
Ao contrário das duas edições anteriores da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30 não tem um foco definido.
Na COP29, em Baku, os países precisaram chegar a um consenso sobre uma nova meta global de financiamento climático. O resultado foi frustrante: dos US$ 1,3 trilhão esperado, acordou-se apenas US$ 300 bilhões de transferências dos países desenvolvidos para as nações em desenvolvimento.
Na COP anterior, a 28ª, em Dubai, os negociadores concordaram, pela primeira vez, em abandonar gradualmente os combustíveis fósseis.
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O que resta, então, para a COP30?
Não haverá uma “Declaração de Belém”. Não haverá um grande acordo final. Mas, ao mesmo tempo em que a COP30 é “nada”, ela representa tudo.
Pela primeira vez, a conferência ocorre no coração da Floresta Amazônica, bioma essencial para a regulação do clima do planeta.

Nesta edição, vitrine internacional do governo Lula, os países terão de divulgar quanto planejam reduzir suas emissões até 2035 e as políticas que os levarão até lá.
Mais da metade das partes do Acordo de Paris — incluindo a China — já apresentou suas novas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas). Ainda assim, grandes emissores de gases do efeito estufa permanecem em silêncio: a União Europeia, tradicionalmente ambiciosa na pauta climática, perdeu o prazo; a Índia, outro ator-chave, também. Os Estados Unidos estão fora.
Há uma sensação de urgência incontornável. Dez anos depois do Acordo de Paris, todas as regras estão postas, todos os instrumentos são conhecidos. O que falta, portanto, é transformar compromissos em ação. Por isso, governos como o brasileiro classificam Belém como a COP da implementação.
E exemplos da urgência climática não faltam. A tragédia no Rio Grande do Sul, em 2024, o tornado no Paraná, os incêndios florestais na Califórnia e na Europa são sintomas de uma crise em escala global, somando-se a fenômenos já conhecidos: a destruição da Grande Barreira de Corais, o derretimento do Ártico e o afundamento das ilhas do Pacífico.
A cúpula de Belém se assemelha, em muitos aspectos, à COP26, em Glasgow, a última em que os países foram obrigados a atualizar suas metas climáticas, após o hiato imposto pela pandemia de covid-19.
Glasgow também não produziu um documento mandatório, mas deixou um marco histórico ao prometer reduzir gradualmente o uso do carvão. Foi, também, a última conferência sediada em uma democracia — antes de Egito, Emirados Árabes Unidos e Azerbaijão.
O desafios dos 1,5ºC
Em 2024, o mundo superou a marca simbólica de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. A constatação levou cientistas e diplomatas a uma nova pergunta: ainda vale lutar pela mitigação ou é hora de aceitar e se adaptar?
O próprio secretário-geral da ONU, António Guterres, reconheceu recentemente que a batalha pelo 1,5°C está praticamente perdida — e que a prioridade agora deve ser adaptar sociedades e economias às mudanças já em curso.
O caminho até Belém foi tortuoso: hospedagens com preços exorbitantes, guerras que desviam investimentos da transição verde, e os Estados Unidos — segundo maior emissor do mundo — ausentes. Tudo isso sob a própria contradição brasileira: o país que abriga a maior floresta tropical do planeta, ao mesmo tempo, autoriza a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas.
Para o Rio Grande do Sul, laboratório vivo dos efeitos climáticos, a COP no Brasil é uma oportunidade de engajamento e visibilidade. O Estado pretende mostrar que não apenas aprendeu com as tragédias recentes, mas que está implementando medidas concretas de adaptação.

O governador Eduardo Leite e o prefeito Sebastião Melo estarão em Belém. Eles irão liderar delegações. Há vários painéis previstos em que o RS, pela experiência traumática, atrai holofotes internacionais.
O setor produtivo também começa a entender que as mudanças climáticas deixaram de ser apenas discurso de marketing e se tornaram estratégia de sobrevivência – ou, mesmo, vetor de lucro futuro. Diversas empresas gaúchas apresentarão cases de inovação e sustentabilidade.
No fim das contas, a COP30 talvez não seja lembrada por um novo tratado ou uma grande assinatura, mas por algo mais simbólico: a necessidade de agir.
Se as cúpulas anteriores serviram para definir metas e construir consensos, a de Belém acontece em um tempo em que promessas já não bastam. O planeta está mais quente, os extremos climáticos mais severos, e as desigualdades, mais profundas.
O Brasil, com todas as suas contradições — o país da floresta e do povo que nela habita, da esperança e da urgência —, assume o papel de palco. E, como lembrou Guterres, “a batalha pela sobrevivência está sendo travada aqui”.
Belém pode não entregar um documento histórico, mas talvez ofereça a lembrança de que o tempo acabou.













































































