suco de uva sobre a flora intestinal e o metabolismo de pacientes cardíacos.
Turismo aparece como próximo desafio
Ao longo do debate, o enoturismo surgiu como uma das maiores oportunidades para a Campanha. A avaliação dos participantes é de que o vinho deixou de ser apenas um produto agrícola para se transformar em experiência.
Por outro lado, especialistas alertaram para gargalos que ainda precisam ser superados, como infraestrutura turística, rede hoteleira, logística e carga tributária elevada sobre o vinho brasileiro. Também foram citados desafios locais, como os impactos da deriva de herbicidas hormonais nas áreas de vinhedos.
Outro tema debatido foi o acordo entre Mercosul e União Europeia. A avaliação dos painelistas é de que produtos com indicação geográfica tendem a ganhar relevância no novo cenário internacional.
— Os produtos com indicação geográfica provavelmente estarão na frente da fila — afirmou o representante do Sebrae, Ângelo Agnaga.
Com mediação da jornalista Gisele Loeblein, o painel foi uma realização do Consevitis-RS em parceria com o Grupo RBS.


