
Falta de água, saneamento precário, moradias pouco resistentes ao calor, escassez de áreas verdes e infraestrutura urbana deficitária. Problemas como esses, que fazem parte do dia a dia de quem vive nas periferias brasileiras, ajudam a explicar o que especialistas chamam de desigualdade ambiental — realidade retratada por reportagem de Zero Hora que mostrou como o calor extremo afeta de forma mais intensa moradores de áreas periféricas de Porto Alegre.
Para além do diagnóstico, mitigar esse cenário exige políticas públicas integradas, planejamento urbano e o reconhecimento de que o calor extremo já é uma ameaça concreta à vida nas cidades. Para Eugênia Aumond Kuhn, professora do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), esse é um ponto central do debate sobre soluções.
— A ameaça costuma ser invisibilizada porque, diferentemente de enchentes, os efeitos do aumento da temperatura não aparecem de forma imediata. Mas já temos dados sobre mortes associadas ao calor. Sem planejamento e investimento contínuo para enfrentar essa ameaça, as desigualdades tendem a se aprofundar, e o calor extremo pode se tornar uma das principais causas de aumento da mortalidade no futuro — alerta.
Atuação em duas frentes
Segundo Eugênia, as políticas públicas para mitigar a desigualdade ambiental precisam ter como objetivo duas frentes complementares: reduzir a temperatura urbana e aumentar a capacidade de adaptação da população. No entendimento da professora, as medidas prioritárias devem ser:
- Garantir abastecimento contínuo de água a toda a população
- Criar refúgios climáticos em bairros vulneráveis
- Ampliar as áreas verdes urbanas e democratizar o acesso
- Implementar centros de resfriamento em equipamentos públicos, para servirem de abrigo durante ondas de calor
- Qualificar o conforto térmico em terminais de ônibus e no transporte coletivo
- Revisar as legislações urbanísticas para reduzir superfícies impermeáveis e estimular a arborização
A universalização de serviços básicos também aparece como eixo central das soluções apontadas por Renata Padilha, ambientalista do Movimento Eco pelo Clima. Para ela, a justiça climática passa por enfrentar desigualdades históricas que se tornam ainda mais graves em um contexto de emergência climática.
— É universalizar o saneamento básico, resolver a questão do lixo, oferecer áreas de lazer arborizadas para a população, democratizar o acesso a água de qualidade. São problemas antigos, que ganham uma dimensão ainda maior com a crise climática — afirma.
Desabastecimento de água
A ambientalista observa ser comum a ideia de que a solução da desigualdade ambiental está na redução dos preços de aparelhos de refrigeração, a fim de popularizá-los. Entretanto, ela pontua que o problema é bem mais complexo:
— É claro que democratizar o conforto térmico é importante, mas, se a cidade inteira utilizar ar-condicionado de forma indiscriminada, o sistema elétrico pode não suportar a demanda. E sabemos que são os bairros periféricos que mais sofrem com essas fragilidades, com desligamentos e apagões frequentes.
Renata também chama atenção para o impacto do desabastecimento de água, recorrente em regiões de periferia durante o verão.
— Vamos imaginar uma pessoa que mora na Restinga e trabalha no Centro. Ela passa 10 horas do seu dia exposta ao calor, enfrenta o transporte público e, quando retorna para casa, não tem água nem para tomar um banho. Além de reflexo da desigualdade ambiental, isso é um fator de adoecimento mental da população trabalhadora.

Orientação especializada
No debate sobre soluções estruturais, o modo como as cidades são planejadas e como as moradias populares são construídas também aparece como elemento-chave. O uso de materiais de baixa qualidade, a ausência de ventilação cruzada e a proximidade das construções — realidade comum às periferias — criam ambientes internos ainda mais quentes do que a rua, agravando os efeitos das ondas de calor.
Nesse contexto, especialistas destacam a importância da orientação técnica especializada para a construção e reforma das moradias populares. Algo garantido à população desde 2008, por meio da Lei Federal 11.888, que prevê o acesso gratuito de famílias com renda de até três salários mínimos à assistência de arquitetos, urbanistas e engenheiros.
Direito pouco conhecido
Entretanto, conforme pontua a arquiteta Karol Rosa de Almeida, empreendedora social na Kopa Coletiva — Arquitetura Popular, trata-se de um direito pouco conhecido pela população e que engatinha em sua aplicação prática pelos governos locais.
— O acesso à orientação especializada é o que permite que as residências sejam construídas de forma planejada, sem vícios estruturais e com estratégias para garantir mais conforto térmico. Quando as casas são feitas sem esse conhecimento técnico, elas não se comportam como deveriam frente à emergência climática.
Embora ressalte que a solução passa necessariamente pela aplicação das políticas públicas, Karol aponta estratégias que podem tornar as residências mais confortáveis e resistentes ao calor. Entre as orientações da especialista estão:
- Priorizar o uso de telhas metálicas em vez de telhas de fibrocimento
- Posicionar janelas de forma paralela para garantir ventilação cruzada
- Pintar telhados de branco para refletir o calor
- Investir em arborização nos terrenos

Gestão do lixo
A desigualdade ambiental também se manifesta na gestão de resíduos sólidos. Para Luiz Henrique Lima, diretor do Centro de Educação Ambiental (CEA), instituição que atua há mais de 30 anos na comunidade da Bom Jesus, o tema do lixo é uma face negligenciada da crise climática nas periferias.
Tendo em vista o contexto de Porto Alegre, ele cita a necessidade de universalização da coleta seletiva. Segundo o especialista, que também administra o Centro de Triagem Vila Pinto, na prática, o serviço não atende integralmente os logradouros periféricos.
Procurada pela reportagem, a prefeitura de Porto Alegre afirma que "a coleta seletiva é disponibilizada regularmente em todas as vias, conforme programação estipulada para cada endereço".
Segundo o município, nos endereços que não comportam a entrada de caminhões — comum em localidades periféricas —, "o trabalho é feito por meio do sistema de 'puxada', em que o equipamento fica estacionado na entrada dos becos e a retirada é feita manualmente pelos garis".
A prefeitura também observa que "uma parcela da população ainda mistura os resíduos ao dispor seus seletivos, o que gera prejuízos à limpeza urbana" (leia a nota completa ao final).
Consciência ambiental
O especialista Luiz Henrique Lima defende, ainda, que a educação ambiental chegue de forma efetiva aos territórios periféricos desde a infância, mas ressalta que a conscientização não pode ser dissociada de infraestrutura.
— Não tem como cobrar consciência ambiental de uma comunidade onde nem mesmo o esgoto é tratado. Educação ambiental precisa vir acompanhada de políticas públicas e investimentos reais.
Para Renata Padilha, reconhecer que essas desigualdades estão próximas é parte fundamental do processo de transformação.
— Quando a pessoa se fecha na sua própria bolha, ela não se instiga a conhecer outras realidades. Muita gente não faz ideia de que, com todo esse calor em Porto Alegre, há bairros onde as pessoas estão sem água, sem ventilador, sem condições mínimas de conforto. Essa indiferença também contribui para que a desigualdade se perpetue.

Nesse sentido, para a ambientalista, o debate em torno da revisão do Plano Diretor de Porto Alegre surge como um momento estratégico. Para ela, enfrentar a desigualdade ambiental exige uma mudança de ponto de vista na articulação do planejamento urbano.
— Se os bairros periféricos são os mais impactados pela emergência climática, eles precisam estar no centro das políticas públicas.
Leia a primeira parte da reportagem
O que diz a prefeitura de Porto Alegre sobre a coleta do lixo
O Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) informa que a Coleta Seletiva é disponibilizada regularmente em todas as vias de Porto Alegre, conforme programação estipulada para cada endereço. Nas regiões mais centrais, em que há contêineres, o serviço é oferecido três vezes por semana. Já no restante da cidade, ocorre duas vezes na semana. Nos casos de vias em que não há acesso para a entrada do caminhão, o trabalho é feito por meio do sistema de "puxada", em que o equipamento fica estacionado na entrada dos becos e a retirada é feita manualmente pelos garis. A remoção dos resíduos também pode ser realizada diretamente em algum ponto pré estipulado com a comunidade.
Além do recolhimento feito nos setores, a Coleta Seletiva possui outras formas de atendimento, como os Postos de Entrega Voluntária (PEV) de recicláveis, disponíveis para o recebimento dos materiais, e a Busca Ativa, em que grandes geradores cadastrados no DMLU, como condomínios e instituições, agendam a entrega para os caminhões da Seletiva. Além disso, em março de 2025 a Capital inovou mais uma vez, oferecendo uma nova modalidade: a Coleta Seletiva por meio de contêineres. Em uma área-teste, foram disponibilizados 450 equipamentos verdes, exclusivos para recicláveis, ao lado dos contêineres cinza, para orgânicos e rejeito, o que permite o descarte correto 24 horas por dia, todos os dias da semana.
O que se observa é que uma parcela da população ainda mistura os resíduos ao dispor seus seletivos, o que gera prejuízos à limpeza urbana. Lembramos que a responsabilidade pela manutenção da cidade é compartilhada, e é preciso respeitar o regramento estipulado no Código Municipal de Limpeza Urbana, Lei 1060/2025, colocando os materiais para as coletas regulares apenas nos dias e horários em que cada serviço é oferecido em cada local.
Para coibir infrações e estimular o descarte correto, as equipes do Serviço de Fiscalização e da Diretoria de Gestão e Educação Ambiental do DMLU trabalham ostensivamente com ações de sensibilização, mas necessitamos da colaboração dos moradores em prol da limpeza, com o registro de denúncias por meio do sistema 156.
