
Porto Alegre foi uma das primeiras cidades do Brasil a aplicar a coleta seletiva, tendo iniciado o serviço de separação do lixo há 35 anos. O pioneirismo destaca a Capital em um Estado no qual parte dos municípios sequer tem o sistema em 2025.
Apesar do modelo consolidado, com cobertura de 100% de sua área, a coleta seletiva em Porto Alegre enfrenta desafios, como a separação incorreta do lixo nas residências e a falta de investimentos em unidades de triagem (UT).
Segundo o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), todo ano são gastos R$ 36 milhões para levar resíduos com potencial reciclável para o aterro sanitário — seja por conta de descarte mal feito, seja por dificuldade de vender o material no mercado.
A terceira reportagem da série Mapa da Reciclagem apresenta a situação da coleta seletiva na capital gaúcha.
Leia as outras matérias da série:
Como funciona a coleta seletiva em Porto Alegre
A responsável pela coleta seletiva (recolhimento do lixo seco) em Porto Alegre é a Cootravipa, cooperativa que também realiza a coleta domiciliar (recolhimento do lixo orgânico). O serviço é realizado três vezes por semana em áreas onde há contêineres que permitem coleta automatizada e duas vezes nas que não têm coleta automatizada.
Depois, o lixo recolhido é levado para uma das 16 cooperativas de catadores contratadas pela prefeitura, que realizam a separação e a venda do material reciclável.
Porto Alegre recupera 4,16% dos resíduos recicláveis secos e orgânicos em relação à quantidade total coletada, segundo dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa) de 2024 (referente a 2023). O índice é superior à média nacional (1,82%), mas sinaliza que ainda há espaço para avanços.
Conforme o DMLU, 471 toneladas de resíduos são descartadas indevidamente por dia em Porto Alegre e levadas ao aterro sanitário de Minas do Leão. Isso gera um custo de R$ 3 milhões por mês aos cofres da prefeitura, totalizando R$ 36 milhões por ano.
— A educação ambiental é fundamental — defende o diretor-geral do DMLU, Carlos Alberto Hundertmarker. — As pessoas ainda têm muita dificuldade (de entender como separar o lixo). Ainda há muito a se fazer, mas depende muito do que ocorre dentro das casas e das empresas. É preciso saber o que pode ser reciclado e o que não pode.
Hundertmarker afirma que a prefeitura realiza ações e parcerias para incentivar a educação ambiental, como eventos, palestras e reuniões do Orçamento Participativo.
Uma das formas de aprimorar a eficiência da coleta seletiva, segundo especialistas, passa pelas cooperativas. O engenheiro e consultor em resíduos sólidos Geraldo Reichert aponta:
— Além de fazer coleta, triagem e venda, a cooperativa pode e deve participar desse contato diário com a população. Ao fazer esse processo de educação, se estabelece outro vínculo para que esse resíduo seja mais bem separado na fonte, mais bem embalado, para que tenha valor de mercado depois.
Os desafios em uma unidade de triagem

Os caminhões da coleta seletiva de Porto Alegre têm como um de seus destinos um galpão no Morro Santana, na Zona Leste, onde o resíduo que chega é separado em categorias — vidro, plástico, metal e papel —, cada um deles com um valor no mercado.
É da venda do material que os 30 funcionários da Associação de Catadores e Recicladores Vila Chocolatão ganham o pão do mês. Vários deles catam desde criança, quando moravam no Centro Histórico, antes do reassentamento da comunidade da Vila Chocolatão em 2011.
— Reciclo desde os meus 13 anos. Tem gente que não gosta (desse trabalho), porque trabalhamos no lixo, tem preconceito — conta Lucineia Inácio, 43 anos, que atua na associação desde 2014.
O trabalho dos catadores para manter o ciclo sustentável dos resíduos esbarra em dificuldades reconhecidas pelas associações, por especialistas e pela própria prefeitura: falta de investimento, desafios na venda de recicláveis e ausência das associações na coleta.
Falta de investimento

A Associação da Vila Chocolatão não lava nem tritura o lixo, processo que requisitaria equipamentos mais caros e mais funcionários — mas que, segundo os associados, dobraria o valor do resíduo no mercado na venda direta para empresas de reciclagem.
Sendo assim, a renda da organização depende da venda do resíduo para atravessadores (trabalhadores informais que intermediam a venda para empresas e indústrias), que nem sempre têm interesse em certos materiais. O que não tem saída no mercado é destinado ao aterro sanitário.
— Ninguém mais compra embalagem de salgadinho, por exemplo. A gente não está aqui para armazenar nada. Se o resíduo está parado, é rejeito — diz a tesoureira e ex-presidente da associação, Eduarda Sant'Anna.
As unidades de triagem recebem aportes mensais da prefeitura, que variam conforme a produtividade: algumas recebem mais de R$ 60 mil por mês; outras, menos de R$ 10 mil.
— Quanto mais a unidade receber cargas da coleta seletiva, maior é o valor. Esse cálculo é feito de acordo com a capacidade de cada unidade de triagem — explica a diretora de Destino Final do DMLU, Daiani da Silva Isoppo.
Além do investimento público, a Unidade de Triagem Chocolatão recebe apoio de parceiros da iniciativa privada, o que permite a compra de equipamentos como luvas e botinas apropriadas. O dinheiro aportado é administrado pelas próprias unidades e geralmente é utilizado para manter a estrutura do galpão, como observa Reichert, o engenheiro e consultor:
— Hoje, a remuneração desses catadores vem exclusivamente da venda do material, que flutua muito. As cooperativas realmente são muito deficientes em termos de estrutura, em termos até de pessoal. Falta tudo: estrutura, telhado, área, equipamentos.
Condições de trabalho
Em novembro, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS), o Ministério Público do Trabalho (MPT) e o Ministério Público de Contas do Estado (MPC-RS) publicaram uma recomendação para reajustar o contrato com serviços de triagem.
— Temos feito muitas reuniões de mediação com o município para tentar melhorar as condições de trabalho nas unidades de triagem que participam da coleta seletiva pública — diz a promotora de Defesa do Meio Ambiente do MP-RS, Annelise Steigleder. — É um esforço muito grande que fazemos há vários anos em que trabalhamos, por exemplo, com a questão da segurança dos prédios, para não termos problemas ambientais, além da remuneração desses trabalhadores.
O DMLU afirma que aumentou o investimento total nas UTs de R$ 1,7 milhão para R$ 3,7 milhões por ano. Diz ainda estar buscando financiamentos junto ao Banco Mundial para a compra de equipamentos como prensas e trituradores.
O investimento nas cooperativas se dá também por meio das secretarias de Planejamento, e de Desenvolvimento e Inclusão. No início do mês, a prefeitura lançou o Programa Recomeços, de incentivo a catadores e recicladores, que prevê uma injeção de R$ 20 milhões para reformas, manutenção, novos repasses e qualificação da gestão de unidades de triagem.
Desafios da venda de recicláveis

Na prática, o sustento dos catadores depende do volume de material que chega às cooperativas e do quanto conseguem converter em venda. Na UT Chocolatão, os materiais são sempre vendidos para atravessadores. Em outros casos, cooperados conseguem vender diretamente aos destinatários.
Em Porto Alegre, há o desafio de buscar uma igualdade no volume de vendas entre as cooperativas, como ressalta Daiani da Silva Isopo, do DMLU:
— Fazemos reuniões com as UTs, e já deu para ver que algumas vendem certos materiais e outras não conseguem. Nossa ideia é fazer com que elas se organizem, troquem informações e trabalhem em conjunto para crescer.
Segundo Daiani, há tratativas para que a prefeitura fomente um projeto de equalização da capacidade produtiva por meio da Cooperativa Central de Comercialização Integrada (Comint), responsável por coordenar ações conjuntas entre as associações.
Ausência das associações na coleta

Diferentemente do que ocorre em municípios como Novo Hamburgo, os catadores das cooperativas de Porto Alegre são responsáveis apenas pela destinação final dos resíduos recicláveis. Os cooperados reivindicam que possam participar, mesmo que parcialmente, da coleta de porta a porta, hoje realizada apenas pela Cootravipa.
Para Eduarda Sant'Anna, da Associação Vila Chocolatão, a possibilidade de recolher o lixo nas comunidades representa uma oportunidade de melhorar a educação ambiental da população. O plano é adquirir um furgão para a associação com verba do Programa Recomeços, da prefeitura.
Eduarda acredita que é a falta de instrução dos moradores da cidade que faz com que joguem resíduos inadequados na lixeira reciclável, dificultando o trabalho da triagem e, por vezes, colocando os trabalhadores em risco ao descartar indevidamente seringas e lâmpadas.
— Os professores são pagos nas escolas, então por que não podemos ser pagos para dar educação ambiental? — questiona.
Parceria público-privada
Hundertmarker, do DMLU, reconhece a importância de incluir os catadores no processo de educação ambiental no que a autarquia chama de Coleta Solidária. Uma meta de implementar um plano piloto está prevista no Plano Integrado de Gestão de Resíduos Sólidos.
Segundo o diretor-geral do departamento, o tema vem sendo trabalhado nos últimos anos junto a um projeto de parceria público-privada (PPP) de parte dos serviços de coleta na Capital, projeto esse que está em fase de discussões:
— Já está no nosso escopo de planejamento (a Coleta Solidária). Inclusive a concessão de alguns serviços do DMLU vai reunir 77 contratos em um único, e nele já está prevista a coleta seletiva solidária.
* Sob supervisão de Fábio Prikladnicki

