
Uma massa de poeira vinda do deserto do Saara, no norte da África, está cruzando o Oceano Atlântico e já começa a afetar o Hemisfério Sul, em países como o Brasil, Guiana Francesa e Suriname. O fenômeno, transportado pelos ventos alísios, deve ficar em suspensão sobre o território brasileiro pelo menos até sexta-feira (27).
Embora o transporte de sedimentos do Saara para a América seja um evento anual, o monitoramento meteorológico aponta que esta nova pluma traz uma alta concentração de partículas suspensas. O ápice do fenômeno ocorreu entre terça (24) e quarta-feira (25).
No estado do Amapá, moradores relataram nas redes sociais a observação de uma "nuvem de poeira" no céu. No entanto, o meteorologista Jeferson Vilhena, do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa), esclareceu ao g1 que o que se vê a olho nu é, na verdade, neblina.
— A neblina ocorre por causa da alta umidade relativa do ar e da baixa temperatura. A poeira do Saara sempre chega, mas em quantidade muito pequena e microscópica, imperceptível ao ser humano — explica Vilhena.
Segundo ele, os modelos indicam a presença das partículas, mas elas não formam nuvens densas como nos desertos.
Riscos à saúde e partículas invisíveis
É importante se atentar ao fenômeno pois ele pode alterar qualidade do ar, ao elevar os níveis de partículas chamadas PM₂.₅. Essas partículas são cerca de 30 vezes menores que um fio de cabelo, o que permite que penetrem profundamente nos pulmões e alcancem a corrente sanguínea.
A inalação dessa poeira mineral pode causar irritação nos olhos e nas vias respiratórias. Autoridades de saúde recomendam que crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios crônicos evitem atividades prolongadas ao ar livre enquanto a concentração estiver alta.
Papel ecológico
Apesar dos riscos à saúde, a poeira desempenha um papel ecológico vital. Estima-se que 27 milhões de toneladas de sedimentos cheguem à Amazônia anualmente. Essas partículas são ricas em fósforo e ferro, funcionando como um fertilizante natural para a floresta.
O transporte é facilitado pela Zona de Convergência Intertropical, que se desloca para o sul da linha do Equador nesta época do ano. As partículas são levadas pelas chuvas frequentes da região, em um processo chamado de deposição úmida, depositando os nutrientes diretamente no solo.
A presença dessa massa de ar seco e carregada de sedimentos também interfere no regime de chuvas. As partículas competem pela umidade do ar, o que pode dificultar a formação de nuvens carregadas em curto prazo.
Quem observar o horizonte poderá notar mudanças estéticas. A dispersão da luz solar através das micropartículas de poeira costuma produzir um pôr do sol com tons alaranjados e vermelhos muito mais intensos e opacos que o habitual.


