
O Rio Grande do Sul registrou, em 2025, uma queda de 73% no desmatamento das áreas florestadas. O número, entretanto, é um comparativo com 2024, quando os maiores vilões do desmatamento não foram intencionais — a enchente e os deslizamentos de terra do evento climático provocaram um aumento de 70% na perda de vegetação, especialmente em regiões de Mata Atlântica.
Os dados fazem parte do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, divulgado nesta quarta-feira (27) pelo MapBiomas. No ano passado, o Estado desmatou 1.089 hectares, contra 3.979 registrados em 2024.
Ainda assim, o desmatamento recuou cerca de 52% no território gaúcho em relação a 2023, quando foram 2.311 hectares perdidos. O número representa ainda que, em 2025, foi registrado o menor valor de supressão florestal dos últimos sete anos. O dado do ano passado ficou próximo ao de 2019, quando foram 1.119 hectares perdidos.
O monitoramento do MapBiomas começou a ser realizado em 2019, utilizando imagens por satélite de alta resolução para detectar as perdas florestais, avaliando também indícios de irregularidades.
Nos primeiros anos, foi observado um aumento do desmatamento florestal até 2022, alcançando 5.297 hectares. De 2022 para cá, o Estado tem apresentado uma tendência de queda, com exceção de 2024 por conta da enchente.
Entre as ações importantes que podem estar por trás da redução constante na devastação, especialistas apontam a maior fiscalização e as políticas públicas que barram crédito rural a propriedades desmatadas.
— Esses alertas de desmatamento que são validados e tornados públicos servem depois para a fiscalização ambiental. Então, o poder público, a Fepam (Fundação Estadual de Proteção Ambiental, do governo do Estado), tem atuado no sentido de emitir autos de infração, multas ou embargar áreas que foram desmatadas de forma irregular. E também tem ocorrido um fator adicional, que é a vinculação do crédito rural às autorizações de supressão da vegetação nativa — avalia o biólogo e pesquisador do MapBiomas, Eduardo Vélez Martin.
O indíce de irregularidade, ou seja, de supressões realizadas sem autorização segue acima de 90%. Mesmo com a perda florestal decrescendo, a recuperação das áreas ainda é um desafio. Segundo Vélez, a preservação ambiental avançaria com a restauração da vegetação nativa.
— O episódio das enchentes nos mostrou que a gente precisa restaurar onde a vegetação foi perdida, mas mais do que isso. É necessário repor a vegetação nativa nas regiões do Estado que, historicamente, perderam muito, e perderam acima da capacidade natural da bacia manter as funções ecológicas básicas, como o controle da vazão da água, por exemplo — complementa.
Biomas gaúchos
Os biomas presentes no Rio Grande do Sul são o Pampa, concentrado na metade Sul e em uma parte das Missões, e a Mata Atlântica, localizada na Serra, Campos de Cima da Serra e em parte do Planalto Médio. Dos 1.089 hectares de área devastada, 583 ficam no Pampa, enquanto 506 estão na Mata Atlântica.
— A diferença é que, na Mata Atlântica, a estrutura fundiária é de propriedades menores em relação ao Pampa. O tamanho médio de um desmatamento no Pampa é de 13,9 hectares, na Mata Atlântica é 1,5. Então, o desmatamento na Mata Atlântica do Rio Grande do Sul é mais pulverizado que no Pampa — avalia o biólogo e pesquisador do MapBiomas, Eduardo Vélez Martin.
Na Mata Atlântica, que também está presente em outros Estados, houve recuo de 4,7% na devastação. No Pampa, a queda do desmatamento na área florestal chegou a 33%.
Por outro lado, o campo, que predomina no território gaúcho, não está contabilizado nesse relatório.
— Em relação à vegetação campestre, a gente não tem números precisos, mas a gente sabe que a gente está falando do problema que tem uma escala muito maior. A gente tem alguns milhares de hectares que são suprimidos de campo a cada ano, mas a gente ainda não consegue fazer essa validação refinada com a metodologia que a gente usa que funciona bem para a perda das florestas — explica Vélez.
Os levantamentos realizados pelos pesquisadores apontam que a área de vegetação nativa nas florestas caiu 1% no Rio Grande do Sul em 40 anos. Já quando considerados os campos e banhados, o conjunto de vegetação não florestal ocupava 41% do Rio Grande do Sul em 1985 e caiu para 26% atualmente.
— Nós temos uma estimativa que a gente vem perdendo nos últimos 10 anos entre 50 e 100 mil hectares de vegetação não florestal, principalmente a campestre, é uma aproximação do que temos — aponta.
Redução em todo o Brasil
A tendência de queda também é percebida a nível nacional. De acordo com o MapBiomas, a área total de vegetação nativa desmatada no Brasil ficou abaixo de 1 milhão de hectares no ano pela primeira vez desde o início do monitoramento em 2019.
Em 2025, foram desmatados 984.794 hectares no país, uma redução de 20,6% em relação a 2024. Conforme o levantamento, 96% dos alertas de devastação registrados possuem algum indício de irregularidade, ou por não possuírem autorização ou por estarem em áreas ilegais.
Todos os biomas do país tiveram redução da área desmatada em 2025, sendo que Amazônia e Cerrado concentraram 84% de toda a área desmatada. Na Amazônia, foram desmatados 289.478 hectares, uma redução de 23,5% frente ao ano anterior.
A principal causa da supressão de vegetação nativa permanece sendo associada à expansão da agropecuária, sendo responsável por 97% nos últimos sete anos.




