
Em novembro de 1982, em um sábado de manhã na praia de Pinhal, no Litoral Norte, Fernando Cardoso tinha 12 anos e pescava com o pai e o irmão quando um pinguim saiu do mar e mudou o rumo daquele fim de semana e dos dias que viriam.
O animal, debilitado e com fome, foi alimentado com peixes recém-pescados, levado para casa dentro de uma caixa de isopor e apelidado de "Branquinho".
Hoje, aos 60 anos, atuando como consultor de vendas, Fernando guarda a memória com detalhes. A família tinha o hábito de ir à praia de Pinhal duas vezes por mês, aos fins de semana, sempre com caniços, isopor, gelo e lanches.
Naquele sábado de novembro, enquanto pescavam tranquilamente, avistaram o pinguim saindo da água.
— A princípio, a gente ficou com um pouco de receio, por não conhecer direito o animal. Como a gente já tinha pescado alguns peixes, tirou do balde e botou no chão — conta. — Ele veio chegando devagarinho. Como o peixe ainda era em pedaços maiores, a gente cortou em pedaços menores e foi dando. Dava para ver que ele estava bem debilitado, com bastante fome — emenda.
O animal comeu e ficou. Passou o dia próximo ao grupo, acompanhando os movimentos dos pescadores com cautela. Quando Fernando ou o irmão iam até o caniço para recolher ou trocar a isca, o pinguim os seguia.
— A gente foi alimentando e disse: "E agora, o que nós vamos fazer? Não vamos abandonar ele aqui. Vamos levar para casa" — recorda Fernando.
O transporte foi improvisado no mesmo isopor que servia para guardar lanches e bebidas. O pinguim viajou dentro da caixa, com gelo, durante todo o trajeto.
"Parecia um cachorrinho"
Ao chegar em casa, foi colocado em uma banheira desativada, que passou a funcionar como tanque. O pai de Fernando ia ao mercado comprar lambari para alimentar o animal três vezes ao dia: de manhã, no início da tarde e no começo da noite, cerca de seis ou sete peixinhos por refeição.
— Ele parecia um cachorrinho. A gente até tomava cuidado para não sair muito longe, porque ele saía caminhando atrás da gente. Se domesticou super rápido — descreve.
Durante a noite, segundo Fernando, o animal não incomodava. Eles apagavam as luzes e Branquinho ficava dentro da banheira, onde dormia.
— Como a gente era pequeno, eu com 12 e meu irmão com 14, volta e meia acordava e ia lá dar uma olhada — rememora.
Apesar da história fofa, manter animais silvestres em casa não é permitido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
O alerta veio de um amigo da família, que orientou a acionar o Centro de Reabilitação de Animais Marinhos e Selvagens (Ceclimar), em Imbé, também no Litoral Norte. A ligação foi feita, mas o resgate ainda levou dois dias para acontecer.
— Eles vieram buscar com a caminhonete, botaram ele numa caixa tipo essas que a gente usa para transportar pets. Disseram que ele ainda ia ficar um tempo em recuperação, em adaptação, e depois iriam soltá-lo — lembra Fernando.
Espécie migrante
O pinguim encontrado por Fernando é o pinguim-de-Magalhães (Spheniscus magellanicus), espécie que migra da Patagônia argentina durante o inverno em busca de alimento e chega ao litoral gaúcho entre junho e setembro, frequentemente debilitada.
No caso relatado, o animal apareceu fora desse período típico, em novembro, quando o calor já começava.
Nos anos seguintes, a família voltou à praia de Pinhal e chegou a avistar outros pinguins saindo do mar. A história, porém, não se repetiu da mesma forma.
— A gente ia em direção a eles devagar, mas eles voltavam para dentro do mar e se mandavam — conta Fernando, entre risos.
O que fazer ao encontrar um pinguim no litoral gaúcho
As orientações atuais, conforme o Instituto Argonauta para a Conservação Costeira e Marinha, seguem protocolos de manejo da fauna silvestre. Confira:
- Não alimente e não devolva ao mar: pode parecer contraintuitivo, mas o animal pode precisar de descanso e avaliação
- Se estiver na água, não se aproxime
- Se estiver saindo do mar, dê espaço: ele pode estar apenas cansado
- Se chegar à areia, intervenha com cautela: isole a área para afastar curiosos, cães e urubus; evite manipular sem necessidade; não tente colocá-lo de volta no mar
- Se for preciso manusear: segure com firmeza, com a mão direita atrás da cabeça; apoie a barriga com a mão esquerda; use uma toalha, se necessário; mantenha o bico longe do seu rosto
- Enquanto aguarda resgate: mantenha o animal aquecido em caixa de papelão; use toalha ou jornal; deixe em local sombreado, se houver sol forte; não use gelo ou isopor
- Registre o animal: fotos sem flash ajudam no monitoramento
Como acionar o resgate
Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema):
- (51) 98593-1288 (telefone e WhatsApp)
Patrulha Ambiental (Patram):
- Tramandaí: (51) 3661-4620 / (51) 98608-0836
- Capão da Canoa: (51) 98504-6899 / (51) 98608-0837
- Osório: (51) 3663-7285 / (51) 98608-0659
- Torres: (51) 3262-4798 / (51) 98608-0839
O Ceclimar recebe animais diariamente, das 9h às 11h e das 14h às 16h30min.



