
Desde que foram cantadas as primeiras projeções para um El Niño de potencial muito forte este ano, qualquer registro novo do clima vem sendo analisado à lupa para garantir a informação mais precisa possível a uma população alarmada com a possibilidade de novas enchentes. Ainda que nem sempre seja possível ajustar o dado com exatidão ao que acontece, uma rede de estações mais robusta tem permitido ao RS estar melhor preparado para eventos extremos.
A observação é do coordenador do Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos do Rio Grande do Sul (Simagro-RS), vinculado à Secretaria da Agricultura, Flávio Varone. Com mais de três décadas dedicadas ao estudo do tempo, o meteorologista reforça os avisos de que, se confirmado, o fenômeno pode ser um dos mais fortes já registrados.
O pesquisador diz que o Estado avançou em coleta e análise de dados nos últimos anos, mas enfatiza que ainda é preciso criar uma cultura social que reconheça a importância dos alertas meteorológicos.
— Sempre é bom dizer que uma infraestrutura não inibe a ocorrência. Ela é ferramenta de trabalho para que possamos alertar a população e os gestores públicos para tomarem a decisão da ação preventiva — diz.
Enquanto "toreava", a campo, a chuva que voltou inundar o Rio Grande do Sul nesta semana, Varone respondia à Zero Hora sobre o que esperar do fenômeno climático nos próximos meses.
Confira a entrevista com Flávio Varone
Muita coisa referente ao tempo meteorológico não se pode prever com tanta antecedência. Mas o que podemos esperar, hoje, sobre a atuação do El Niño?
Existe a previsão climática, que se estende por um longo período, e existe a previsão de curto prazo, que é o tempo meteorológico. Você tem que casar as duas informações. Hoje, nós conseguimos fazer uma projeção de El Niño baseada em índices climáticos que estão disponíveis e, no momento em que esse fenômeno estiver acontecendo e trazendo consequências para nós, a previsão do tempo se torna essencial. Porque é na previsão do tempo que nós vamos definir realmente a intensidade desses fenômenos, os possíveis danos que eles podem provocar e, principalmente, trazer uma informação que possa alertar a população.
Talvez se confirme, pelos índices que temos hoje da projeção, um El Niño de grandes proporções, talvez nunca registrado. É um 'talvez' que vai se confirmar nos próximos três meses. E tendo um El Niño dessa magnitude, isso pode trazer prejuízos grandes para o Estado.
FLÁVIO VARONE
Coordenador do Simagro-RS
Serviços internacionais de meteorologia como o NOAA, dos Estados Unidos, e o europeu ECMWF, são referência na geração de informações sobre clima. Qual a capacidade do Rio Grande do Sul de produzir os seus próprios dados?
Esses grandes sistemas internacionais de meteorologia e clima estão há muito tempo na estrada. Eles têm uma história muito longa, décadas e décadas de atuação. O Brasil, nesse sentido, está algumas décadas atrás. Órgãos federais começaram a trabalhar com essas informações, em associação com os grandes institutos internacionais, e tivemos um ápice muito grande duas décadas atrás com os centros regionais.
A capacidade do Rio Grande do Sul é um pouco mais nova. O Estado ficou muito tempo atrás de grandes centros regionais de referência, como o do Ceará, de São Paulo, ou aqui perto, como excelentes sistemas estaduais que são os de Santa Catarina e do Paraná. O Rio Grande do Sul ficou uns 30 anos atrás. Nós, aqui no Simagro, começamos em 2020 a tentar mudar essa história, fazendo com o que o Estado gerasse os seus próprios dados.
Hoje, falando do Simagro, que é um sistema específico para a agricultura, temos um banco de dados próprio e uma rede de estações muito forte, e isso vai se refletir daqui a 20, 30 anos, se o Estado mantiver esse sistema. Hoje, o Rio Grande do Sul está produzindo dados para lá na frente conseguir trazer maiores resultados. Por enquanto, temos que usar dados que vêm de fora.
O Estado ampliou o número de estações meteorológicas nos últimos anos. Este aparato é capaz de cobrir todo o território gaúcho?
A ampliação de estações meteorológicas, de sítios de coletas de dados pelo Interior, é essencial. O ideal seria ter o máximo de instalações possível. Nunca é suficiente, principalmente num Estado como o Rio Grande do Sul, que tem relevos diferentes, dois biomas, então a cobertura na superfície de estações é fundamental para saber as diferenças que se tem em climas menores, em microclimas regionalizados.
A experiência que temos no Simagro é que saímos de 14 estações em 2020 para 102 estações em 2025. Cinco anos não é nada se falarmos de clima, mas esse período já nos trouxe algumas referências em termos de áreas mais frias, áreas mais quentes, alguns locais em que chove mais ou menos em determinada época do ano ou que sofrem com a sazonalidade.
Como funciona a operação a campo nestas estações?
O Simagro tem dois tipos de estações: uma mais robusta, de referencial internacional, e uma que dá ótimos resultados para o que buscamos nos estudos no setor agropecuário. Outras estações de outros institutos, tanto do Estado quanto federais, compõem essa rede. A operação no campo é um pouco mais complicada. Tem que manter o técnico diretamente onde uma estação está com algum problema para resolver. Isso requer tempo, recurso e capacidade técnica.
Quando você vê um dado num aplicativo ou num site, parece que aquilo é automático, mas existe toda uma retaguarda para que o dado chegue ali.
A meteorologia começa no campo, nas estações. Sem as estações meteorológicas, sem a coleta de dados ostensiva e sem uma densidade grande de estações, você não vai ter o resultado final, que são os modelos meteorológicos.
FLÁVIO VARONE
Coordenador do Simagro-RS

Clima e agricultura estão intimamente ligados. Quais os perigos de um forte El Niño para a produção gaúcha?
A condição climática para a agricultura é fundamental. Desde o preparo do solo, passando por qual variedade plantar em função das condições climáticas previstas. Assim como vai chegar na colheita e vai precisar de condição meteorológica favorável até mesmo no transporte, com condições ideais nas estradas para ter o mínimo de perda possível.
Confirmando as projeções de El Niño forte, nós podemos ter dois problemas. Primeiro, o final do ciclo de inverno ser prejudicado por temperatura e umidade acima da média a partir de agosto, o que pode trazer doenças e operação dificultada no campo, muito barro, excesso de chuva que pode prejudicar a qualidade do grão e principalmente a colheita.
E para a safra de primavera e verão, certamente vai trazer um atraso da semeadura, com muita chuva prevista durante a primavera. Vamos ter também alta temperatura e umidade ao longo do desenvolvimento da safra, o que pode trazer doenças com fungos. Também teremos muitas nuvens e isso dificulta a operação porque diminui a luminosidade. É um desafio enorme para a produção gaúcha.
O Rio Grande do Sul esteve nos últimos dias sob alertas severos de chuva forte e ventania. O que as estações meteorológicas reportaram sobre estes eventos?
O Rio Grande do Sul, na sua posição geográfica, tem atuação de eventos severos em praticamente todas as regiões. Nossa estação em Porto Vera Cruz, por exemplo, registrou 10 dias de 40 graus. E outras de muito frio. Hoje o Simagro é o único sistema que tem estações na APA (Área de Proteção Ambiental) do Ibirapuitã, entre Livramento, Quaraí, Rosário e Alegrete, e ali nós registramos –7,6°C no inverno.
E em relação à chuva, tem as áreas onde o Estado sofre mais, no Centro Norte, principalmente entre a Serra, o Planalto e a Região Metropolitana, onde os rios desembocam na Bacia do Guaíba. Mas outras regiões também sofrem com volume alto de chuva, tempestades severas, vento, algumas vezes até tornados ou microexplosões. As estações colaboram para termos no futuro uma conclusão maior de quais são as regiões que mais sofrem e detectar e sanar os problemas da melhor forma possível.
Especialistas no mundo todo falam da necessidade de se ter uma mochila de emergência para enfrentar eventos extremos. O conselho se aplica aos gaúchos?
Na atual conjuntura, em áreas de risco, principalmente, se aconselha isso. Temos um grande problema que é a ocupação de áreas de risco, um problema público grande. O conselho aos gaúchos é que se tenha, sim, em momentos de previsão desses eventos, uma sacola básica, uma mochila de emergência, para conseguir num primeiro momento se organizar e se afastar da área de risco.
O monitoramento climático trabalha com previsões e, justamente por isso, nem sempre os alertas mais severos se confirmam. Como trabalhar a credibilidade dos sistemas de alertas com a população?
Isso é bom diferenciarmos. A estação não dá previsão, ela dá a condição do momento. Isso ajuda o técnico que está em monitoramento a saber exatamente qual é a situação em cada área que está a estação e quais mudanças vêm ocorrendo em função dos dados. Quanto aos alertas mais severos não se confirmarem, isso é natural. Você vai ter um percentual em determinado instituto, outro menos, outro mais, em função da análise que se faz.
Hoje eu comparo muito em palestras e reuniões que eu participo que o meteorologista é igual árbitro de futebol: só é lembrado quando erra. O problema é que, diferentemente do futebol, nós trabalhamos com vidas. Numa situação de calamidade, nós podemos ter óbitos. Deveríamos criar uma cultura em relação aos alertas. Trabalhamos com probabilidade, muitas vezes não se confirma, muitas vezes o técnico analisa variáveis, campos meteorológicos que ele tem mais conhecimento e isso pode levar a algum erro, mas não quer dizer que temos um sistema falho.
Temos um sistema bem robusto hoje no Estado, a Defesa Civil faz um grande trabalho e mudou muito desde 2024 com o Simagro colaborando na medida do possível.
O essencial é termos uma cultura de previsão e não achar que a meteorologia e a previsão do tempo são folclore. A partir daí vamos entender que os sistemas de alerta são fundamentais para a população.
FLÁVIO VARONE
Coordenador do Simagro-RS

O Rio Grande do Sul está preparado para eventuais novos desastres?
Hoje o Rio Grande do Sul está mais preparado. Depois da catástrofe de 2024, houve investimento muito grande. Tivemos uma organização maior, uma infraestrutura maior, mas sempre é bom dizer que uma infraestrutura não inibe a ocorrência. Ela é ferramenta de trabalho para que possamos alertar a população e os gestores públicos para tomarem a decisão da ação preventiva.
Para isso é que se tem um sistema de monitoramento grande, robusto, radares e técnicos trabalhando. E quando eu falo técnico não é só meteorologista. Você precisa de agrônomo, geógrafo, geólogo, engenheiro, uma gama muito grande e multidisciplinar de técnicos e que sejam treinados para ir atuar nas áreas onde ocorre o desastre. Acho que o Rio Grande do Grande Sul recuperou um bom tempo perdido. Ainda não é o ideal, mas vamos chegar nesse ponto no futuro, certamente.
O que esperar do restante do inverno? E da primavera?
A partir de agora devemos começar a ter uma situação de mais umidade sobre o Rio Grande do Sul. Agosto deve ser já com mais chuva, trazendo uma influência do El Niño nesse final de inverno. Consequentemente, a temperatura não diminui tanto. As ondas de frio, se acontecerem, serão muito curtas.
Para primavera, é uma situação completamente diferente. Como o El Niño está no seu ápice durante a primavera, possivelmente vamos ter eventos mais severos se essa projeção se confirmar. Então a primavera deve ser um pouco mais chuvosa aqui no Estado, com temperaturas um pouco mais elevadas em função da falta de ar seco. A diferença entre a temperatura da noite e da madrugada com a temperatura da tarde, ou seja, a amplitude térmica, não vai ser tão marcante nessa primavera em função da umidade e da chuva.

