
Um dos maiores produtores de trigo do Brasil, o Rio Grande do Sul vê na indústria de biocombustíveis uma das oportunidades para desenvolver a triticultura nos próximos anos. Somam-se a isso a área disponível para plantação, em alternância com culturas de verão — como soja e milho —, e os benefícios de adotar uma integração de sistemas, incrementando a capacidade produtiva da terra e garantindo receita o ano inteiro.
Em 2024, o país produziu 7,7 milhões de toneladas de trigo, segundo estimativa da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (CEEMA). Nesse montante, o Estado contribuiu com 3,7 milhões de toneladas.
A perspectiva é boa para 2025. Embora a área plantada tenha caído quase 10%, ficando em 1,2 milhão de hectares, a produção total deve apontar queda de apenas 3%, na casa de 3,6 milhões de toneladas, graças à alta na produtividade: estima-se que fique em 2,9 toneladas por hectare, 7,7% a mais do que no ano passado. Os dados são da Emater-RS.
Situação da lavoura
Ao que tudo indica, a expectativa vai se confirmar. Os produtores não tiveram problema para plantar no período adequado, respeitando as características de cada região. O clima também ajuda, pois havia perspectiva de um período bom de chuva em setembro, quando o trigo entra na fase de formação de grãos.
— A reserva de água no solo ajuda. Já no período da colheita, entre outubro e novembro, devemos ter um tempo um pouco mais seco. Até agora noites frias, dias bem iluminados. Estão lindos os trigos. Os prognósticos climáticos para a cultura do trigo são muito bons, mas são prognósticos — pondera o analista da Embrapa Trigo, Osvaldo Vasconcellos Vieira.
O destino da produção conta, hoje, com três caminhos principais. Um deles é a indústria moageira do próprio Estado, onde muitas empresas trabalham apenas com produto gaúcho, em função da qualidade. A segunda opção é o Paraná — especialmente este ano porque, segundo Vieira, a safra dos paranaenses não foi boa. Por fim, aparece a exportação.
Curiosamente, o Brasil consome mais trigo do que produz, mas acima do Mampituba muitas vezes é mais vantajoso importar do que comprar do Rio Grande do Sul. Em contrapartida, boa parte da produção gaúcha vai para outros países. Às vezes, isso também acontece porque o trigo acaba tendo qualidade insuficiente para a panificação e se destina à produção de ração animal em outros lugares.
— Este ano, certamente, a exportação do trigo gaúcho será superior a um milhão de toneladas, por contratos já feitos anteriormente – projeta Vieira.
Biocombustível deve ampliar demanda
Um dos ingredientes para a tendência de alta na produção de trigo nos próximos anos é a produção de etanol anidro — aquele adicionado à gasolina — a partir de cereais de inverno. Produtora de biodiesel há duas décadas, a Be8, de Passo Fundo, viu no etanol uma possibilidade de aumentar seu portfólio. Para isso, está construindo uma unidade fabril que será capaz de produzir 220 milhões de litros do combustível por ano, com investimento de R$ 1,2 bilhão.
— Precisaremos de 200 mil hectares de trigo para esse volume de produção. Seriam necessárias cinco unidades como essa para atender apenas à demanda do etanol anidro no Estado — explica o especialista em pesquisa, desenvolvimento e inovação da Be8 Agro, Fábio Junior Benin.
Ele estima que a demanda gaúcha pelo etanol anidro fique em torno de um bilhão de litros. Sendo assim, para atender a toda essa necessidade seriam necessários, pelo menos, um milhão de hectares. A área plantada poderia praticamente dobrar. E Benin conta que há reclamações quanto à liquidez para o trigo e outras culturas de inverno. Neste contexto, pondera, os projetos de investimento em biocombustível vão ajudar muito.
O gerente de pesquisa de trigo no Brasil da GDM, Ernandes Manfroi, concorda que há um potencial enorme para os cereais de inverno, sendo o trigo o principal deles. Ele vê o crescimento de possibilidades como um motivador para os produtores.
— São 6 milhões de hectares de soja no verão e 1,3 milhão de trigo no inverno. Temos muito espaço. Precisamos dar mais usos para o trigo ter mais liquidez, garantindo que não haja muita oscilação de preço e se torne uma matéria-prima competitiva — observa.
A tendência, entende Manfroi, é que novas empresas ou plantas fabris de biocombustível surjam conforme a iniciativa prosperar. Um movimento parecido com o que aconteceu com o milho no Centro-Oeste, desde que foi provada a vocação do grão para produzir biodiesel. Além disso, é importante lembrar que a finalidade clássica do trigo não perde força.
— Temos muito forte a parte de panificação, massas e biscoitos. Ainda precisamos de muito trigo para suprir essa demanda. Com a ampliação dos canais de exportação e o biocombustível com demanda de curto a médio prazo, temos uma linha muito promissora. Tudo isso funcionando, acredito que o produtor utilize mais a área disponível durante o inverno — projeta Manfroi.
Programa Duas Safras alterna culturas
A alternância de culturas é tão benéfica para o agronegócio que o Rio Grande do Sul conta, desde 2022, com o programa Duas Safras, iniciativa conjunta de Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-RS), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (Fecoagro-RS), Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav) e Federação das Associações de Arrozeiros (Federarroz). A ação tem como objetivo otimizar o uso do principal recurso com o qual todos os produtores trabalham, que é a terra.
— O solo é o recurso mais caro e a gente tem visto que o Rio Grande do Sul tem um espaço muito grande para ampliação do uso, no sentido da otimização do trabalho. Não nos basta uma safra, temos que ter uma segunda realmente instalada — defende o superintendente do Senar-RS, Eduardo Condorelli.
O programa envolve as principais cadeias agrícolas e pecuárias do Estado: o plantio de soja, arroz, trigo e milho são combinados com as atividades de pecuária de corte, de leite, suinocultura e avicultura. A premissa é que cada uma dispõe de um espaço em aberto e uma necessidade não atendida.
— A suinocultura e a avicultura têm uma demanda gigantesca e o Estado é deficitário no fornecimento de milho. Ao mesmo tempo, na atividade de trigo, temos espaço para o crescimento durante o inverno, de maneira que pudesse substituir parte do milho na ração animal — exemplifica Condorelli.
O trigo, segundo ele, tem papel fundamental porque é a grande cultura do inverno. Trata-se da atividade que permitiria difundir uma cadeia produtiva por milhares de produtores sem estar estragando o mercado.
— A gente sempre pode pensar em estimular novos negócios, mas tem que imaginar que, a partir de um determinado volume de produção, pode estragar o mercado. O trigo é uma das poucas atividades em que podemos ter entrada de dezenas de milhares de produtores e o mercado se manter em condições normais de operação — destaca.

Novas cultivares em teste
Instituições públicas e privadas trabalham em parceria para desenvolver lavouras de trigo com aptidões para os diferentes mercados. A fábrica de etanol da Be8, por exemplo, também vai produzir gás carbônico, amplamente destinado ao mercado de bebidas, glúten vital, um componente muito demandado pela indústria alimentícia, e DDGS, sigla para Grãos Secos de Destilaria com Solúveis, obtido pela fermentação do amido, tornando-se um ingrediente importante na alimentação animal.
Para isso, cultivares como a BS Etanol são preparadas em laboratório, a partir de diversos cruzamentos. A ideia é que elas potencializem a capacidade produtiva.
O produtor Paulo Roberto Vargas, de Carazinho, costuma alternar a produção de soja com a de trigo. Este ano, plantou 180 hectares do cereal de inverno e acredita em uma boa safra. Das três cultivares levadas ao solo da Granja Capão Grande, uma é dedicada ao etanol.
— Se houver viabilidade financeira, pretendo aumentar a área. A cultura do trigo, na nossa região, representa algo entre 20% e 30% da área de verão. Tem espaço para chegar a 60% ou 70%, e nem estou falando de trigo sobre trigo, mas sim em processo de rotação — anima-se.
Se depender da indústria, em suas diferentes necessidades, o trigo tem um bom cenário a explorar. O presidente do Sindicato Rural de Passo Fundo, Carlos Fauth, acredita que o biocombustível trará ainda mais potencial para as culturas de inverno.
— Tudo pode ser aproveitado — comemora Fauth.




