
Enquanto os gaúchos começaram a tirar o casaco ao longo de uma quinta-feira (30) de sol e se preparam para máximas que podem chegar aos 30ºC nesta sexta (31), os hermanos do outro lado da fronteira enfrentam um cenário bem diferente. A Argentina registra baixas temperaturas. Na Patagônia, convivem com frio intenso e episódios de neve.
A diferença chama atenção porque o país e o Rio Grande do Sul compartilham características semelhantes por estarem na faixa de clima subtropical.
Apesar disso, meteorologistas afirmam que o contraste térmico está dentro do esperado para esta época do ano e é resultado de uma configuração atmosférica que divide o Cone Sul entre áreas mais quentes e mais frias.
A previsão aponta para esta sexta que as maiores máximas no Estado devem ocorrer no Oeste, Missões, Centro, Vales e Região Metropolitana, com temperaturas entre 28ºC e 30ºC. No sábado (1º), o aquecimento ganha ainda mais força, onde os termômetros podem chegar aos 33ºC em algumas regiões.
Por outro lado, as mínimas na Patagônia argentina têm ficado abaixo de zero, com registros de -8ºC a -14ºC, conforme o Serviço Meteorológico Nacional.
Leia nesta reportagem:
O que explica o contraste no Cone Sul?

Enquanto o RS registra um período de aquecimento, o extremo sul da América do Sul permanece sob influência de massas de ar polar mais intensas. O resultado é um contraste térmico que separa o continente entre áreas mais quentes ao norte e mais frias ao sul.
Segundo o climatologista Francisco Aquino, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), esse tipo de cenário pode ocorrer justamente em períodos influenciados pelo El Niño, fenômeno conhecido por favorecer eventos extremos em diferentes regiões da América do Sul.
— Em anos de El Niño, você tem eventos extremos. Ondas de calor, temperaturas e chuva acima da média na Região Sul. Mas também tem nevascas mais intensas e temperaturas bem abaixo da média mais ao sul do continente. Esse sinal está presente agora — explicou.
De acordo com o pesquisador, existe uma espécie de "corredor" de ar frio que se forma entre o sul do Chile, a Argentina e a Antártida. Ele empurra o frio com mais força para a Patagônia.
Isso ajuda a explicar por que a região registra temperaturas abaixo de zero e neve ao mesmo tempo em que áreas mais ao norte convivem com termômetros mais altos para os padrões de inverno.
O meteorologista Gustavo Verardo, da Climatempo, afirma que um padrão de ondas atmosféricas também contribui para o cenário atual. Segundo ele, as massas de ar frio permanecem mais concentradas sobre a Patagônia argentina e o sul do Chile, enquanto o sul do Brasil segue sob influência de temperaturas mais altas.
Calor está dentro do esperado
Embora as temperaturas elevadas chamem atenção em pleno inverno, os especialistas destacam que o fenômeno não é incomum no Rio Grande do Sul. O calor acontece porque uma frente fria está a caminho. Antes que ela chegue, ventos vindos do Norte trazem ar quente para o Estado, o que faz a temperatura subir rápido.
Além disso, o inverno gaúcho é marcado justamente pela alternância entre períodos frios e momentos de aquecimento mais expressivo. Por isso, máximas próximas dos 30ºC podem ocorrer mesmo durante a estação mais fria do ano.
Segundo Francisco Aquino, os contrastes térmicos tendem a ficar mais frequentes em um cenário de aquecimento global e de intervalos menores entre eventos de El Niño e La Niña.

Quando o tempo muda?
A mudança de cenário deve começar no sábado (1º), quando a frente fria avança pelo Rio Grande do Sul.
Inicialmente, o risco de temporais será maior na Campanha, Oeste, Centro e Missões. Ao longo do dia, a instabilidade se espalha para as demais regiões do Estado. Há previsão de rajadas fortes de vento e possibilidade de danos pontuais associados aos temporais.
Temperaturas voltam a cair no domingo
Depois do calor desta sexta-feira e do sábado, as temperaturas voltam a cair no Rio Grande do Sul durante o domingo (2).
A queda, porém, não deve ser tão intensa quanto a observada nas áreas mais frias da Argentina. A projeção da Climatempo indica um cenário de temperaturas mais amenas nos primeiros dias de agosto, sem a chegada de uma massa de ar polar significativa ao Estado.
* Sob orientação e supervisão do jornalista Beto Azambuja




