
Um supertufão com ventos de até 280 km/h avança pelo Pacífico Oeste. O Sinlaku, como foi nomeado o fenômeno, não oferece risco direto ao Brasil, mas chamou a atenção de meteorologistas e climatologistas brasileiros por uma razão objetiva: as condições oceânicas em que se formou são um sinal de que o El Niño pode estar se aproximando, com força suficiente para alterar o regime de chuvas no Rio Grande do Sul ainda neste ano.
O tufão se desenvolveu sobre águas excepcionalmente quentes na região do Pacífico Oeste, próxima à Indonésia e à Austrália.
Em pouco mais de um dia, atingiu força equivalente à de um furacão de categoria 5, o nível máximo na escala de intensidade de ciclones tropicais. A rapidez da intensificação preocupa especialistas e indica que o oceano estava carregado de energia.
— O tufão não tem relação direta com o Brasil. Mas de onde ele tira energia? Do oceano. Se os oceanos estão mais quentes, há mais combustível e mais energia, o que acaba sendo transferido para a atmosfera — explica Glauco Freitas, climatologista e professor de meteorologia.
O que é um supertufão e o que ele tem a ver com o RS

Supertufão é o nome dado aos ciclones tropicais mais intensos que se formam no noroeste do oceano Pacífico. São equivalentes a furacões de categoria 4 ou 5 no Atlântico, com ventos mínimos de 240 km/h.
O Sinlaku chegou a 280 km/h e registrou pressão barométrica de 902 hPa (Hectopascal). A pressão barométrica é a força que o ar exerce sobre a superfície e, no caso de ciclones, quanto menor esse valor, mais intenso é o sistema. Para comparação, a pressão atmosférica ao nível do mar gira em torno de 1013 hPa.
Ou seja, 902 hPa é um valor muito abaixo do normal e típico de tempestades extremamente fortes, o que torna o Sinlaku o sistema mais intenso de 2026 até agora. As Ilhas Marianas do Norte e Guam, territórios americanos no Pacífico, estão sob alerta máximo com a chegada da tempestade.
Segundo os especialistas, o problema não é o tufão em si, mas o que ele representa.
Na região onde o Sinlaku se formou, há grande concentração de água quente acumulada, uma espécie de reservatório de calor que, quando perturbado, pode se deslocar em direção ao centro e ao leste do Pacífico equatorial. Esse movimento é o que desencadeia um episódio de El Niño.
Segundo meteorologistas, o processo funciona da seguinte forma: durante períodos de La Niña, os ventos alísios (massas de ar constantes e úmidas) ficam mais intensos e empurram a água quente para a porção oeste do oceano Pacífico.
Quando esses ventos perdem força, essa água acumulada começa a se deslocar lentamente pelo oceano, em pulsos que os cientistas chamam de ondas de Kelvin. À medida que esse calor avança e alcança as regiões central e leste do Pacífico, cria-se o ambiente necessário para a formação do El Niño.
Murilo Lopes, meteorologista da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), explica como o tufão se encaixa nesse cenário.
— O supertufão, combinado com a posição de outros sistemas atmosféricos, pode atuar como gatilho para manter condições favoráveis ao desenvolvimento do El Niño. Quando ventos de oeste anulam o efeito dos alísios, o deslocamento das águas mais quentes é facilitado — diz.
Qual a chance de um "Super El Niño"?
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico Equatorial, especialmente na faixa central e leste.
Esse aquecimento altera a circulação da atmosfera e muda os padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo, incluindo o sul do Brasil, onde costuma provocar períodos mais chuvosos.
O que especialistas chamam de "Super El Niño" ocorre quando esse aquecimento atinge níveis mais elevados. Isso acontece quando a temperatura da superfície do mar, em uma área específica do Pacífico Central conhecida como El Niño 3.4, supera em mais de dois graus a média histórica por um período prolongado.
Para efeito de comparação, a intensidade do fenômeno é classificada conforme a variação da temperatura do oceano. Segundo critérios adotados por órgãos como a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), ele é considerado fraco quando fica entre 0,5ºC e 0,9ºC acima da média. Entre 1,0ºC e 1,4ºC, é classificado como moderado. A partir de 1,5ºC, já é considerado forte.
Quando ultrapassa os 2ºC de forma persistente, passa a ser tratado por especialistas como "Super El Niño". Não é uma categoria oficial da NOAA nem da Organização Meteorológica Mundial (OMM), mas ajuda a diferenciar episódios extremos dos mais comuns.
— Os modelos de previsão têm convergido para um cenário com probabilidade razoável de evolução para um El Niño forte entre 2026 e 2027 — afirma Murilo Lopes.
Projeções recentes do Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo indicam a possibilidade de formação de um "Super El Niño" entre o fim de 2026 e o início de 2027, com potencial para se tornar o mais intenso em cerca de 140 anos. O cenário aponta para um aquecimento anômalo das águas do Pacífico tropical em níveis raramente observados.
Glauco Freitas adotou cautela ao comentar esse tipo de projeção. O climatologista prefere usar o termo prognóstico, entendido como uma avaliação de tendências, em vez de previsão determinística.
— É uma projeção deles. É preciso avançar com cautela antes de afirmar com precisão — reforça.
Os paralelos históricos citados pelos especialistas incluem os anos de 1982, 1997 e 2015, todos marcados por episódios intensos e registros expressivos de chuva no Rio Grande do Sul, especialmente na primavera.
O que esperar para o Rio Grande do Sul

Os especialistas ouvidos pela reportagem convergem em um ponto: os efeitos mais intensos não devem ocorrer no curto prazo. O momento ainda é de tempo mais seco e quente.
A preocupação se concentra na primavera, entre setembro e novembro, período em que o El Niño costuma provocar impactos mais relevantes no sul do Brasil.
— Esse cenário já é projetado para a primavera, quando o El Niño estará mais consolidado e tende a afetar com mais força o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná — diz Freitas.
— A transição do inverno para a primavera deve ser rápida, com dias marcados por chuva intensa e temporais frequentes — acrescenta Lopes.
O que pode diferenciar o episódio futuro é a combinação de fatores. O aquecimento adicional dos oceanos, já em curso, aumenta a energia disponível no sistema climático.
— Com mais calor vindo do oceano, os efeitos tendem a ser mais intensos. Isso amplia o potencial dos eventos em escala global — resume Freitas.
Isso não significa que o cenário registrado em 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul vá se repetir. Especialistas destacam que comparações entre anos têm limites.
— Não é possível afirmar que os eventos ocorrerão da mesma forma, mas é um quadro que exige monitoramento — reforça Lopes.
Os especialistas evitam falar em alarme. Modelos indicam tendências, não certezas.
Contudo, neste momento, o que se observa é um Pacífico mais aquecido do que o normal, um dos principais ingredientes para a formação de um El Niño mais forte.



