
O Rio Grande do Sul está entre os destinos da rota do tráfico internacional do axolote (Ambystoma mexicanum), anfíbio ameaçado de extinção em seu habitat natural, o lago Xochimilco, na Cidade do México. A popularidade do animal começou quando foi adicionado ao jogo Minecraft, da Mojang Studios, que depois virou desenho e filme.
Desde então, tem sido objeto de desejo de crianças, que pedem aos pais para ter um em casa. Dessa maneira, os axolotes tornaram-se alvos de criminosos que visam lucrar com a sua comercialização como "pets".
No Brasil, comprar ou vender esse animal é crime ambiental. Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a multa é de R$ 5 mil por exemplar apreendido. A prisão pode chegar a um ano, de acordo com a Lei de Crimes Ambientais.
Na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), os axolotes aparecem classificados como "criticamente ameaçados". Também integram a Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites).
Capacidade de regeneração
Professora do Laboratório de Herpetologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Laura Verrastro explica que os axolotes são tipos de salamandras e vivem em água doce:
— Os axolotes são dos mesmos grupos das rãs e dos sapos. Têm brânquias externas, porque eles mantêm as características de larva mesmo na vida adulta — detalha.
A docente diz que os animais comem microrganismos e peixinhos pequenos, entre outros alimentos encontrados no meio aquático.
— A reprodução ocorre com fecundação externa. O macho dança para atrair a fêmea e deixa um pacotinho proteico de esperma depositado no substrato. E a fêmea pega esse pacotinho e introduz dentro de si mesma — relata.
O animal atinge, em média, 30 centímetros de comprimento e vive em torno de cinco anos. Tem capacidade de regenerar membros inteiros e até partes do coração, cérebro e pulmões, sendo objetos de estudos da medicina.
— O importante é não ter ele em casa, porque é um animal exótico e se depois for largado na natureza pode alterar nossos ecossistemas. E estão criticamente ameaçados de extinção no país deles — alerta.
Apreensões recentes no RS
Em 23 de janeiro, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu dois axolotes durante fiscalização a um veículo com placas de Gravataí, na Região Metropolitana. Os animais eram transportados em duas caixas térmicas.
Na ocasião, o motorista informou à PRF que buscou os axolotes em Rio Grande, no Sul, e que os conduziria até Gravataí para criá-los. Foram apreendidos pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema).
— Os pais não sabem que o animal é exótico e está em extinção. Tem muito adulto comprando pela internet (para dar para os filhos como pet) sem saber que não pode — afirma Douglas Paveck, chefe de Comunicação Social da PRF.
Em julho de 2025, foram apreendidos 74 axolotes durante operação conjunta entre a Sema e a Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (Dema), da Polícia Civil. Os animais estavam em quatro aquários em um restaurante no bairro Ipanema, na zona sul de Porto Alegre.

A diretora de Biodiversidade da Sema, Cátia Viviane Gonçalves, destaca que o animal é alvo fácil dos traficantes. Conforme Zero Hora apurou, eles entram no país enviados pelos Correios, em bagagens despachadas ou por meio do contrabando. Os traficantes os colocam em sacos plásticos ou em caixas de isopor.
— É pequeno, tem característica de ser bonitinho e fofinho. Tu consegue encontrar ele até no Mercado Livre — compartilha Cátia.
Da apreensão de julho, 35 exemplares foram encaminhados ao Parque Zoológico de Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana. Lá, foram instalados em um recinto apropriado, onde os visitantes recebem informações sobre a importância de não comprá-los ou criá-los em casa.
A Sema enviou os demais para outros mantenedouros; os locais não foram divulgados. Conforme a diretora, o axolote não pode ser reintroduzido na natureza gaúcha, porque não ocorre aqui. Após a apreensão, os animais passam por avaliação para definir os cuidados necessários para a recuperação.
— Se ele chega para nós machucado, temos que deixar no tanque ou aquário para ver se vai se recuperar 100%. Se chega e está apto, é encaminhado para mantenedores de vida do Estado ou para jardins zoológicos — destaca.
Os axolotes também não podem ser enviados de volta ao México – onde estampam a cédula de 50 pesos.
— Muitos axolotes mantidos fora do México, ao longo dos anos, passaram por cruzamentos entre diferentes linhagens, o que pode alterar características importantes para a vida na natureza. Por isso, qualquer possibilidade de reintrodução precisa ser avaliada com muito cuidado, para evitar o retorno de animais que já não tenham o mesmo potencial ecológico das populações silvestres — esclarece.
E Cátia acrescenta:
— No Brasil, por exemplo, situações assim são tratadas no âmbito dos Planos de Ação Nacionais para a Conservação de Espécies Ameaçadas (PAN), que avaliam critérios genéticos, sanitários e ecológicos antes de qualquer iniciativa de reintrodução.
O biólogo Fabiano Peres Menezes, chefe do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama em Porto Alegre, faz um alerta para quem cogita ter esse animal como se fosse de estimação:
— A comercialização deles aqui é considerada ilegal. Não existe nenhum criador licenciado no país. Então, a aquisição, compra e venda desses animais são considerados um crime.


