Preparar o café faz parte da rotina de Tatiani Vargas Hendler, 37 anos. O que a diferencia da maioria dos gaúchos é que ela é responsável por todas as etapas de produção da bebida. Plantio, colheita, secagem, torra e moagem estão entre as atividades realizadas na propriedade onde vive, em Torres, no Litoral Norte.
— É um café de qualidade, puro. Tu sente o aroma adocicado. É bem diferente do café de mercado — resume a agricultora.
Apesar de incomum por conta do frio, o cultivo de café ocorre em diversos municípios do Rio Grande do Sul. Ainda neste ano, a Emater iniciará testes para identificar qual espécie se adapta melhor ao Estado para fins comerciais.
Conforme especialistas, o aumento da temperatura causado por mudanças climáticas pode impulsionar a produção no Estado.

De olho no mercado
Tatiani começou a produção de café há oito anos, como um "hobby" destinado ao consumo próprio. Comprou mudas em Minas Gerais e depois investiu no maquinário – descascador, torrador e moedor – para produzir a bebida.
A propriedade, de 22 hectares, produz principalmente maracujá, mas há por volta de 30 pés de café da variedade conilon.
A maturação dos frutos é irregular, o que faz com que o produto seja colhido durante diferentes períodos do ano. Em setembro foi a última retirada, com um resultado suficiente para meses de consumo da família e para produção de um licor.
— Há uma grande procura por café e poucas pessoas produzindo no Rio Grande do Sul. Pensamos em ampliar a área plantada, para ter um produto de qualidade, diferenciado. Também é algo que pode impulsionar o turismo rural na região — comenta.
Parceria com produtores

Ainda neste ano, a Emater iniciará testes com variedades comerciais de café em parceria com produtores do Litoral Norte.
Segundo Arnaldo Tiecker Junior, agrônomo e extensionista rural da instituição no município de Mampituba, a região possui um microclima favorável à cultura: as temperaturas são, em média, mais altas na comparação com outros pontos do Estado e é menor a ocorrência de geada, o que favorece a produção de plantas de clima tropical, como banana, abacaxi, maracujá — e também do café.
— Já há plantas vigorosas de café (na região), o que mostra que o microclima é favorável. Porém, a origem é indeterminada, e a frutificação não é uniforme, o que inviabiliza hoje a produção comercial — afirma.
Um dos desafios do cultivo é a maturação desigual dos frutos: enquanto alguns grãos já estão maduros, outros permanecem verdes, o que dificulta a colheita e compromete a uniformidade do lote.
Em São Paulo e Minas Gerais, Estados que lideram a produção brasileira, as estações são definidas, a florada ocorre de forma concentrada, e a maturação tende a seguir um ritmo regular, o que permite ciclos de colheita previsíveis.
Essa "estabilidade" falta nos exemplos de cultivo no Estado. Por isso, a Emater quer identificar espécies da planta que possam preencher essa lacuna.
Agricultores de Mampituba, Terra de Areia e Maquiné receberão, nos próximos meses, mudas de café arábica, a espécie mais cultivada no Brasil, para iniciar o plantio. O objetivo é acompanhar o desenvolvimento das plantas em diferentes altitudes e sistemas de cultivo.
Outros produtores da região, ainda não definidos, também serão convidados a participar da iniciativa e receberão acompanhamento pela Emater nos próximos anos para avaliação do desempenho das plantas.
É uma produção totalmente viável. Temos a possibilidade, sim, de produzir um café com sabor gaúcho
ARNALDO TIECKER JUNIOR
agrônomo e extensionista rural da Emater
O café "impossível"
Vera Cruz, no Vale do Rio Pardo, também está no mapa da produção de café no Estado. É em uma propriedade de dois hectares no interior do município que o jornalista Diego Weigelt, 43 anos, cultiva 250 pés da espécie arábica.
Ele comprou o espaço com os pais em 2022 e, na limpeza do terreno, descobriu que havia três plantas de café. Desde então, a família decidiu investir na produção, com a compra de equipamentos e aumento da área plantada.
No ano passado, eles produziram o primeiro café, chamado Mário Cesariny, em homenagem ao poeta e pintor português. A edição rendeu 30 pacotes de 150 gramas cada, vendidos por R$ 55.
— Todo mundo me falava que era perda de tempo, porque aqui é frio, tem geada. Fui teimoso, plantei e já se passaram três invernos: o café está firme e forte. Podemos chamá-lo de "o café impossível do Rio Grande do Sul" — brinca.
O cafezal está em um sistema agroflorestal, uma forma de cultivo que combina a produção de cafeeiros com outras espécies de árvores, arbustos ou plantas de interesse econômico ou ecológico, que cria um ecossistema diversificado. Essa é uma das formas para amenizar o impacto do vento e de temperaturas baixas nas plantas.
A propriedade foi batizada de Quinta dos Pirilampos, uma homenagem à cultura portuguesa. O projeto é fazer do ponto um local de visitação aliado a experiências ligadas ao café. Nas pesquisas sobre o assunto, Weigelt descobriu que, na década de 1970, um produtor tinha 5 mil pés de café em uma propriedade do município.
— É um orgulho plantar o pé, colher, torrar, embalar, entregar. Queremos incentivar mais famílias a fazerem o mesmo. Gostaria que, no futuro, Vera Cruz fosse considerada a capital do café no Rio Grande do Sul — pontua o jornalista, que escreveu um livro sobre o universo da bebida.
Mudanças climáticas podem favorecer o cultivo
"O café arábica poderá encontrar condições de potencial climático para seu desenvolvimento econômico nos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul". É o que diz o estudo O aquecimento global e a cafeicultura brasileira (leia aqui), publicado em 2007 por pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
— Estávamos prevendo esse cenário para ocorrer a partir de 2040, mas a temperatura está subindo muito rápido. Com temperaturas mínimas mais altas nas regiões frias, diminui o risco de geada e de abortamento da flor (do café) — afirma Eduardo Assad, agrônomo e um dos responsáveis pelo estudo.
Segundo ele, conversas para testar a produção comercial de café no Estado foram feitas no início do século entre pesquisadores e entidades, mas não prosperaram.
Questionada por Zero Hora, a Embrapa informou que não existem registros de produção comercial ou pesquisas para esse fim no Estado. O governo do Estado não tem dados do gênero. Também são desconhecidos o montante de produtores e o resultado da produção anual de café no Estado.
Para Assad, a ideia de uma produção gaúcha ganha força em um momento em que produtores do Sudeste, como em Minas Gerais e São Paulo, têm enfrentado perdas por conta da estiagem e temperaturas altas nos últimos anos.
— Os modelos climáticos estão indicando que é favorável (a produção no Estado). Em três anos de teste, você vê se produz ou não. O fato de ter pessoas já produzindo indica que é uma janela de oportunidade — acrescenta.



