
Com a realização da COP30 no Brasil, o debate sobre transição energética ganha ainda mais força. Especialistas destacam que avançar nesse processo é essencial para reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO₂) e outros gases de efeito estufa.
A transição energética é o processo de mudança da matriz energética em cada local. O objetivo é substituir combustíveis fósseis (não renováveis) por recursos renováveis, que são mais sustentáveis e limpos – e que emitem menos gases poluentes, vinculados ao aquecimento global.
Professora de Engenharia de Gestão de Energia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Aline Pan lista os "três Ds" que constituem a transição energética:
- Descarbonização: é o movimento central, que consiste em substituir as matrizes energéticas baseadas em combustíveis fósseis por fontes renováveis e mais limpas
- Descentralização: busca diminuir a dependência de grandes centrais (como as hidrelétricas, vulneráveis à seca)
- Digitalização: é fundamental para interligar as várias fontes, muitas das quais são intermitentes, permitindo a comunicação e o acompanhamento da produção em tempo real
A professora destaca ainda a importância da diversificação, como o uso de energia solar, eólica e lixo/esgotos para complementar as fontes, e da democratização, para garantir que a transição seja inclusiva e justa, com a participação de todos os agentes envolvidos.
— Temos de parar de achar que a solução vem de um único local.
Em nível mundial, a maior parte da energia é proveniente do uso de carvão e gás natural (combustíveis fósseis), tanto para geração elétrica quanto para transporte, conforme dados da Empresa de Pesquisa Energética. O Brasil possui uma matriz mais limpa e privilegiada em energias renováveis – a geração de eletricidade é predominantemente hidrelétrica, com contribuições significativas de eólica e solar, que tem crescido cada vez mais.
— O Brasil pode servir como exemplo de que é possível atuar com uma matriz que não depende do carvão — ressalta Alexandre da Silveira, professor de Engenharia de Energias Renováveis na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
No entanto, o maior consumidor de energia de origem fóssil (derivada do petróleo) é o setor de transportes, com os combustíveis – onde o Brasil deve concentrar seus esforços de transição energética. Com o aumento do uso de veículos elétricos, espera-se que a mudança contribua para a redução do uso de combustíveis.
O Rio Grande do Sul também tem uma matriz limpa: mais de 50% da energia gerada é de origem hidrelétrica, seguida pela eólica e fotovoltaica. O uso de carvão mineral no Estado representa menos de 5% da geração.
A produção e utilização de energia em residências e empresas – como energia solar – também integra a matriz energética brasileira e, consequentemente, contribui para o uso de fontes limpas. Além disso, aumenta a eficiência energética ao diminuir perdas de transmissão da energia.
RS pode ser protagonista
O Rio Grande do Sul já demonstra avanços significativos na transição energética.
— O RS tem tudo para figurar como um grande player nessa área da transição energética — avalia Silveira.
— Pela capacidade de vento, do sol, do biogás, tem uma grande potência. Ele é realmente um forte candidato a ser o protagonista — ratifica Aline.
O Estado se destaca pelo potencial e pela instalação de parques eólicos – incluindo usinas offshore, maiores e localizadas no mar, em fase de licenciamento –, bem como usinas solares fotovoltaicas, tanto em residências quanto em empresas e outros locais entidades – a sede da Fecomércio-RS, por exemplo, tem uma das maiores usinas do Estado.
Exemplos concretos da transição energética podem ser observados em iniciativas de empresas como a Be8, que produz biocombustíveis. Feitos a partir de biomassa (como óleos vegetais, incluindo soja, e gordura animal), os biocombustíveis são menos poluentes do que os combustíveis de origem fóssil (petróleo e derivados). A CRVR, de Minas do Leão, também é um exemplo positivo, ao utilizar o metano emitido por seu aterro sanitário para gerar energia e reduzir emissões.
Há também fomento ao desenvolvimento de iniciativas relacionadas ao hidrogênio verde – produzido a partir de fontes renováveis. Um edital do governo estadual, por meio do Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva de Hidrogênio Verde (H2V) no Rio Grande do Sul, financiará projetos nessa área. O objetivo é promover a descarbonização da economia gaúcha.
Além disso, o Estado dispõe de universidades de excelência, com formações voltadas à atuação nessa área. Isso resulta em um ecossistema propício para liderar a transição energética no país, avalia Silveira.
Mas é preciso ir além, aponta Aline: utilizar o protagonismo a favor do Estado para obter financiamento ambiental e se tornar uma potência:
— Temos aqui condições, pessoas e empresas que podem desenvolver todas as energias renováveis — ressalta.
Os desafios da transição energética
Os próximos desafios incluem a obtenção de formas de armazenamento dessa energia, como o uso de baterias ou de usinas hidrelétricas reversíveis. O hidrogênio verde pode ser um aliado estratégico, já que excedentes de energia podem ser utilizados para gerar o hidrogênio verde, que pode ser armazenado para utilização em momento oportuno.
Devido ao alto impacto ambiental proveniente da inundação, as grandes usinas hidrelétricas não devem receber investimentos a curto prazo, embora sejam fontes renováveis – as pequenas centrais hidrelétricas com pequenos aproveitamentos de água, por outro lado, são uma alternativa, explica Silveira. Assim, outras fontes devem ser priorizadas no processo.
Para Aline, ainda falta assumir a transição energética como uma grande realidade, embora o Brasil esteja constituindo um Fórum Nacional de Transição Energética, com um Plano Nacional de Transição Energética.
É preciso construir um sistema “muito mais robusto”, com resiliência energética nas linhas de transmissão e, consequentemente, segurança energética – algo que o RS ainda não tem, conforme a professora. O Estado tem investido em novas linhas, mas precisa ampliar o sistema.
Também é importante encarar a questão da pobreza energética e buscar a universalização do acesso, defende Aline. O Rio Grande do Sul ainda deveria investir mais na produção de biocombustíveis.
— Esses sistemas vão ficar mais complexos. Por isso, vamos precisar de muita inovação, muita tecnologia, para conseguir que a transição energética ocorra de forma eficaz — ressalta Aline.



