
Em menos de duas semanas após o início de 2026, foram noticiadas duas mortes em acidentes envolvendo tratores ou máquinas agrícolas no Rio Grande do Sul. Os dois casos aconteceram na Serra: em Antônio Prado, um homem de 48 anos ficou preso sob o veículo, que tombou; em Veranópolis, a vítima foi um homem de 79 anos, também encontrado debaixo do trator tombado.
De acordo com os registros de Zero Hora, ao longo do ano passado, foram nove ocorrências — oito delas com vítimas fatais.
Apesar de os número chamarem atenção, pode haver uma subnotificação de casos, sugere o professor Leonardo Monteiro, coordenador do Laboratório de Investigação de Acidentes de Máquinas Agrícolas (Lima) da Universidade Federal do Ceará (UFC). O especialista explica que, atualmente, não há um órgão público que concentre esse tipo de informação.
O Corpo de Bombeiros Militar e a Polícia Civil do RS comunicaram que não possuem dados com essa especificidade. Já o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) coleta apenas sobre os acidentes envolvendo tratores que acontecem em vias públicas — independentemente se municipais, estaduais ou federais.
Entre os nove acidentes noticiados por Zero Hora em 2025, sete deles aconteceram dentro de propriedades rurais. Já o Detran apresenta 17 acidentes fatais com tratores no período. Em quatro deles, o condutor da máquina agrícola morreu. Nos demais, as vítimas ocupavam outros veículos envolvidos nas ocorrências.
— Essas subnotificações atrapalham na questão da informação, da conscientização dos condutores e evita também que os governos possam trabalhar em políticas públicas de prevenção de acidentes envolvendo as máquinas — aponta Monteiro.
Uma morte por dia no país
Conforme o levantamento do Lima/UFC, um condutor de trator morre por dia no Brasil. Essa estatística leva em consideração tanto os casos que acontecem dentro das propriedades quanto em vias públicas. Os dados coletados ao longo de 12 anos, também revelam que a região Sul do país tem o maior índice de acidentes.
Além disso, maior parte das ocorrências está relacionada a veículos de menor potência, entre 50 e 120 cavalos — mais comuns na agricultura familiar. Monteiro explica que quanto mais potente o maquinário, maiores são as exigências de formação e capacitação dos condutores, principalmente por estarem, em sua maioria, em empresas de grande porte.
— O que acontece muito ainda, a nível de Brasil, é uma cultura que passa do avô para o pai, para o filho, e isso vai passando. Esse aprendizado vai sendo repassado de geração em geração e, muitas vezes, as pessoas negligenciam a questão do treinamento, do aperfeiçoamento, da atualização das máquinas que estão sendo operadas — comenta o coordenador do Lima/UFC.
A rotina de trabalho no campo é considerada repetitiva. Monteiro explica que operacionalidade das máquinas são muito similares, mesmo entre os diferentes processos executados — semeadura, plantio e colheita. Isso facilita a aprendizagem, mas também favorece que os condutores negligenciem a busca por formação.
Os dados do Lima/UFC também revelam que os acidentes acontecem, em sua maioria, com condutores mais velhos e mais experientes. O excesso de confiança, somado à falta de atenção no trabalho, são fatores que contribuem para as fatalidades, aponta Monteiro.
— As pessoas que estão iniciando na atividade idade agora têm mais cuidado, têm mais zelo, têm medo, porque são coisas que estão aprendendo agora. Se você pegar um operador de 20, 30 anos, ele desafia a máquina, porque "eu conheço, já trabalho há muito tempo, eu nunca me envolvi em acidentes" — comenta.
Ainda sobre acidentes que acontecem dentro das propriedades rurais, há também a questão do mau uso dos equipamentos de segurança. O professor cita que o que tem tirado a vida dos trabalhadores não é a falta de proteção, mas a negligência em relação aos sistemas de proteção.
— Por exemplo, um trator que tem a estrutura de proteção do capotamento, ele tem um cinto de segurança. E o operador praticamente não usa esse cinto de segurança. O que a gente vê é o seguinte: ele não usa o cinto de segurança e, muitas vezes, no capotamento, tende a pular de cima do trator. E a própria estrutura de proteção no capotamento é que acaba esmagando esse operador. Então, em vez dela funcionar como uma bolha de proteção, ela esmaga porque ele pulou e o trator vira por cima dele — diz Monteiro.
Acidentes nas estradas

Já os acidentes registrados nas estradas, fora das propriedades rurais, acontecem por imprudência de motoristas de outros veículos, falta de sinalização e de iluminação. Conforme os dados do Detran, a maioria dos casos fatais acontece à noite e em estradas municipais.
As duas fatalidades noticiadas por Zero Hora que aconteceram em 2026, por exemplo, estão dentro dessas características. Tanto o caso de Antônio Prado quanto o de Veranópolis foram de tratores que transitavam à noite, caíram em barrancos nas margens das estradas, resultando no capotamento do veículo pesado em cima do condutor.
— Eu sempre reforço: o agricultor não coloca o trator na estrada gratuitamente, ele coloca porque ele precisa. Hoje a gente consegue identificar as regiões onde isso mais acontece. Falta as autoridades desenvolverem um trabalho coletivo de conscientização, não só do agricultor e do operador que está dirigindo o trator, mas, no caso dos acidentes em via, do próprio usuário — aponta o professor.



