A seca no Rio Eufrates, no Oriente Médio, tem chamado a atenção para um versículo bíblico interpretado por alguns como um sinal do "fim do mundo".
As palavras, vistas por fiéis quase como proféticas, afirmam que as águas do Rio Eufrates secariam para que "fosse preparado o caminho para os reis que vêm do Oriente" (entenda mais abaixo).
O rio passa por Turquia, Síria e Iraque. De acordo com o climatologista Francisco Aquino, chefe do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a região enfrenta a maior escassez hídrica ao menos desde 1930. O cenário atual pode evoluir de seca extrema para seca excepcional, o nível máximo da classificação.

☀️ O que explica a seca?
Aquino destaca que, há cinco anos, os países do entorno do rio convivem com uma combinação de pouca chuva e temperaturas muito elevadas.
— Em cinco anos, em nenhum momento, tivemos um arrefecimento nessa combinação. Não teve uma chuva que tentou regularizar ou suavizar a escassez hídrica — reforça.
Longe de boas notícias, o climatologista aponta que a tendência é de agravamento dessas condições. Junta-se a isso o mau planejamento no consumo de água na região. Isso gera um ciclo: com mais calor, há maior busca por água, seja para banho, seja para irrigação.
Uma mudança que não é natural
Em 2013, a Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) já mostrava a seca do Eufrates em imagens. De acordo com a pesquisa divulgada, as bacias dos rios Tigre e Eufrates haviam perdido 144 quilômetros cúbicos de água doce entre 2003 e 2009. Em uma comparação rápida, esse volume representaria entre 70 e 100 vezes o do Guaíba — segundo o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, o Guaíba tem entre 1,5 e 2 quilômetros cúbicos.
O principal motivo seria a exploração excessiva da água subterrânea para consumo humano e agricultura. Um dos pesquisadores, Jay Famiglietti, afirmou que as bacias do Tigre e do Eufrates apresentavam a segunda maior taxa de perda de armazenamento de água subterrânea do planeta.
"A taxa foi especialmente impressionante após a seca de 2007. Enquanto isso, a demanda por água doce continua a aumentar e a região não coordena sua gestão hídrica devido a diferentes interpretações das leis internacionais", explicou Famiglietti no relatório da Nasa divulgado em 2013.
Publicações científicas têm destacado a estimativa de que esses dois rios secarão por volta de 2040. Na avaliação do climatologista Francisco Aquino, quando o assunto é a diminuição da chuva, a estiagem deve atingir o nível mais extremo antes disso. Sobre uma seca total do rio, ele não faz previsão.
Aquino esclarece que os ciclos de variação do clima sempre existiram no planeta, mas que a velocidade e a intensidade dessas mudanças já não são mais naturais:
— Os últimos cinco anos foram os piores de ondas de calor, temperatura, crise hídrica, inundações, tempestades, falta de alimento, que se possa imaginar, dos últimos 2026 anos.
📖 O que diz a profecia?
O Rio Eufrates está ligado à história da humanidade. Como assinala a teóloga Mariana Aparecida Venâncio, as águas dali eram responsáveis pela fertilidade da região da Mesopotâmia e, depois, da Babilônia. O rio supria – e ainda supre – a agricultura e a pesca.
O versículo que repercutiu não é uma profecia, ou seja, um anúncio feito por profetas. A passagem está dentro do livro do Apocalipse (16:12) e afirma:
"O sexto anjo derramou a sua taça sobre o grande Rio Eufrates, e secaram-se as suas águas para que fosse preparado o caminho para os reis que vêm do Oriente".
À luz da história, a teóloga explica que o trecho se insere em um contexto de destruição do Império Romano. Segundo ela, à época, a comunidade cristã era perseguida pelos romanos e ansiava pelo momento em que estaria livre da opressão, com a instauração do poder estável e eterno de Deus.

Os romanos tinham o Império Parta como um de seus inimigos. É nessa relação que entra o Eufrates: o rio funcionava como uma fronteira simbólica entre esses dois povos.
A teóloga detalha o versículo com base nos acontecimentos históricos:
— Essas taças que são derramadas vão trazer grandes destruições e coisas terríveis especificamente sobre o Império Romano. E daí o sentido de falar da destruição do Eufrates porque, uma vez destruído o Eufrates, Roma fica vulnerável a esse seu inimigo. Destruída a fronteira, os partos podem entrar e é por isso que se fala de secar o Eufrates para que venha o rei do Oriente. Esse rei do Oriente seria, no caso, o rei dos partos, que então ficaria livre para invadir Roma.
Entre o passado e o presente
Dentro do cristianismo, há interpretações variadas do livro do Apocalipse. Segundo Mariana, quem escreveu o livro não tinha condições de prever o que aconteceria em 2026, mas ela ressalva:
— Embora seja possível que olhemos para os eventos climáticos que estão acontecendo agora e reconheçamos neles um cumprimento, de alguma forma, das profecias bíblicas, no sentido de que eles são também muito reflexo das escolhas que nós, enquanto humanidade, fizemos.
🤔 Um alerta para o RS
Um oceano e vários países separam o Oriente Médio do Rio Grande do Sul. Mas, quando o assunto é mudança climática, a situação no Rio Eufrates traz alertas até mesmo para os gaúchos.
A América do Sul tem ficado mais quente, o que ajuda a manter a crise hídrica — quando não há uma quantidade suficiente de água potável disponível. O climatologista Francisco Aquino traz maio de 2024 como exemplo: passada a enchente que devastou diversas cidades, o Estado voltou a ter diminuição de chuva e disponibilidade hídrica média.
O especialista elenca a proteção de áreas de nascentes e margens de rios e o equilíbrio no uso da água como alternativas para diminuir as temperaturas e suavizar eventos extremos.
— São o único e melhor caminho que temos para enfrentar essa crise que se amplifica no nosso Estado, no mundo e, claro, na região do Eufrates — completa.





