
A Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram) passou a monitorar a presença da rã-touro (Aquarana catesbeiana), uma espécie exótica invasora, no bairro Ratones, no Norte da capital. As informações são do portal g1.
O termo descreve um animal originário de outra região que, ao se instalar fora de seu ambiente natural, se reproduz sem controle e causa danos à fauna local.
O objetivo da prefeitura é conter e acompanhar o crescimento populacional do animal, que já teve 11 exemplares capturados na cidade desde outubro de 2025.
Categoria 1 da lista de espécies invasoras
A rã-touro, conhecida pelo som semelhante ao mugido de um boi, está classificada na categoria 1 da lista de espécies exóticas invasoras de Santa Catarina, o nível de maior alerta, que orienta as ações de manejo no Estado catarinense.
A espécie é considerada uma ameaça à biodiversidade por competir com a fauna nativa, alterar o equilíbrio dos ecossistemas e transportar patógenos associados ao declínio de anfíbios em diferentes partes do mundo.
O primeiro registro do anfíbio em Florianópolis aconteceu em outubro de 2025, em uma propriedade de Ratones, um refúgio rural no centro-norte da Ilha de Santa Catarina.
Desde então, foram realizadas duas ações de campo. Em novembro de 2025, 10 animais foram capturados, sendo três juvenis e sete adultos.
Em março de 2026, mais um exemplar foi recolhido. A presença já foi confirmada em três propriedades, e relatos de moradores indicam que a espécie pode estar instalada no bairro há ainda mais tempo.
Os exemplares capturados foram levados ao Laboratório de Ecologia de Anfíbios e Répteis da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde passarão por análises que incluem a testagem para dois agentes causadores de doenças:
Ranavírus
Vírus que afeta animais de sangue frio, como anfíbios, peixes e répteis.
Os surtos variam de infecções leves a mortandades em massa, capazes de eliminar populações inteiras em poucos dias, com índices de mortalidade superiores a 90% em alguns episódios, conforme revisão científica reunida na obra Ranaviruses: Lethal Pathogens of Ectothermic Vertebrates.
Quitridiomicose
Doença causada pelo fungo Batrachochytrium dendrobatidis (quitrídio), que ataca a pele dos anfíbios. Como esses animais utilizam a pele para respirar e regular a água do corpo, a infecção pode comprometer funções vitais e levar à morte.
Um levantamento global publicado na revista Science em 2019 associou a doença ao declínio de pelo menos 501 espécies de anfíbios no último meio século, incluindo 90 já consideradas extintas na natureza. Trata-se do maior impacto causado por uma única doença à biodiversidade já registrado.
Há risco ao ser humano?
A rã-touro não oferece risco direto à saúde humana. Nenhum dos dois patógenos infecta pessoas, já que ambos se restringem a animais de sangue frio.
O anfíbio também não é venenoso nem representa ameaça para quem o encontra, e a preocupação das autoridades é estritamente ambiental.
Ainda assim, a orientação é não manusear os exemplares por conta própria, para evitar o transporte acidental do fungo de um local para outro por meio de roupas, calçados ou equipamentos.
O que é a rã-touro
Originária da América do Norte, a rã-touro foi trazida ao Brasil em 1935, no Rio de Janeiro, para criação comercial em ranários voltada à produção de carne. Com o fechamento dessas estruturas ao longo das décadas, escapes e solturas acabaram introduzindo o animal na natureza.
Trata-se de uma espécie generalista, ou seja, que se adapta a ambientes diversos e se alimenta de uma grande variedade de presas, com alta capacidade reprodutiva.
O animal põe muitos ovos, cresce rapidamente e pode chegar a 15 centímetros, segundo estudo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), publicado na revista Scientific Reports.
A rã-touro é considerada a principal espécie de anfíbio invasora do mundo.
Por que a espécie é perigosa para a fauna?
O tamanho da rã-touro a transforma em uma grande predadora, o que facilita tanto a competição por alimento quanto a ocupação dos territórios de espécies nativas.
Além de outros sapos, o animal pode se alimentar de cobras, aves e até pequenos mamíferos.
O maior problema, porém, está nas doenças que ela carrega.
A rã-touro convive com o ranavírus e o fungo quitrídio sem prejuízos aparentes ao seu desenvolvimento, enquanto os anfíbios nativos têm pouca resistência a esses agentes.
Por isso, é considerada uma portadora silenciosa, capaz de disseminar infecções sem apresentar sintomas.
A preocupação aumenta porque a espécie já está amplamente distribuída pelo território nacional.
Segundo o estudo das universidades paulistas, a rã-touro se espalhou pela Mata Atlântica, do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, e análises genéticas identificaram duas populações do animal no Brasil, presentes tanto em ranários quanto em ecossistemas naturais invadidos.
Por que ela "muge" como um boi
O som grave que dá nome ao animal é, na verdade, o canto reprodutivo do macho. Apenas os machos vocalizam, por meio de uma estrutura chamada saco vocal, que funciona como uma câmara de ressonância e amplifica o som.
Durante a época de reprodução, o canto serve para atrair as fêmeas e avisar outros machos de que aquele território está ocupado.
O tom profundo tem relação com o tamanho do bicho. Quanto maior o macho, mais grave é a frequência do canto; quanto menor, mais aguda.
Por se tratar de um anfíbio de grande porte, a rã-touro emite uma vocalização baixa e potente, que lembra o mugido de um boi.
Esse mesmo canto atrapalha a vida das espécies nativas, que dependem da comunicação sonora para encontrar parceiros e acabam abafadas pelo som do invasor.
População pode ajudar no monitoramento
O trabalho em Florianópolis também inclui atividades de educação ambiental, conduzidas pela Floram em parceria com a UFSC.
A proposta é envolver escolas, moradores e comunidades no mapeamento participativo da espécie e incentivar a população a relatar locais onde o animal foi visto ou onde seu som característico foi ouvido: a vocalização grave semelhante ao mugido de um boi.
Quem identificar a ocorrência deve comunicar à Floram pelo e-mail fdepuc.floram@gmail.com ou pelo WhatsApp (48) 3237-5660.
A orientação é que o manejo não seja realizado por conta própria.





