
Dois anos após a enchente que devastou o Rio Grande do Sul e em meio à expectativa de que a influência do El Niño seja percebida nos próximos meses, uma nova plataforma desenvolvida pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) busca transformar dados climáticos em informação para prevenção.
A ferramenta reúne indicadores sobre riscos ambientais, desastres naturais e os impactos da cheia de 2024 em todas as regiões do Estado.
Gratuita e aberta ao público, a plataforma foi desenvolvida por pesquisadores vinculados ao Escritório Local de Inovação Rio da Várzea e ao Programa de Pós-Graduação em Agronegócios da UFSM. A proposta é facilitar o acesso a informações que hoje estão dispersas em diferentes bases de dados e podem servir de apoio para governos, órgãos de defesa civil, pesquisadores e cidadãos.
— Não tem nenhum dado criado por nós. São informações que já estão disponíveis em diversas bases. O que fizemos foi facilitar o acesso para a população gaúcha, em função da emergência climática que ainda vivemos — afirma o coordenador do projeto, o professor Nelson Guilherme Machado Pinto.
A iniciativa surgiu a partir de um projeto de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs), aprovado em um edital emergencial criado após as enchentes de 2024. O objetivo é investigar os fatores que contribuíram para os desastres climáticos no Estado, especialmente sob a perspectiva da governança ambiental.
Mais desastres do que alertas
Entre os aspectos que mais chamaram a atenção dos pesquisadores está a frequência de eventos extremos registrados no Rio Grande do Sul.
Segundo Pinto, os dados indicam que muitos municípios acumulam ocorrências de desastres naturais sem que haja uma cultura consolidada de monitoramento, e alerta proporcional a esses riscos.
— É melhor prevenir do que reconstruir. A reconstrução é muito mais cara. Precisamos amadurecer uma cultura de resposta aos desastres, porque eles não são uma possibilidade distante. Eles já fazem parte da nossa realidade — afirma.
O acesso à plataforma pode ser feito gratuitamente pelo site da UFSM, em computadores, tablets e celulares.

Dados por região
Um dos diferenciais da plataforma é a organização das informações de acordo com as 28 regiões dos Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes), permitindo que o usuário visualize dados específicos de cada território.
Segundo Pinto, a lógica regional busca refletir a forma como os eventos climáticos extremos afetam o Estado.
— A emergência climática não é exclusiva de um município. Ela precisa ser entendida regionalmente. Por isso, trabalhamos com as regiões de desenvolvimento do Rio Grande do Sul para identificar onde estão os principais problemas e quais áreas exigem mais atenção — explica o professor.
Entre os dados disponíveis estão registros de desastres naturais dos últimos anos, informações sobre estações meteorológicas, indicadores ambientais, características socioeconômicas e números relacionados aos impactos da enchente de 2024, como famílias atingidas e empresas afetadas.
Os dados abrangem, em sua maioria, os últimos 10 anos e devem ser atualizados periodicamente. A equipe pretende revisar mensalmente as bases para incorporar novas informações oficiais.
Prevenção e adaptação
Mais do que reunir estatísticas, os pesquisadores pretendem utilizar os dados para orientar propostas de prevenção e adaptação às mudanças climáticas.
Para Pinto, um dos desafios do Estado é transformar a cultura de resposta a desastres em uma cultura de prevenção.
— Hoje, muitas pessoas não sabem responder perguntas básicas: moro em uma área de risco? Se precisar sair, para onde devo ir? Qual é o caminho seguro? Essas informações deveriam estar muito mais claras para a população — afirma o docente.
Na avaliação do pesquisador, os dados da plataforma mostram que determinadas regiões concentram maior vulnerabilidade a eventos extremos, como os vales do Taquari, do Rio Pardo e dos Sinos, além da região metropolitana de Porto Alegre, áreas que estiveram entre as mais afetadas em 2024.
A ideia é que o mapeamento ajude a identificar prioridades e sirva de base para futuras políticas públicas.
— Para resolver um problema, primeiro é preciso entender onde ele é mais urgente. A plataforma busca justamente trazer esse alerta inicial e ajudar a direcionar ações — observa Pinto.
Lições de fora
A plataforma é apenas uma das frentes de um projeto mais amplo desenvolvido pela UFSM. Como parte da pesquisa, a equipe vem estudando experiências nacionais e internacionais de enfrentamento a desastres.
Nos últimos meses, os pesquisadores visitaram Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, além de Nova Orleans, nos Estados Unidos, cidade marcada pela devastação provocada pelo furacão Katrina.
Também estiveram em Tóquio, no Japão, onde analisaram sistemas de preparação para terremotos e tsunamis. Uma nova missão está prevista para Valência, na Espanha, que enfrentou cheias severas em 2025.
A partir dessas experiências, a equipe pretende produzir relatórios e recomendações voltados à gestão pública e à governança ambiental no Rio Grande do Sul.
— A emergência climática vai continuar. Os problemas que enfrentamos não são exclusivos do Estado. Existem exemplos e estratégias adotadas em outros lugares do mundo que podem nos ajudar a construir respostas melhores — afirma o coordenador.





