
O sapinho-admirável-de-barriga-vermelha, ou Melanophryniscus admirabilis no nome científico, de aparência curiosa e com cerca de 3cm de tamanho, presente no interior de Arvorezinha, pode virar patrimônio genético do Rio Grande do Sul.
O animal, que é encontrado em Perau de Janeiro, é classificado como Criticamente Ameaçado (CR) de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e pela Lista Vermelha Brasileira (ICMBio, 2022). Estudos conduzidos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) estimam que existam cerca de mil indivíduos na natureza.
A descoberta da espécie ocorreu em 2006 e já esteve no centro de um debate científico e econômico devido aos planos de instalação de uma barragem na região do Rio Forqueta. Depois da contrariedade de pesquisadores e ambientalistas, a autorização para a obra em um trecho específico do rio foi revertida.
Agora, o Movimento Pró-Matas Ciliares enviou uma carta à Assembleia Legislativa pedindo que seja aprovado o Projeto de Lei nº 119/2024, que busca reconhecer oficialmente o sapinho-admirável como patrimônio genético do Rio Grande do Sul.
A proposta, de autoria do deputado Matheus Gomes (PSOL), está pronta para ser votada em plenário, mas depende de acordo entre lideranças partidárias para entrar na pauta. Ambientalistas temem que a demora coloque em risco uma das espécies mais raras e simbólicas da fauna gaúcha.
— Preservar as matas ciliares é preservar toda a biodiversidade associada a elas. E o sapinho faz parte disso — explica Elisete Freitas, coordenadora do movimento.
As principais ameaças à espécie hoje são as mudanças climáticas e o uso de pesticidas que chegam ao rio. Para o grupo, reconhecer o animal como patrimônio genético é também uma forma de dar visibilidade a uma espécie que existe apenas no Estado, fortalecendo o turismo sustentável, incentivando a educação ambiental e protegendo o habitat.
Restritos a pequenas áreas
Segundo o biólogo Mathias Hofstätter, que estuda a espécie no mestrado, o gênero do sapo, Melanophryniscus, tende a ser microendêmico.
— Um dos motivos é a baixa capacidade de dispersão: eles não caminham longas distâncias, o que faz com que fiquem restritos a pequenas áreas. E há fatores ambientais. No caso do admirabilis, ele depende totalmente das poças de água que se formam nos lajedos rochosos usados como sítio reprodutivo — explica.
Guia turística no local, Graziela Civa explica que a orientação aos visitantes é clara: não tocar nos animais e cuidar onde pisam.
— Às vezes a pessoa acha bonitinho e quer pegar na mão. Mas resíduos de repelente ou protetor solar podem prejudicar o sapinho — alerta.
A área recebe turistas durante o verão, atraídos pela trilha e pelas quedas d’água. Placas instaladas ao longo do caminho reforçam a necessidade de cuidado ambiental. Em poucos minutos de caminhada, os pequenos anfíbios aparecem camuflados nas lajes úmidas, onde as poças formadas pela água da cascata servem de abrigo e reprodução.
— São bichos exclusivos nossos, bem gaúchos. Por serem nossos, a gente tem que preservar. A biodiversidade é a maior riqueza que nós temos — reforça o biólogo Mathias Hofstätter.



