
Indiretamente, sobrou para muitos: negacionistas, os controladores dos algoritmos, quem faz a guerra, semeia o ódio e o medo. O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na COP30, em Belém, foi uma síntese da geopolítica atual, que combina desafios hercúleos como conflitos armados, fake news, extremismos e os novos barões da internet, os donos das big techs.
Hábil, Lula não citou nomes - e nem precisava: o alvo claro era o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que se tornou o malvado favorito dos defensores do clima.
— A COP30 será a COP da verdade. Na era da desinformação, os obscurantistas rejeitam não só as evidências da ciência, mas também os progressos do multilateralismo. Eles controlam algoritmos, semeiam o ódio e espalham o medo. Atacam as instituições, a ciência e as universidades. É momento de impor uma nova derrota aos negacionistas — disse o presidente brasileiro.
Lula voltou a criticar investimentos em guerras em detrimento de iniciativas de combate às mudanças climáticas.
— Se os homens que fazem guerra estivessem aqui nesta COP, eles iriam perceber que é muito mais barato colocar US$ 1,3 trilhão para acabar com o problema climático do que colocar US$ 2,7 trilhões para fazer guerra como fizeram no ano passado — mencionou.
A referência é aos US$ 1,3 trilhão necessários, por ano, para que países desenvolvidos doem a nações em desenvolvimento para que financiem a transição energética, de uma matriz baseada em combustíveis fósseis, como o petróleo, para energias renováveis.
O Acordo de Paris previu investimento anual de US$ 100 bi, que nunca foi alcançado. Em Baku, essa cifra foi revista para US$ 300 bilhões, bem distantes da meta dos US$ 1,3 tri. Em uma Europa armada até os dentes, por medo da Rússia, um Oriente Médio instável, e os EUA negando evidências, chegar a essa meta é algo praticamente impossível.
A partir desta terça (11), os líderes políticos saem de cena. E ficam à mesa os negociadores. Além do financiamento climático, os temas centrais serão transição energética e a proteção e florestas tropicais. Um novo balanço contabiliza a entrega de 110 metas climáticas, o que representa 71% das emissões globais. Grandes poluidores, como Índia, Irã e Arábia Saudita, não submeteram documento à ONU.
Sob temperatura de 31ºC, com umidade em torno de 30%, a COP no coração da Amazônia começou com uma estrutura ainda em ajustes. Na Blue Zone, a área das decisões, apenas o corredor principal, onde ficam os pavilhões de Brasil, Alemanha, Azerbaijão e China estava operacional. Dez passos para a direita ou esquerda exibiam estandes ainda em construção, piso sem tapete e salas abandonadas, uma realidade que não se viu nas COPs de Baku e de Dubai.
Voltando-se às negociações, as COPs são como reuniões de condomínio, onde cada um expressa, em geral de forma bastante egoísta, seus interesses — com pouca cooperação.
Para complicar, as decisões das COPs precisam ser por consenso — ou seja, as 198 "partes" (lembre-se as COPs são conferências das partes) precisam concordar.
Isso normalmente já é difícil ao extremo no documento final — e, em geral, por isso, o resultado das COPs não sai na data prevista para o término das conferências, levando a um ou dois dias a mais.
Mas não é só no final que o debate entrava. No início das negociações isso também ocorre, na definição da agenda das duas semanas de diálogo, quando são debatidos mais de 100 documentos, que tratam desde o novo objetivo global de financiamento até a implementação de metas de mitigação e o avanço das políticas de perdas e danos. Cada verbo ou termo jurídico é analisado em detalhe e pequenas mudanças podem redefinir compromissos inteiros.
Além do que já está definido para ser debatido, cada "parte" (país ou bloco de nações, como a União Europeia) pode propor um novo tema. E, mais uma vez, como a decisão tem de ser consensual, todos os 198 precisam concordar que aquele item será incluído na agenda.
Esse imbróglio inicial acaba atrasando o diálogo propriamente dito — por isso, em geral, a negociação só engrena depois do terceiro ou quarto dia. O que fez o Brasil? Pactuar a agenda antes do início da COP de Belém. Mérito da diplomacia brasileira e do presidente da conferência, embaixador André Corrêa do Lago.
Assim, temas propostos em cima da hora já foram aceitos ou rejeitados. Um exemplo é a discussão proposta pelo Zimbábue sobre a relação entre saúde e clima.
— Quero agradecer às delegações pelo fantástico acordo que alcançaram ontem à noite. Esse entendimento permitirá que comecemos a trabalhar intensamente desde hoje e possamos explicar ao mundo por que esses temas adicionais realmente importam — afirmou Corrêa do Lago nesta segunda (10), durante uma coletiva de imprensa.
Se fosse futebol, teria sido um golaço do Brasil. A COP30 começou bem mais distante do fracasso.




