A florada da primavera, estação que começa na próxima segunda-feira (22), tem outro colorido nas estufas e campos gaúchos nesta temporada. Depois de pandemia, estiagem e enchente, um trio de revezes na produção, é chegada a hora de uma safra mais próxima da normalidade, consolidando a retomada do setor.
Dados do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor) confirmam o desabrochar. A floricultura brasileira cresceu quase 10% em 2024, movimentando R$ 21 bilhões no PIB da cadeia produtiva e uma recuperação sobre a queda de 3,6% no ano anterior. No Rio Grande do Sul, segundo maior produtor, o montante passou de R$ 2,1 bilhões.
A retomada indicada pelos números foi puxada pelo aumento do consumo interno e pela expansão da produção. São 8,3 mil produtores no país, cultivando uma área total de 16.380 hectares de flores. São Paulo é o maior produtor nacional. Depois, vem o Rio Grande do Sul, com 550 produtores e 1.360 hectares em área florida.
Nos canteiros do Estado, o sentimento é de recuperação. Depois de a pandemia reduzir drasticamente o consumo de flores, especialmente pela inviabilidade no setor de eventos, a enchente trouxe outro entrave. Nas propriedades em que a água não levou as mudas, foi o nó logístico pela interdição de estradas que reduziu a produção.
— Primeiro as pessoas focam em reconstruir as suas casas, depois é que vão olhar para o jardim. E é esse movimento que começa agora, também com o momento da primavera — afirma Jair Calsing, produtor de Pareci Novo, no Vale do Caí.
Distante cerca de 70 quilômetros da Capital, a região é um dos polos da produção no RS. São 246 médios e pequenos produtores de flores e mudas somente em Pareci Novo. O Vale dos Sinos, o Vale do Taquari e a Grande Porto Alegre completam os maiores centros, concentrando 40% do total de produtores, conforme a Emater.
À frente da Flores Ouro Verde há 30 anos, Calsing vê o colorido das suas flores alcançar todo o Estado. Os caminhões de frete partem da empresa mais de uma vez na semana, levando as plantas para atacadistas e varejistas do sul ao norte do RS.
São 5 mil metros quadrados de estufa e mais de 50 variedades de plantas cultivadas no local. As chamadas flores de forração, ou flores de jardim, como amor-perfeito, petúnia e kalanchoe estão entre as opções. Também há chás, temperos e suculentas.

Contato direto com o produtor
Gerente Técnico Estadual da Emater, Luis Bohn chama atenção para a diversidade da produção gaúcha, que, além de riqueza em tipos de plantas, garante diversificação econômica aos produtores. São pelo menos 138 municípios com produção de flores no RS, em cultivos essencialmente tocados por agricultores familiares.
O destino predominante dessas plantas é a venda direta ao consumidor, mas há também os que levam suas flores para comercialização na Ceasa. São poucos neste grupo, cerca de 2% do total de produtores, conforme a Emater.
O contato facilitado pelas feiras de rua aproxima produtor e consumidor. Sucesso de público entre as bancas da Feira Ecológica do Bom Fim, a Porto Verde Orgânica forma filas de clientes aos sábados em busca dos buquês coloridos e autorais feitos na hora.
É do extremo sul de Porto Alegre, no bairro Vila Nova, que brota a produção. Cultivados no sistema orgânico, os canteiros de Gilberto Antunes, da Porto Verde, são referência regional na produção em campo aberto, ou seja, sem estufas.
Antunes é o principal produtor de flores, pelo menos em área, na zona rural de Porto Alegre. São cinco hectares ao todo, metade deles irrigados. Antes das flores, a propriedade se dedicava somente ao plantio de pessegueiros. Hoje, boca de leão, girassol e sempre vivas estão entre as variedades cultivadas. São 30 mil mudas de boca de leão plantadas ao ano e 2 mil girassóis colhidos ao mês, com mais força na primavera.
— Se não tivesse plantado flores, não teria funcionários (são quatro fixos ao todo). Antes não tínhamos tantas opções, mas com as flores e o mercado que elas têm, consigo abrir a propriedade para visitações e complementar a renda — diz Gilberto.
Espaço para crescer
Presidente da Associação Riograndense de Floricultura (Aflori) e vice-presidente do Ibraflor, Walter Winge destaca o apreço dos gaúchos pelas flores. Influenciada pela colonização alemã, a tradição do cultivo se tornou marca registrada de algumas regiões. Ainda assim, falta volume para atender a demanda existente.
O Rio Grande do Sul tem o segundo maior consumo per capita de flores do país e precisa recorrer às que vêm de fora.
— Temos uma relevância muito grande, embora o RS importe de outros Estados cerca de 60% do que consome. Em flor de corte (aquelas vendidas em hastes, para buquês), chega a uns 90%. Nos grandes supermercados, quase tudo vem de fora — diz Winge.
Na avaliação do diretor, as dificuldades de escala emperram um cultivo maior. Além disso, o perfil das propriedades dedicadas às flores é essencialmente familiar.
Para os agricultores, o custo alto no Estado, influenciado por questões de clima, é determinante para ampliar a produção.
— Temos percebido crescimento da produção, inclusive o diagnóstico mostra falta de produto pelo tamanho da demanda. Mas o clima é uma das questões que tem atrapalhado, inclusive como efeito em custo e desistência da atividade — completa o gerente técnico da Emater, Luis Bohn.
A oferta de mão de obra também é citada. São quase 30 mil empregos gerados pela cadeia de flores no Estado, mas haveria espaço para mais. Conforme o Ibraflor, o setor é um dos que mais emprega mulheres na agropecuária, com participação feminina de 56,2%.


