
A falta de perspectiva de reverter o tabelamento do frete de cargas no curto prazo leva empresas a formarem ou ampliarem frotas próprias de caminhões. A medida vem sendo analisada pelas empresas, independentemente de porte ou área de atuação. Os exemplos incluem JBS, que confirma a compra de 360 caminhões e planeja novas aquisições, a gigante de alimentos Cargill e a cerealista gaúcha Copagril. Algumas já tinham caminhões e estão retomando seu uso. Outras recorrem a leasing ou aluguel.
– Essa é a tendência, e digo isso com certo pesar, porque não é o nosso negócio – alerta Luis Henrique Teixeira Baldez, presidente da Associação Nacional dos Usuários de Transportes (Anut).
Para contratar menos freteiros, a Copagril, cerealista com sede em Ijuí e unidades em Coronel Barros e São Luiz Gonzaga, no noroeste do Estado, deve ampliar o uso de caminhões próprios no escoamento da produção para o porto de Rio de Grande.
– O problema é que a nossa frota não atende 100% da demanda, então acabamos comprando e vendendo menos e os grãos ficam estocados. Por isso, pensamos em aumentar a frota para não depender de terceiros – afirma Gregório Ferreira, sócio da Copagril.
Para o diretor de grãos e processamento da Cargill para América Latina, Paulo Sousa, processadoras e exportadoras irão adquirir grãos com entrega nas fábricas e nos portos, em vez de comprarem com retirada em fazendas ou armazéns.
Sousa detalha que, assim, se reduz o risco, permitindo o uso de frota própria nas rotas de alta eficiência, maximizando uso de hidrovias ou ferrovias. Mas, enquanto produtores com capacidade de investimento conseguirão, com frota própria, incorporar à receita os benefícios de um frete artificialmente sobrevalorizado, Sousa avalia que os pequenos serão forçados a se organizar em cooperativas de frete ou perderão competitividade.
– Instalou-se um grau de insegurança jurídica muito grande – lamenta Edeon Vaz Ferreira, diretor executivo do Movimento Pró Logística da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja-MT).
Silos mais cheios

Na Copagril, os efeitos já são percebidos nos silos mais cheios, devido à redução de 60% no fluxo de caminhões, tanto no desembarque quanto no embarque de grãos, diminuindo o giro de mercadoria – o que reflete na vida do produtor e dos caminhoneiros autônomos.
Para tentar driblar o aumento do transporte terceirizado, Gregório Ferreira, um dos proprietários da Copagril, conta que a saída vem sendo aumentar o uso de caminhões próprios no escoamento da produção para o Porto de Rio de Grande, ou seja, contratar menos freteiros.

– O problema é que a nossa frota não atende 100% da demanda da empresa, então a gente acaba comprando e vendendo menos e os grãos ficam estocados. Por conta disso, pensamos em aumentar a frota para não depender de terceiros – afirma o empresário.
Pelos seus cálculos, houve alta média de 70% no custo do frete para Rio Grande partindo do noroeste gaúcho, uma das regiões mais distantes do porto, bem como a principal produtora agrícola do Estado.
Essa indecisão sobre o frete, para Ferreira, também é prejudicial para o agronegócio, pois gera "insegurança jurídica".
– Ficamos travados para investir. Penso: se eu fizer algo agora, será que o resultado vai ser x ou x mais um? Você não sabe o que isso vai gerar ali na frente, então puxa o freio de mão – detalha Ferreira.
Além disso, acrescenta que o cenário incerto afeta a negociação com os produtores, com efeitos a longo prazo. Como em contratos desta safra os empresários perderam dinheiro porque os preços de compra e venda estavam definidos, faltando apenas a entrega, agora que o frete subiu, há receio de fechar novos negócios.
– Nessa época, já poderíamos estar fechando contratos futuros de grão. E não estamos fazendo na velocidade normal, porque não sabemos a quanto chegará o frete no ano que vem – afirma Ferreira.


