Quem achou que o inverno estava prestes a acabar se surpreendeu na semana passada com o registro de neve nos Campos de Cima da Serra, em São José dos Ausentes e Cambará do Sul. O fenômeno também chamou a atenção por ocorrer em setembro, mês que marca a transição da estação mais gelada do ano para a primavera.
Porém, enquanto nevava na serra gaúcha, outros locais do Brasil viviam um dia de verão. Em São José dos Ausentes, a temperatura mínima naquele domingo (6) chegou a 0,9°C, mas no Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste brasileiros, capitais como Belo Horizonte, Campo Grande, Rondônia e Cuiabá registraram máximas que ultrapassaram os 30 °C, segundo a Climatempo. A seguir, confira:
O que explica a diferença de temperaturas no Brasil?
Conforme a meteorologista Andrea Ramos, a diferença de temperaturas nas regiões acontece porque o Brasil é "muito extenso de Norte a Sul", e "diferentes massas de ar podem atuar simultaneamente.
— Enquanto o Sul estava sob influência direta de uma massa de ar polar, com temperaturas próximas ou abaixo de 0°C em algumas áreas, o Norte e parte do Nordeste permaneceram sob domínio de ar tropical quente — explica.
O Brasil é um país majoritariamente tropical, mas sua extensão territorial faz com que o Sul do país fique em "regiões subtropicais", conforme Ramos. Isso favorece o avanço de massas de ar polar que provocam "temperaturas muito baixas", durante o inverno e início da primavera, período de transição que apresenta um forte "contraste térmico", conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para Zero Hora.
— (A neve) não é uma contradição com o clima tropical brasileiro, é um fenômeno regional e episódico favorecido pela latitude, altitude e circulação atmosférica — acrescenta Andrea Ramos.
Neve na primavera?
É comum que, no mês de setembro, os episódios de frio intenso no Rio Grande do Sul se tornem menos frequentes e deem lugar a dias mais chuvosos e quentes. Neste ano, a primavera está marcada para começar no dia 22 de setembro, às 21h5min, conforme o Inmet.
A chegada da nova estação não impede que novas ondas de frio passem pelo Rio Grande do Sul, mas só é possível medir com mais certeza a previsão de neve a poucos dias do evento, segundo a especialista.
— Para nevar é preciso uma combinação bastante específica: frio intenso não apenas na superfície, mas também em altitude, presença de umidade e precipitação ocorrendo exatamente durante o período mais frio — complementa.
Ou seja, se essa massa fria coincide com umidade e precipitação, pode ocorrer neve.
Em São José dos Ausentes, os flocos de neve caíram na região do Pico do Monte Negro, a cerca de 1.400 metros de altitude. O ar gelado em diferentes níveis da atmosfera, junto com a umidade e altitude, fez com que "os cristais de gelo formados nas nuvens chegassem ao solo sem derreter completamente", detalha Ramos.
— Nesse dia, a condição meteorológica estava sob uma forte massa de ar frio que avançou sobre a região e encontrou umidade suficiente justamente nas áreas mais elevadas dos Campos de Cima da Serra — diz Andrea Ramos.
Além disso, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informou a Zero Hora que a a "forte e ampla massa de ar de origem polar teve um deslocamento meridional, de Norte a Sul, e junto com um ciclone extratropical no oceano trouxe as características favoráveis à neve".
Pode nevar de novo no RS?
Para Andrea Ramos, o frio ainda deve aparecer durante o restante mês de setembro, com "novas quedas bruscas de temperatura", apesar da tendência geral de dias mais quentes no trimestre. Em relação à neve, a meteorologista destaca que ainda "existe a possibilidade", mas é difícil de afirmar com certeza.
— Setembro ainda pode receber incursões de ar polar, principalmente nas áreas mais altas do Nordeste gaúcho. Mas, neste momento, não é possível afirmar que haverá um novo episódio de neve nas próximas semanas.
O El Ninõ tem a ver com isso?
Segundo a meteorologista Andrea Ramos, o El Niño, "no Sul do país, costuma favorecer maior frequência de chuva, maior disponibilidade de umidade com episódios de chuvas acima da média, especialmente durante a primavera", mas não é correto associar o fenômeno diretamente à neve que caiu na Serra gaúcha.
— A causa imediata foi a entrada de uma massa de ar polar intensa combinada com umidade e condições atmosféricas favoráveis. O El Niño funciona como um pano de fundo climático, alterando probabilidades e padrões de circulação ao longo de semanas e meses — esclarece Ramos.
A meteorologista ressalta que a "ocorrência de neve depende de um sistema meteorológico específico". Porém, "com algumas massas de ar polar sendo forte o suficiente", elas rompem o "bloqueio atmosférico e trazem o ar gelado do sul do continente", mesmo durante o fenômeno do El Ninõ, como apontado pelo Inmet.
Repercussão do fenômeno nas redes sociais
A neve registrada na serra gaúcha também ganhou espaço na web. Moradores, turistas e órgãos municipais compartilharam vídeos dos flocos caindo e de paisagens cobertas pelo fenômeno.
Em São José dos Ausentes, a Secretaria de Turismo e Cultura publicou um vídeo de pessoas andando a cavalo enquanto os flocos caíam. "O frio apertou, os campos ganharam um manto branco e a Serra se transformou em um daqueles cenários que a gente olha e custa acreditar que é de verdade", escreveu na publicação.
A repercussão do fenômeno também foi marcada pelo orgulho gaúcho e pelo bom-humor com expressões populares como "farmar aura". Usuários associaram a neve à identidade do Estado e brincaram com a paisagem de inverno:
*Sob supervisão da editora Estfany Soares


