Garrafas, sacolas plásticas e resíduos de higiene pessoal fazem parte da mistura fétida e escura que chega diariamente à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Mato Grande, em Canoas, na Região Metropolitana. Cerca de 90 horas depois, entretanto, essa mesma água está pronta para retornar à natureza — agora limpa, inodora e incolor.
Esse é o processo invisível que despolui 60% do esgoto sanitário da cidade. O trabalho na unidade de Canoas é uma pequena parcela de uma meta ambiciosa: atender 90% da população brasileira com coleta e tratamento de esgoto até dezembro de 2033.
O que prevê o Novo Marco Legal do Saneamento?
Esse desafio nacional é estabelecido pelo Novo Marco Legal do Saneamento, que prevê quatro componentes fundamentais para universalizar o serviço:

- Coleta: a ligação predial dos esgotos sanitários das residências à rede pública.
- Transporte: o deslocamento dos esgotos coletados por tubulações até as unidades de tratamento.
- Tratamento: o processamento químico e biológico dos esgotos para redução da carga poluidora.
- Disposição final: a destinação ambientalmente adequada dos efluentes tratados e dos lodos originários das operações (incluindo fossas sépticas).
Conforme a legislação, as concessionárias que não atingirem as metas pactuadas podem sofrer sanções graves, incluindo a proibição de distribuir lucros ou dividendos aos seus acionistas.
• LEIA TAMBÉM: Na primeira reportagem da série, entenda como a água da torneira é tratada antes de chegar a sua casa
Como funciona uma estação de tratamento de esgoto

A ETE Mato Grande tem capacidade para tratar 320 litros de esgoto bruto por segundo, operando atualmente com uma média de 240 litros por segundo, 24 horas por dia. O resultado final é um material clarificado que pode ser devolvido aos rios com segurança.
— A transformação do esgoto doméstico em tratado garante que o corpo receptor não sofra com a eutrofização, que é o acúmulo excessivo de nutrientes na água. Assim, tanto a vida aquática da região quanto a fauna que utiliza esse ambiente não são prejudicadas — explica Rodrigo Krentz, coordenador de Operações da Metrosul/Corsan.
O processo completo de despoluição é dividido em quatro etapas principais:
1. Etapa Preliminar (Separação mecânica)
Retenção de sólidos: o esgoto bruto que chega da rua passa por grades mecânicas para a retirada de resíduos descartados incorretamente, como tampas de garrafa, gravetos, absorventes e lenços umedecidos.
Desarenador: a areia misturada ao esgoto decanta em uma caixa específica antes que a água siga para a fase biológica.
2. Tratamento Biológico
Lodos ativados: nesta fase, o líquido passa por um reator repleto de bactérias e microrganismos que realizam a degradação natural da matéria orgânica.
3. Processo Físico-Químico
Aglutinação e decantação: é aplicado sulfato de alumínio para aglutinar as micropartículas restantes. Elas pesam, vão para o fundo do tanque (decantação) e são removidas, resultando em um líquido já clarificado.
4. Desinfecção e Descarte
Aplicação de hipoclorito: por último, o material passa por uma desinfecção com hipoclorito de sódio para eliminar vírus e bactérias patógenas.
Devolução ao meio ambiente: o efluente tratado e limpo é devolvido aos mananciais, em total conformidade com as licenças ambientais.
Destinação do lodo e resíduos: o lodo restante vai para um leito de secagem, passa por desumidificação e é enviado para compostagem, podendo virar adubo para agricultores. Já os lixos retidos na primeira etapa vão para aterros sanitários licenciados.
Expansão do saneamento depende da adesão dos moradores
O processo realizado na estação visitada pela reportagem evita, todos os dias, o despejo de toneladas de esgoto bruto no Arroio Araçá, que recebe a água tratada antes de desaguar no Rio dos Sinos.

Em cumprimento às metas federais, a Corsan Aegea vem expandindo as redes de esgotamento sanitário em regiões que ainda não contavam com o serviço. A companhia afirma que destinou cerca de R$ 1 bilhão para essa finalidade no Rio Grande do Sul.
No entanto, a eficiência do sistema depende de uma contrapartida: a responsabilidade dos moradores em conectar o esgoto interno de suas casas à rede pública da rua, sempre que ela estiver disponível. Sem essa conexão, os resíduos continuam poluindo o solo e a rede pluvial (da chuva).
Para incentivar a adesão, os moradores das regiões atendidas recebem uma notificação informando sobre a obrigatoriedade da conexão. A partir da disponibilidade do serviço, passa a ser cobrada na conta de água a tarifa de esgotamento sanitário, calculada com base em um percentual sobre o consumo de água de cada imóvel.
A urgência por essa conscientização é refletida nos dados locais:
— Entre os 10 rios mais poluídos do Brasil, três estão aqui na Região Metropolitana de Porto Alegre. O esgoto doméstico sem tratamento é um dos maiores contribuintes para essa situação. Por isso, é tão importante que, ao tomar banho ou dar descarga, exista a consciência de que esse resíduo precisa ir para uma estação de tratamento, e não para a natureza— alerta a gerente de Relações Institucionais da Corsan, Renata Weisheimer Rohde.







