
Pela primeira vez, a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic), realizada anualmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentou um bloco temático específico sobre um evento climático: a enchente que acometeu o Rio Grande do Sul em maio de 2024.
Das 497 cidades gaúchas, 459 responderam que foram atingidas pelo evento climático, o que representa um índice de 92,3% de impacto. Dos municípios afetados, um em cada quatro (115) disseram não possuir nenhum sistema de alerta de suas populações para situações desse tipo. Outros 12% (55) informaram que, apesar de terem algum sistema, não o utilizaram naquela ocasião.
Entre as 289 prefeituras que afirmaram contar com algum sistema de alerta de eventos climáticos, a ferramenta mais utilizada foi o envio de mensagens por aplicativos como o WhatsApp e Telegram – esse foi o meio escolhido por 211 municípios, alguns dos quais também empregaram, em paralelo, outros modos de comunicação, como mensagens por SMS e o acionamento de sirenes, por exemplo.
A grande maioria das cidades atingidas (84,5%) disse contar com um Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil, documento que registra o planejamento elaborado a partir da percepção e análise de um ou mais cenários de risco de desastres e estabelece os procedimentos para ações de monitoramento, alerta, alarme, fuga, socorro, assistência às vítimas e restabelecimento de serviços essenciais. Entretanto, das 388 que possuíam o plano, 65 (16,7%) não o executaram durante a enchente.
— A não execução do plano de contingência aconteceu por uma série de razões: falta de pessoal, de treinamento, de recursos financeiros. Não adianta você ter esse tipo de documento e não se utilizar dele quando mais precisa. Esse é um alerta para que essas municipalidades se preparem um pouco mais para quando esse tipo de catástrofe acontecer. Nenhum lugar vai estar totalmente preparado para uma coisa dessas, mas é uma forma de minimizar ao máximo as consequências do evento — observa Vânia Maria Pacheco, gerente de Estudos e Pesquisas Sociais do IBGE.
Apesar das dificuldades, o entendimento da pesquisa é de que os municípios conseguiram, dentro do possível, minimizar os efeitos do evento por meio de iniciativas como a oferta de abrigos, o suprimento de alimentos e de combustível.
O impacto
A região gaúcha mais gravemente atingidas foi o Vale do Taquari – dos 18 municípios que relataram óbitos, pessoas desaparecidas e desabamento de edificações, oito ficavam lá. Em segundo lugar vem a Serra, com quatro cidades que registraram as três situações, e a Região Metropolitana, com três:
- Arroio do Meio (Vale do Taquari)
- Bento Gonçalves (Serra)
- Canoas (Região Metropolitana)
- Caxias do Sul (Serra)
- Cruzeiro do Sul (Vale do Taquari)
- Eldorado do Sul (Região Metropolitana)
- Encantado (Vale do Taquari)
- Encruzilhada do Sul (Vale do Rio Pardo)
- Gramado (Serra)
- Porto Alegre (Região Metropolitana)
- Relvado (Vale do Taquari)
- Roca Sales (Vale do Taquari)
- Santa Cruz do Sul (Vale do Rio Pardo)
- São Valentim do Sul (Vale do Taquari)
- Teutônia (Vale do Taquari)
- Travesseiro (Vale do Taquari)
- Três Coroas (Vale do Paranhana)
- Veranópolis (Serra)
Dos 459 municípios que relataram terem sido atingidos pelos eventos climáticos de abril e maio de 2024, 406 (88,4%) informaram impacto por enchente ou enxurrada. O principal dano foi o de queda de barreiras, sofrido por mais da metade das prefeituras (54,5%), seguido por escorregamentos e deslizamentos (50,1%).
Um em cada quatro localidades (25,3%) registrou o desabamento de edificações. Houve danos a estruturas viárias, como rodovias, ferrovias e pontes, em 86,5% dos municípios atingidos.
Três em cada quatro cidades afetadas tiveram pessoas desabrigadas, desalojadas, feridas, desaparecidas ou mortas. Foram relatados óbitos relacionados ao evento climático em 54 municípios. Em 29, houve pessoas desaparecidas.
Pouco mais da metade (52,3%) dos municípios acometidos pela catástrofe estabeleceu abrigo para famílias que precisaram sair de suas casas. A oferta de apoio psicológico às vítimas foi proporcionada por quase metade das prefeituras. Já a limpeza de vias públicas e a retirada de animais mortos após a intempérie foram feitas em mais cidades: quase sete em cada 10 realizaram esses procedimentos.


