Todos os dias, Porto Alegre produz toneladas de resíduos. Restos de comida, embalagens, papel, plástico e vidro. O que sobra da vida das pessoas espalhadas pela cidade. Depois que o lixo sai de casas, empresas e órgãos públicos, ele começa um percurso pouco conhecido — e nem sempre simples.
A capital gaúcha tem uma população estimada em 1,3 milhão de habitantes vivendo em pouco mais de 495 quilômetros quadrados. A medida que a cidade cresce, maior se torna o desafio de separar, recolher e dar destino ao que é descartado.
— A gente saiu do campo, a gente saiu de pequenas comunidades e cada vez mais estamos em cidades verticalizadas, todo mundo morando no mesmo lugar — contextualiza Luciana Paulo Gomes, professora do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da Unisinos.

Em média, cada brasileiro produz mais de um quilo de resíduos sólidos urbanos por dia, segundo a pesquisa Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2023, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Separar esse material corretamente parece um gesto simples, mas o caminho do lixo revela uma cadeia marcada por desperdício, descarte irregular e dificuldades de reciclagem.
Mesmo acima da média nacional, Porto Alegre ainda recicla pouco. Hoje, 5,7% do material descartado retorna para a cadeia de reaproveitamento.
— Mesmo nós estando no dobro da média nacional de reciclagem, que é de 2,4%, ainda tem muito o que fazer — afirma Carlos Alberto Hundertmarker, diretor-geral do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU).
Parte do problema aparece nas ruas. Todos os meses, o DMLU gasta cerca de R$ 1,7 milhão apenas para limpar focos de descarte irregular.
— São aproximadamente R$ 20 milhões por ano para limpar o acúmulo de resíduos expostos de forma irregular — lamenta Hundertmarker.
Sem a participação da população, diz ele, o ciclo não se sustenta:
— Nunca vamos chegar a uma cidade completamente limpa e saudável.
"O problema maior está na separação"
Enquanto isso, nas unidades de triagem, trabalhadores convivem diariamente com o material que chega misturado. O que poderia virar renda muitas vezes acaba perdido entre restos de comida e rejeitos. Para Eduarda Sant’Anna, tesoureira e ex-presidente da Associação da Vila Chocolatão, a questão central começa antes da coleta:
— O problema maior está na separação. A gente precisa de mais educação ambiental nas escolas. Português, matemática e educação ambiental.
Ela conta que o material recebido frequentemente chega sem qualquer separação adequada. Ou seja, onde deveria ser triado material reciclado, há de tudo um pouco, incluindo resíduos orgânicos.
— É falta de respeito com a gente. A pessoa coloca o resíduo fora porque quer descartar, mas é o teu resíduo, teu lixo, que vai gerar renda para a minha família se alimentar — destaca.
As unidades de triagem funcionam como uma segunda tentativa de separar aquilo que já deveria ter chegado organizado.
— As centrais têm um papel importante nessa, vamos dizer assim, segunda segregação. É uma otimização do que a população não conseguiu fazer — explica a professora Luciana.
Resíduos orgânicos e rejeitos
Diariamente, Porto Alegre produz cerca de 1,7 mil toneladas de resíduos orgânicos e rejeitos, além de mais de 70 toneladas de materiais recicláveis. O que pode ser reaproveitado segue para as unidades de triagem. O restante percorre quase 100 quilômetros até o aterro sanitário em Minas do Leão.
Para Luciana, a discussão sobre lixo passa pela forma como a sociedade entende o próprio espaço em que vive:
— O tempo também pode ser medido pela qualidade ambiental.
Ela ainda defende que o assunto não pode ser de responsabilidade apenas do município.
— O resíduo gerado nas cidades é responsabilidade do poder público, mas quem o gerou foi a população. Então, tem um momento em que esses dois entes têm que conversar. Se não resolvermos esta parte, vamos estar sempre brigando por eficiências ruins na sequência — complementa.
No fim do caminho do lixo, o que aparece não é apenas um problema de limpeza urbana. É também uma discussão sobre consumo, responsabilidade e convivência coletiva. E, para quem trabalha diariamente com aquilo que a cidade descarta, a mudança começa pela educação.
— Como professora, fico muito tranquila em falar isso. A educação é o menor custo que a gente teria. Na verdade, não é um custo, é um grande investimento — finaliza a especialista.
Conforme o DMLU, a prefeitura faz um trabalho baseado nos chamados "3 Rs" da sustentabilidade: reduzir, reutilizar e reciclar. Entre as ações, diz a assessoria de comunicação do órgão, estão treinamento, palestras e blitze de sensibilização para públicos como líderes comunitários, escolas, condomínios e empresas.


