
O verde no horizonte quase faz parecer que tudo vai bem nas lavouras da temporada de verão no Rio Grande do Sul. A cena, contudo, disfarça o que se passa no interior das folhagens, muitas delas já murchas ou ressecadas pela falta de chuva e calor extremo.
Há 33 dias não chove nas terras de Renato Freitas, produtor de soja entre Santa Maria e Dilermando de Aguiar, na região central do Estado. Não bastasse a secura, tem o calor: partes no meio da lavoura chegaram a registrar 60°C nos dias mais quentes.
No início de janeiro, Freitas relatou à reportagem que a distribuição de chuvas vinha satisfatória, mantendo as expectativas de boa safra até então. Agora, mais de um mês depois da última chuva, o produtor estima perda de 20% na colheita da região.
— Parece um manto verde de folha, mas ela está caindo, perdendo a vagem. O que mais prejudica é o forte calor. Está queimando a lavoura — descreve Renato.
A condição de clima repete um filme já visto pelos agricultores em 2025, quando as plantações tiveram aspecto de mosaico, mesclando trechos saudáveis a outros com perdas já aparentes.
Assistente técnico em culturas da Emater, Alencar Rugeri confirma o quadro heterogêneo das lavouras, com áreas sofrendo menos e outras mais. Mas diz que é cedo para calcular perdas, que neste momento não são generalizadas.
— Temos um cenário bem diverso. Tem produtores que já perderam significativamente, mas o quanto isso vai representar no todo ainda temos de aguardar — diz.
A falta de umidade ocorre em momento crucial para as plantações de soja, que são as etapas de floração e enchimento de grãos. Mais de 70% das lavouras gaúchas estão nestas fases de desenvolvimento, segundo a Emater.
Mesmo com as previsões de virada no tempo no Estado a partir de hoje, chuvas pontuais até ajudam, mas não são suficientes. É preciso que as precipitações sejam regulares para se manter a sanidade das lavouras.

Tipos de estiagem
O Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro) da Secretaria Estadual de Agricultura não trata o quadro atual de falta de chuva no RS como estiagem ampla. Flávio Varone, coordenador do Simagro, explica que o que se vê até aqui são estiagens curtas, ou seja, com falta de água em áreas localizadas.
— Até porque temos uma previsão de chuva que vai varrer o Estado de forma mais uniforme, algumas regiões com volume expressivo, e isso deve amenizar o quadro.
O coordenador explica os conceitos:
- Estiagem curta: é quando regiões pontuais ficam de 10 a 20 dias sem chuva e a falta de umidade se dá em áreas isoladas.
- Estiagem ampla: ocorre de forma mais abrangente, com pouca ou nenhuma ocorrência de chuva durante longos períodos e em quase todas as regiões.
- Seca: mais difícil de ocorrer no RS, representa um quadro totalmente sem chuva, por períodos muito longos. Sua ocorrência depende muito de cada região climática.
Previsões ainda mantidas
No 5º Levantamento da Safra divulgado nesta quinta-feira (12), a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) manteve as suas projeções otimistas para o atual ciclo. Conforme a estimativa, o Rio Grande do Sul deverá produzir 38,9 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/2026, alta de 8,4% em relação à safra anterior.
Na soja, principal produto agrícola gaúcho, a colheita está estimada em 21,4 milhões de toneladas, o que representaria um recorde.



