
Ainda que os grãos de verão sejam responsáveis por puxar a principal locomotiva do agronegócio gaúcho, o Rio Grande do Sul é reconhecido pela diversidade da sua produção. Poucos Estados têm vocação agrícola tão variada, o que coloca sua agropecuária em lugar diferenciado de renda e valor agregado ao que se produz.
Dados da Radiografia Agropecuária 2025 confirmam a vocação. O setor gerou valor bruto de R$ 107 bilhões em 2024, sendo responsável por mais de 78% das exportações do Rio Grande do Sul naquele ano. O PIB total do Estado foi de R$ 706 bilhões no ano passado.
Principal item agrícola, a soja somou área colhida de 6,7 milhões de hectares na última safra. Apesar da grande área em aposta, a produção do grão caiu 28% devido à estiagem, com produção de 13,6 milhões de toneladas, bem abaixo dos anos de recordes. O reflexo da quebra apareceu no PIB, com queda de 2,7% no segundo trimestre.
A importância de uma pauta diversificada serve de salvaguarda aos produtores. Apostar em culturas variadas reduz a dependência de um único produto agrícola e, consequentemente, reduz o risco de perdas. Também é estratégia para enriquecer o solo, já que mantém a aptidão para diversos cultivos.
Para além da vocação, o diretor técnico da Emater, Claudinei Baldissera, destaca o potencial de a riqueza produtiva se converter em cadeias agroalimentares muito consolidadas, que conectam quem produz a quem consome por meio do alimento:
— Dos grãos de verão ao inverno, à pecuária que também se divide em várias frentes, aos sistemas integrados, à fruticultura e à olericultura... Vejo o RS com condições de clima e ambientes muito próprios. A diversidade é riquíssima e a oportunidade, muito grande.
A seguir, veja um apanhado de culturas com produção importante no Estado, inclusive com valor de exportação e de manutenção da agricultura familiar:
Oliveiras

Por causa das chuvas excessivas na floração, a produção de azeite nas duas últimas safras ficou 70% menor que a produção recorde atingida em 2023. Ainda assim, a importância do azeite de oliva produzido no Rio Grande do Sul é de reconhecimento internacional. As condições climáticas permitem ao Estado fazer os melhores rótulos.
Produção de oliva no RS
- Maior produtor do Brasil: dos 10 mil hectares plantados no país, 6,2 mil ficam no Estado, sendo 5 mil em estágio produtivo
- Maior polo do país é gaúcho: Encruzilhada do Sul, na Região Central, tem mais de mil hectares plantados
- Lagares: RS tem 30 destas estruturas industriais que fazem a extração do óleo da oliva, das 70 que existem no país
- Capilaridade: produção no RS é distribuída entre 325 produtores, de 110 municípios
Os maiores municípios produtores no Estado são:
- Encruzilhada do Sul
- Canguçu
- Pinheiro Machado
- Bagé
- Cachoeira do Sul
- Viamão
- São Gabriel
- Dom Pedrito
- Sentinela do Sul
- Caçapava do Sul
Presidente do Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva), Flávio Obino Filho, destaca que o desafio é preparar a produção para as questões do clima, e por isso o foco do Ibraoliva é a pesquisa, já que potencial produtivo há de sobra.
— É enorme o potencial de crescimento. O azeite gaúcho (e brasileiro) é premium, de qualidade muito acima do extravirgem comum vendido no mercado. Temos muito o que crescer, inclusive com capacidade para exportar e concorrer no mercado global — diz Obino Filho.
A cultura também permite explorar o olivoturismo, da mesma forma como já ocorre no enoturismo (relacionado ao vinho), agregando outro valor à cadeia produtiva e à economia das regiões onde há produção. O caminho para isso vem sendo aberto pelo incentivo à profissionalização das propriedades.
Consolidada, a atividade turística deve contribuir para a maior rentabilidade da cultura, que não é imediata, lembra o presidente do Ibraoliva:
— Não é uma cultura como a soja e o arroz, que o produtor planta num ano e tem o resultado no ano seguinte. É uma produção que exige período de crescimento e maturação dos pomares, e depois a valorização do produto com o consumidor.
Noz pecan

Respondendo por quase a totalidade da produção nacional de noz pecan, o Rio Grande do Sul vive uma expansão da cultura. Segundo a Radiografia Agropecuária, o cultivo está entre as maiores áreas de frutas do Estado, e tem muito espaço para crescer.
O Estado é responsável por mais de 90% da produção nacional. É o maior produtor e o maior beneficiador de noz pecan do Brasil. O presidente do Instituto Brasileiro de Pecanicultura (IBPecan), Claiton Wallauer, destaca o protagonismo: são mais de 10 mil hectares, somando os pomares já em produção e os ainda em amadurecimento.
Além do clima que favorece os cultivos, outro incentivo vem da geografia estratégica. O RS possui período de produção inverso ao dos Estados Unidos e do México, produzindo na entressafra dos dois países, que são os maiores produtores mundiais.
Além disso, a pecanicultura gaúcha tem forte apelo de exportação. Embora seja grande importador de nozes, o Estado conquistou mercados importantes nos últimos anos, tanto para as nozes descascadas quanto as comercializadas com casca. A opção pelos dois mercados, o local e o global, é uma estratégia das empresas.
— É uma atividade rentável, com mercados importantes no nacional e no internacional. Há parcerias com abertura de venda para China, além de Europa e Oriente Médio. Vejo cada vez mais os números sendo divididos entre os dois mercados — diz Wallauer.
Cachoeira do Sul, na região Central, abriga o maior pomar do Estado. O município busca o reconhecimento de indicação geográfica para a produção. Depois, Anta Gorda, Santana do Livramento, Minas do Leão, São Sepé, Sentinela do Sul, General Câmara, Sananduva, Santa Maria e Viamão completam as maiores áreas.
— O clima gaúcho é muito parecido ao de outros locais grandes produtores, o que confere qualidade à fruta seca. Ela achou o ar dela aqui — celebra o presidente do IBPecan.
Citros

Saborear uma bergamota ao sol não à toa é um típico programa de gaúcho. As frutas cítricas encontram no Estado um potencial climático perfeito para o cultivo das variedades de mesa e de suco. O destaque na cultura é o avanço geográfico da produção. Tradicionalmente cultivadas no Vale do Caí, os citros encontram polo também no Alto Uruguai, na Serra e na Fronteira Oeste, ampliando pomares.
O movimento de expansão, explica o chefe da divisão agropecuária da Secretaria da Agricultura, Paulo Lipp, tem a ver com o fomento à atividade dado duas décadas atrás. O objetivo era reduzir a importação de laranjas de outros Estados.
— O plantio foi estimulado para atender a essa demanda, o que levou a uma migração para o Norte. E uma migração de laranjas de mesa para a Serra, onde a uva e o pêssego já eram tradicionais. Nessa região as colheitas são mais tardias, complementando as demais colheitas no Estado para produção o ano todo — diz Lipp.
Nas clássicas bergamotas, típicas do inverno, o RS tem a segunda maior área plantada e está entre os três maiores produtores do país. São 12,5 mil hectares plantados e 181,1 mil toneladas produzidas, principalmente no Caí, na Serra, e nas proximidades de fronteira com o Uruguai e Argentina. Além disso, no Vale do Caí, as indústrias de óleos essenciais extraídos da casca da fruta ganharam relevância nos últimos anos, ampliando geração de emprego neste segmento.
Os maiores produtores de bergamota são:
- Montenegro
- Pareci Novo
- São José do Sul
- Harmonia
- Rosário do Sul
- Veranópolis
- Brochier
- Maratá
- São José do Hortêncio
- Portão
Entre as laranjas, o RS é o sexto maior produtor do país, com boa parte da produção voltada ao mercado de mesa, com plantios importantes no Vale do Caí, Serra e Fronteira Oeste. Já o Alto Uruguai é a maior região produtora de laranjas para suco. A área total soma 22,53 mil hectares e uma produção de 358,45 mil toneladas.
Os maiores produtores gaúchos de laranja são:
- Liberato Salzano
- Itatiba do Sul
- Arvorezinha
- Alpestre
- Aratiba
- Planalto
- Severiano de Almeida
- Tupandi
- Harmonia
- Rosário do Sul
Ainda nas frutas, lembra Lipp, somam-se as produções de destaque de maçã (maior exportador), uva (maior produtor nacional) e pêssego (dois terços na produção nacional).
Canola

Buscando espaço entre os cereais de inverno tradicionais, como o trigo e a aveia, a canola floresce como alternativa de renda aos produtores. O incentivo vem justamente do ponto financeiro. Além das cotações em alta, a garantia de compra pela indústria estimula o crescimento da cultura. A área plantada projetada pela Emater na safra 2025 foi de 203,2 mil hectares, porção 37,4% maior que a anterior.
Na avaliação do produtor e presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Canola (Abrascanola), Vantuir Scarantti, a cultura veio para ficar. Oscilações de safra e rodízio de produtores davam a produção de canola como incerta no passado. As últimas três temporadas, contudo, mostraram uma consolidação. De carona, outros players entram no mercado, inclusive o interesse da exportação buscando o grão por aqui.
A canola é matéria-prima para fabricação de óleo comestível e de farelo para ração animal. Em ampliação nos últimos anos, vem conquistando espaço na produção de biocombustível, mercado que protagoniza a transição energética.
— Vejo a canola com potencial de dobrar a área para o ano que vem. Entre cinco e 10 anos, deve chegar no espaço no trigo. Hoje temos capacidade industrial que antes não tínhamos, e outras já se instalando, o que faz o produtor ter para quem vender. Para o cerealista, tendo a indústria que fomenta e faz a captação, faz toda diferença — diz Scarantti.
Noroeste e Missões concentram a maior parte da produção, sobretudo porque as indústrias processadoras estão instaladas neste raio. Aos poucos, a canola começa a chegar também ao sul do Estado. O maior município em área plantada é Tupanciretã, seguido de Giruá e São Luiz Gonzaga com espaços semelhantes.
— É uma cadeia que se complementa com a indústria e a geração de valor e renda. O silo que estava ocioso, a logística que se amplia... é todo um ramo que fomenta — avalia o produtor.
Cadeia do leite

Presente em quase todos os municípios gaúchos, a bovinocultura de leite tem importância social e econômica no Rio Grande do Sul. Conforme a Emater, 451 municípios gaúchos produzem leite para industrialização (são 28.773 estabelecimentos). Outros 111 municípios possuem agroindústrias próprias formalizadas, com 173 estabelecimentos. Os dados fazem parte do Relatório Socioeconômico da Cadeia Produtiva do Leite no RS.
Conforme a Radiografia Agropecuária, são mais de 30 mil propriedades no Estado tendo a atividade leiteira como fonte de renda. O aumento da profissionalização, com a entrada de tecnologia nas propriedades, tem sido tendência e uma necessidade para que a atividade se mantenha. No entanto, também se coloca como um desafio de competitividade aos menores produtores.
— Noventa e cinco por cento do leite é produzido pela agricultura familiar. Mas são menos de 29 mil produtores hoje e isso nos preocupa porque há uma questão social que anda junto. Ainda assim, a atividade leiteira é uma alternativa para os pequenos, que não têm fôlego de serem grandes plantadores de soja, se manterem — diz Eugênio Zanetti, vice-presidente da Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Fetag-RS).
Para o diretor, o desafio é ser o mais eficiente possível. De outra forma, a concentração da produção em cada vez menos propriedades se acentuará como um problema.
O rebanho leiteiro é de 742.578 vacas (dado de 2025), com produção de 4 bilhões de litros de leite ao ano. Os maiores plantéis estão em:
- Santo Cristo
- Augusto Pestana
- Crissiumal
- Cândido Godói
- Ijuí
- Campina das Missões
- Marau
- São Francisco do Sul
- Ibirubá
- Três Passos
Em 2024, o Rio Grande do Sul manteve a exportação de lácteos para 44 países, gerando US$ 24 milhões, tendo a terceira posição do ranking de Estados exportadores do país.
Ainda na pecuária, o Estado é destaque na produção de aves, como o terceiro maior exportador da carne de frango do país, e 834,75 milhões de aves abatidas em 2024. E na suinocultura, como segundo maior exportador e produção de 958,7 mil toneladas de carne em 2024. Na bovinocultura de corte, o rebanho declarado é de 10,5 milhões de bovinos em 2025.



