O temporal que atingiu o Rio Grande do Sul entre a noite de quinta-feira (6) e a madrugada desta sexta (7) provocou destruição em ao menos 103 municípios e afetou diretamente 65 mil pessoas, segundo a Defesa Civil estadual. Mas, afinal, o que causou a tormenta responsável por tamanho estrago em solo gaúcho?
Um alerta emitido pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) na quarta-feira (5) anunciava a formação de um sistema de baixa pressão que poderia dar origem a um ciclone-bomba.
O fenômeno de fato se formou sobre o Uruguai e depois se afastou para alto-mar. Porém, de acordo com Murilo Lopes, meteorologista da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), não foi o responsável direto pelos estragos.
— O ciclone promoveu as condições meteorológicas antes da chegada da fonte fria. Esta, sim, associada a ele, permitiu a formação das tempestades mais severas. Então, o ciclone meio que contribuiu para organizar a atmosfera e dar instabilidade atmosférica — ressalta Lopes.
O que a gente viu foi uma frente fria que organizou uma linha de instabilidade, que avançou e causou vendavais
MURILO LOPES
Meteorologista da Universidade Federal de Santa Maria
Essa linha de instabilidade, formada à frente do ciclone e associada à passagem da frente fria, é uma faixa de tempestades que avança rapidamente por uma região. Ela pode provocar chuva forte, raios e rajadas intensas de vento, que contribuíram para parte dos estragos registrados.
Ou seja, o ciclone-bomba deu as condições para o surgimento do temporal, mas estava longe do Rio Grande do Sul.

Segundo tornado em duas semanas
O tornado que se formou em Pedro Osório, no sul do Estado, assustou a população gaúcha novamente, pois ainda na semana passada o fenômeno também havia sido registrado em cidades do Noroeste.
Porém, para a meteorologia, a sequência não é uma surpresa. O Rio Grande do Sul está em uma região muito favorável a tempestades severas que podem causar este tipo de evento atmosférico.
— Este tornado de Pedro Osório, em específico, ocorreu porque nós tínhamos uma grande condição de instabilidade, com ar bastante quente e úmido sobre o Rio Grande do Sul, que favorecia essas tempestades — detalha Murilo Lopes.
A condição atmosférica favorecia tempestades que podiam adquirir rotação devido a um padrão de vento, ficando mais intenso e mudando de direção conforme subia na atmosfera
MURILO LOPES
Meteorologista da Universidade Federal de Santa Maria
O meteorologista da UFSM garante que os tornados estão "mais comuns" não pela incidência, mas pela documentação – antes, quando ocorria um fenômeno deste tipo, não havia registro em imagens, o que mudou com o acesso a celulares e internet.
E a impressão de que eles são mais frequentes no Interior se dá pela probabilidade: o Estado possui uma área urbana bem menor que a rural.
Portanto, as chances de um tornado atingir uma cidade são mais reduzidas. Mas há ocorrências aqui no Estado, como em Antônio Prado, na Serra, em 2003, que deixou cinco mortos e outras oito pessoas feridas.
Trégua momentânea
Depois do temporal, a maior parte do Estado deve ganhar uma trégua na chuva, segundo Gustavo Verardo, meteorologista da Climatempo. O sol predominará nos próximos dias com queda acentuada nas temperaturas — apenas neste sábado (8) pode haver precipitação leve na Metade Norte.
— A gente já teve o ingresso de uma massa de ar frio. Então, de hoje até a terça que vem, boa parte do Rio Grande do Sul vai ter uma condição de tempo mais seco, com menos vento. Inclusive, no domingo e na segunda deve ter geada na Campanha. A chuva está estimada para retornar só na quarta — explica Verardo.
Entretanto, o meteorologista avisa que este tempo seco fará somente algumas participações especiais no Estado pelos próximos meses.
O restante do inverno, assim como a primavera, deverá contar com eventos climáticos severos. Conforme Verardo, o período conta com maior energia atmosférica, que ainda será amplificada pelo El Niño.



