
Do alívio imediato à sensação de cobertor curto, o pacote de R$ 12 bilhões liberado pelo governo federal para amparo a produtores rurais afetados por questões do clima chega ao setor produtivo gaúcho numa mistura de percepções. Ao passo que são celebradas como conquista, as medidas anunciadas levantam dúvida quanto à capacidade de estancar o endividamento dos agricultores.
Presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag-RS), Carlos Joel da Silva diz que a medida em si é importante e enquadra quase todos os produtores afetados no Estado. A questão é o montante anunciado, considerado insuficiente.
— O problema é que não vai ter dinheiro para todo mundo, porque R$ 12 bilhões não são o bastante para o tamanho das dívidas — diz Joel.
A proposta inicialmente levada à Expointer, tradicional palco de discussões e demandas, falava em R$ 10 bilhões para a repactuação das dívidas e três faixas de juro: 6% para os pequenos, 8% para os médios e 10% para os grandes produtores. O prazo para o pagamento seria de sete anos.

As condições foram remanejadas após novas rodadas entre setor e governo, com aumento em tempo e valor. Subiu para os R$ 12 bilhões anunciados e pagamento em nove anos, nas mesmas faixas de juro inicialmente tratadas.
O coordenador geral da Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Fetraf-RS), Douglas Cenci, viu o pacote como realista.
— É uma medida que demorou para chegar, mas foi o tempo de amadurecer e encontrar o melhor caminho. Ainda que de forma modesta, a proposta contempla a nossa demanda. Juro de 6% (para pequenos produtores) diante de uma Selic de 15% é bastante razoável. Nove anos também é um bom prazo. Então, nos atende parcialmente. Agora a expectativa é pela operacionalização — avalia Cenci.
O que ainda está em discussão
Um ponto do anúncio que segue em debate diz respeito aos produtores que buscaram quitar as suas dívidas antes do pacote ser anunciado pelo governo federal e que não foram contemplados na medida provisória. Nas palavras da Fetag, o desalinho gerou uma situação injusta entre os produtores.
— O produtor não tinha recursos, então foi lá e renegociou as suas dívidas na CPR (Cédula de Produto Rural, um título de crédito). Outros tiraram financiamentos por meio de custeio agropecuário. Mas esses não estão previstos nas resoluções, porque só entraram os financiamentos contratados até 2024. Ou seja, quem contraiu financiamento agora para quitar dívidas fica fora da MP — explica Joel.
O presidente da Fetag diz que o entrave já foi alertado ao Ministério da Agricultura e que já houve entendimento por parte do governo de que seria “injusto” com os que buscaram limpar o nome. A tratativa é para que sejam inseridos na medida os contratos firmados também neste ano para o pagamento de dívidas passadas.
Ainda que tardio, o programa de socorro veio a tempo do plantio da próxima safra de verão, o que também foi visto como salutar pelo setor.
Levantamento mais recente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), feito a partir de pesquisa com três instituições financeiras, indica que o endividamento rural no Estado soma R$ 27,36 bilhões, atingindo 65.271 produtores.
Prejuízos refletidos na Expointer
As intercorrências do clima por cheia e estiagem já levaram à perda de 50 milhões de toneladas de grãos na produção agrícola do Estado, o que gera um prejuízo de R$ 200 bilhões que deixaram de circular na economia gaúcha, segundo a Farsul. A relevância do setor, portanto, justifica a necessidade de olhar especial ao RS.
— É um bom recurso, sem dúvida nenhuma. E vem em condições bastante razoáveis. Evidentemente que está aquém da necessidade de recursos que a Federação da Agricultura, através do seu departamento econômico, vinha apregoando. Não vieram os R$ 28 bilhões, mas vieram R$ 12 bilhões, e por meio de Medida Provisória, o que significa que vai chegar rapidamente ao produtor rural — disse o presidente Gedeão Pereira, após o anúncio.
O tamanho da quebradeira no campo apareceu nos números finais da Expointer. Foram R$ 4,4 bilhões em negócios em 2025, uma queda de 45,7% sobre a edição anterior. Motor em vendas, as máquinas e os implementos agrícolas caíram 50%, fechando em R$ 3,7 bilhões. Algo que já era esperado, mas que materializa a crise no campo. Já os consórcios cresceram na feira, reforçando a busca por alternativas para se reequipar.
Outro reflexo veio da origem dos compradores: quase 60% das negociações realizadas durante a feira foram encaminhadas por visitantes de fora do Estado.





