
O tráfico de pássaros silvestres movimenta uma extensa e rentável cadeia criminosa marcada sobretudo pela crueldade com os animais.
Capturadas em seus hábitats naturais, as aves sofrem durante o transporte. Sem comida ou água, são armazenadas até dentro de apertadas caixas de leite ou de sapatos.
Muitas não resistem e morrem durante a viagem, e as sobreviventes chegam ao destino machucadas e estressadas. As resgatadas carregam marcas do trauma e, dependendo da gravidade da experiência, não podem mais ser reintroduzidas na natureza.
Zero Hora teve acesso a áudios de comerciantes de aves silvestres que divulgam os animais em grupos de WhatsApp. Em um deles, um homem oferece 24 pássaros por R$ 2,5 mil e afirma aceitar pagamento no cartão. Entre as espécies oferecidas, estão coleiros, canários-da-terra, cardeais, cravinas, tizius e tico-ticos.
— Ó, rapaziada, tudo bicho bom (...), com dois, três anos de gaiola. Eu só vendo tudo junto. (...) Tá aí os vídeos dos bichos, quem quiser pode vir ver cantar na hora — diz o comerciante no áudio.
Em outro grupo, são oferecidos cinco filhotes de papagaio-verdadeiro em uma caixa de papelão. O vendedor escreve: "Aí gurizada só os top, últimos da temporada 1.500 (R$ 1,5 mil)".
Criminosos usam celular para captura
O ornitólogo e pesquisador Glayson Ariel Bencke, do Museu de Ciências Naturais da Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (Sema), relata que os criminosos recorrem a alçapões, redes e até celulares para capturar aves nas florestas.
— Eles usam a "chama", que é um pássaro, geralmente um macho adulto que cante, e o colocam em uma gaiola com um alçapão aberto ao lado. Quando outro macho vem defender seu território, acaba caindo dentro do alçapão. Esse é um método muito comum — exemplifica.
Conforme Bencke, os traficantes usam o celular para reproduzir o canto da ave que pretendem capturar. Quando o pássaro se aproxima e tenta localizar o que pensa ser uma ave invasora, acaba preso em uma rede instalada pelos criminosos.
— Essas redes foram criadas inicialmente para a captura de morcegos. Depois, foram adaptadas para pegar aves — explica.
Rinhas de canto de aves
O ornitólogo observa que os criadores ilegais podem ter diferentes finalidades:
— Uma são os concursos de canto para ver qual ave aguenta cantar mais na frente de outra. É como uma rinha de galo, mas sem o embate físico.
Já os colecionadores procuram pássaros por sua beleza ou mesmo para ter companhia dentro de casa.
Para algumas espécies, o tráfico pode significar sua quase extinção. É o caso do cardeal-amarelo, que, de acordo com o pesquisador, pode ser avistado em apenas uma região do Estado (ele não diz qual para não alertar os criminosos). Bencke estima que atualmente existam menos de 30 exemplares no território gaúcho:
— Outra espécie que está nesse caminho é o bico-de-pimenta, que hoje ocorre em apenas duas áreas. Depois que o cardeal-amarelo e o curió desapareceram, virou o alvo principal dos traficantes.

Terceira maior atividade ilegal do mundo
O tráfico de animais silvestres é a terceira maior atividade ilegal do mundo em valores movimentados, após o de armas e de drogas, segundo a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas).
— Esse comércio ilegal é responsável pela retirada de cerca de 38 milhões de animais da natureza brasileira todos os anos — diz Dener Giovanini, coordenador-geral da entidade sediada em Brasília que luta pela conservação da biodiversidade.
A Renctas estima que de cada 10 animais, apenas um chegue vivo ao cliente final. Os demais morrem durante a captura e o transporte.
O traficante ganha muito dinheiro, principalmente quando são espécies ameaçadas de extinção. Mesmo que poucos cheguem vivos, eles cobram um valor altíssimo e acabam faturando muito.
DENER GIOVANINI
Coordenador-geral da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas)
Espécies mais procuradas
Entre as aves mais visadas pelos criminosos estão as canoras (com canto bonito), como coleirinho, tico-tico e canários-da-terra. Também são procurados os animais de bela plumagem, casos dos papagaios e tucanos.
Giovanini explica que a região sul do país é uma rota estratégica para o tráfico de animais em função da proximidade com a tríplice fronteira.
— O Rio Grande do Sul é um Estado importante tanto para a exportação quanto para a importação — observa. —Esses animais são encaminhados a diversos países do Cone Sul, recebem documentação falsa e são enviados para o mercado internacional.
A retirada ilegal de um animal da floresta representa também um problema de saúde pública porque não passa pelo controle sanitário e pode transmitir doenças desconhecidas dos cientistas.
— É importante que a sociedade entenda que o prejuízo não é só do animal. Também pode ser da própria sociedade caso insista em fomentar e perpetuar esse comércio ganancioso — alerta Giovanini.
Associação com a venda de armas
O presidente da Rede de Proteção Ambiental e Animal (Repraas), Vladimir da Silva, afirma que o tráfico de aves tem associação com a venda de armas no Rio Grande do Sul:
— Vários traficantes de aves oferecem armas nos grupos de WhatsApp, até fuzis.
A Repraas é uma organização da sociedade civil que atua em conjunto com órgãos do Estado denunciando crimes ambientais: coleta e repassa informações para a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e a Polícia Civil, além de produzir relatórios para a Polícia Judiciária e o Ministério Público.
Silva compartilha que os criminosos retiram pássaros até mesmo de matas localizadas em unidades de conservação e lamenta que nem sempre as denúncias se transformem na efetiva punição dos criminosos.
— O Estado tem uma porta aberta aos traficantes de animais silvestres desde Santa Catarina, São Paulo e Bahia — diz, citando grandes apreensões feitas nas rodovias do território gaúcho.
Delegacia especializada
Para coibir esse tipo de crime, o Rio Grande do Sul tem a Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (Dema). A delegada Eliana Lopes, da Polícia Civil, resume:
— É uma delegacia especializada em meio ambiente e que cuida de tudo: não só de animais silvestres, mas de toda a fauna, a flora e os crimes ambientais de modo geral.
A delegada acrescenta que há delegacias no Estado com cartórios especializados em investigar crimes cometidos contra animais, que recebem o selo Delegacia Amiga dos Animais. A relação pode ser consultada no site da Polícia Civil gaúcha.
