
Maior polo cervejeiro do país, com 186 fábricas registradas no Ministério da Agricultura, o Rio Grande do Sul tem avançado gradativamente na produção de lúpulo. Responsável por garantir aroma e amargor à bebida alcoólica, a flor verde em formato de cone, que está em plena colheita, é cultivada comercialmente por 23 agricultores gaúchos, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo). Apesar de pequeno, o número é crescente. Dois anos atrás, o Estado tinha somente cinco produtores ativos.
Geralmente realizado sem agrotóxicos, o cultivo da flor no Brasil é recente e veio na carona da expansão do consumo de cervejas artesanais. Ao longo da última década, com a multiplicação no número de cervejeiros amadores e de fábricas de pequeno e médio portes, a demanda por insumos para a elaboração da bebida cresceu. De todos os ingredientes utilizados no processo de elaboração, o único até então sem produção nacional era o lúpulo.
Por isso, iniciativas voltadas ao cultivo do insumo ganham força. O país hoje conta com 134 produtores em oito Estados, conforme a Aprolúpulo. Em 2018, eram 31 produtores em sete unidades da federação. A associação ainda não tem dados sobre o volume de produção, mas estima que a área plantada seja de 40 hectares em todo o Brasil.
— Se pensarmos que o lúpulo se consolidou como cultura na Europa e nos Estados Unidos há muitas décadas, nós ainda estamos engatinhando. O nosso plantio não tem mais de cinco anos. Nos próximos cinco anos, devemos a começar a ter polos produtivos regionais que poderão atender em escala à demanda da indústria — afirma Alexander Creuz, presidente da Aprolúpulo.
Com cerca de quatro hectares divididos entre Nova Roma do Sul e Nova Bassano, na Serra, o produtor Guilherme de Bastiani foi um dos primeiros a apostar no plantio de lúpulo no Estado. Desde 2015, realiza experiências com a flor e há três anos decidiu se dedicar profissionalmente à atividade. Neste ano, deverá obter em torno de 500 quilos da matéria-prima em um hectare e meio. O restante da área foi plantada no ano passado e ainda não está pronta para colheita.
— A cada ano a planta evolui e dá mais aroma na cerveja. Nos primeiros dois anos, ela não tem tanta qualidade. Do terceiro em diante, aumentam a produtividade e a qualidade, mas o potencial só vai ser atingido entre quatro e cinco anos — explica.
Bastiani deverá colher a safra de 2020 até março. A ideia dele é utilizar toda a matéria-prima para fazer a própria cerveja. Para isso, o produtor e um sócio investiram cerca de R$ 2 milhões para estruturar uma fábrica, que deverá lançar os primeiros rótulos com lúpulo gaúcho neste ano.
A cada ano a planta evolui e dá mais aroma na cerveja. Nos primeiros dois anos, ela não tem tanta qualidade. Do terceiro em diante, aumentam a produtividade e a qualidade, mas o potencial só vai ser atingido entre quatro e cinco anos.
GUILHERME DE BASTIANI
Produtor
Maior colheita alcança 1,5 tonelada
No Estado, a maior colheita deverá ser a do produtor Gustavo Laurindo, de São Francisco de Paula, na Serra. Em um hectare totalmente preenchido pela planta trepadeira, ele deve retirar cinco toneladas de cones verdes, aumento de 25% em relação a 2019. O material passará por secagem e será embalado a vácuo, totalizando cerca de 1,5 tonelada. Assim, deve ser negociado com fábricas de cerveja, lojas de insumos e cervejeiros caseiros.
— Ainda é um desafio colocar a produção no mercado, mas as perspectivas de comercialização estão melhorando. O custo de produção do lúpulo nacional é alto e acaba sendo vendido por R$ 150 a R$ 300 o quilo, enquanto o importado tem opções a partir de R$ 50 o quilo — compara Laurindo.
Neste ano, o produtor deve começar a transformar a flor em pelet, deixando-a em formato igual ao dos lúpulos importados e aumentando o prazo de validade para até três anos. Em flor, o ingrediente precisa ser utilizado poucos dias após a colheita. Já no formato de flor seca e embalada a vácuo, o tempo de uso máximo é de dois anos.

Rio Grande do Sul tem viveiro dedicado à cultura do insumo

Desde 2018, o Ministério da Agricultura passou a incluir o lúpulo no Registro Nacional de Cultivares (RNC). Hoje, há 41 variedades da flores reconhecidas e que podem ser comercializadas no país. Com a chancela do órgão federal, empresas passaram a oferecer mudas, formalizando o mercado do insumo. E um dos primeiros viveiros do país dedicados exclusivamente ao ingrediente da cerveja surgiu no Rio Grande do Sul.
Inaugurada em abril do ano passado, a estrutura é mantida pelo viveirista Natanael Moschen, de Gramado, na Serra. Recentemente, ele investiu na ampliação da estufa, elevando a capacidade produtiva de 2 mil para até 20 mil mudas ao mês. Hoje, cada unidade é vendida entre R$ 40 e R$ 45. O valor, no entanto, deve cair conforme a atividade ganhe escala.
— A ideia é baratear o preço da muda, incentivando o pequeno agricultor a realizar o cultivo do lúpulo. Hoje, o preço acaba sendo um impeditivo para muita gente entrar na atividade — aponta Moschen, que trabalha com nove variedades do produto.
Além de viveirista, Moschen mantém pouco mais de um hectare com a flor. Neste ano, espera colher até 400 quilos. O produtor aponta que o calor intenso e a falta de chuva entre dezembro e janeiro acabaram afetando as plantas. A tendência é de que a produção seja comercializada nos próximos meses para cervejarias e cervejeiros amadores.





