Quando a interação natural ganha um empurrãozinho da ação humana, os resultados podem ser melhores para todo mundo. É mais ou menos o que acontece na polinização assistida: uma técnica agrícola que amplia a presença de abelhas nas lavouras, e, como consequência, melhora a floração e a formação de frutos.
Na prática, funciona quase como um aluguel desses insetos. Não havendo presença natural suficiente de abelhas para áreas cada vez maiores da produção em larga escala, produtores de maçã no Rio Grande do Sul aproximam o encontro dos bichos às macieiras, instalando caixas de abelhas “contratadas” para a temporada.
Nesta sexta-feira (3), é lembrado o Dia Nacional das Abelhas, que visa destacar a relevância desses insetos para a biodiversidade e para a produção agrícola.
Gaúcha com sede em Vacaria, a Rasip Agro, uma das maiores produtoras de maçãs do Brasil, contratou para esta safra o serviço de 300 milhões de abelhas para a polinização de 1,3 mil hectares de pomares na propriedade. É tanto trabalho que as abelhas “chegam a se bater entre elas”, brinca o gerente da Rasip Agro, Alecir Weber.
O diretor explica que a polinização assistida é praticada há mais de 30 anos na produção, desde que a safra ganhou contornos de grandeza. Quanto maior o pomar, maior o número de abelhas necessário, por isso a alternativa pela modalidade do aluguel. A novidade nesta safra é a quantidade envolvida: são 6.360 colmeias pelo pomar.
A abelha transfere o pólen de uma variedade de planta à outra, facilitando o cruzamento. O resultado da polinização bem-feita é uma fruta com boa quantidade de sementes e formato uniforme, o que no mercado vira sinônimo de boa qualidade.
A abelha é fundamental no processo de produção das frutas. Sem abelha, não há maçã
ALECIR WEBER
Gerente da Rasip Agro
A polinização começa em setembro, com a florada das macieiras. A abelha permanece por cerca de um mês no pomar. A expectativa para a próxima safra, com colheita iniciada a partir de janeiro, é produzir até 65 mil toneladas de maçãs das variedades fuji e gala.
A técnica não só otimiza a produção de frutas como contribui para a conservação das abelhas. Cerca de 50% dos insetos utilizados na Rasip são criados por funcionários ou familiares deles, oportunizando também uma fonte de renda extra às famílias da região. Além disso, o aluguel gera um pós-serviço, que é a produção de mel.

Para além da maçã, a prática da polinização assistida está em expansão em outras culturas, como é o caso da canola e da carinata. Os cereais de inverno têm sua florada antes das macieiras, o que “oportuniza trabalho” para as abelhas o ano todo.
No noroeste do Estado, a atuação dos insetos é incentivada por projeto que conecta empresas, agricultores e apicultores via startup. Trata-se de uma parceria da Celena Alimentos com a Agrobee, pioneira em serviços de polinização no Brasil.

O serviço da startup é fazer a ligação entre as cadeias de valor. Neste caso, os apicultores são acionados via aplicativo ou site para o trabalho na lavoura. Depois, passam por auditoria que releva se estão aptos a fazer a polinização assistida.
Juliano Möller, representante da Agrobee no Rio Grande do Sul, diz que o projeto vem crescendo ano a ano. A área neste inverno foi ampliada para 3 mil hectares de polinização assistida na canola e outros mil hectares na carinata. A ideia no futuro, diz, é criar um projeto de ciclo completo, da polinização desde o eucalipto até a soja, ampliando a prática para pelo menos quatro safras de culturas diferentes ao ano.
— A abelha entra como um incremento de produtividade, o que cria uma visão de produtores que olham para a sua produção de outra forma, mudando o manejo de maneira a proteger também as abelhas — diz Möller.



