
A primeira COP em território amazônico deve ser também a conferência dos povos indígenas. Conforme estimativa do governo federal, espera-se cerca de 3 mil pessoas de diferentes etnias do Brasil e do mundo no evento, a maior participação desde 1995.
Dados do Censo 2022 apontam que o Brasil tem aproximadamente 1,7 milhão de indígenas. O número, que representa os povos originários presentes no território muito antes da colonização, corresponde a 0,83% da população total do país. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade dessa população está concentrada na Amazônia Legal, palco da COP30.
Embora o percentual não seja expressivo, o que chama a atenção é o crescimento de 88,82% no número de indígenas em 12 anos, frente ao aumento de apenas 6,5% da população brasileira no mesmo período.
Para que se concretize essa participação histórica, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) vem buscando reafirmar o protagonismo desses povos no debate climático global, com foco em pautas como a demarcação de terras indígenas como política de mitigação da emergência climática, o financiamento direto para os indígenas e suas iniciativas para reconhecer a contribuição à preservação da biodiversidade, além da implementação de políticas públicas como a Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial Indígena.
— A realização da COP30 no Brasil é um marco histórico em que a Amazônia falará para o mundo, mostrando quem são os povos e as comunidades que mantêm a floresta em pé, uma visão da floresta além da copa das árvores — diz a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara.
Sônia destaca também a organização da Aldeia COP30, acampamento alocado na Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará (UFPA). O local contará também com atividades culturais, políticas e espirituais durante o período do evento.
O espaço possui uma área total de mais de 72 metros quadrados, com área construída de aproximadamente 15 mil metros quadrados, além de cerca de 60 salas de aula climatizadas, 13 laboratórios, complexo de artes, serviço médico e refeitório. O alojamento também tem duas quadras esportivas cobertas, um campo de futebol e um parquinho.
A ministra vai liderar o Círculo dos Povos, iniciativa inédita na história das COPs que pretende ampliar a capacidade de escuta de demandas e contribuições de povos indígenas, comunidades tradicionais e afrodescentes junto à presidência da conferência. O projeto é formado por comissões internacionais ligadas aos grupos.
Preparação para a COP30
O envolvimento dos indígenas na COP30 teve início bem antes de o evento começar. Por meio do Ciclo COParente, outra iniciativa do MPI, houve a realização de 15 encontros em todas as regiões do país, com a presença de cerca de 2 mil lideranças indígenas para a construção da participação no evento. Nos encontros, foi reforçado o diálogo sobre a defesa da proteção territorial como uma medida oficial de mitigação da crise climática e sobre o evento.
— Por meio do Ciclo COParente, 360 indígenas foram indicados por suas organizações de base para compor a delegação brasileira credenciada para a Zona Azul (espaço em que ocorrem as negociações formais da conferência), consolidando uma participação ampla e qualificada — informa Sônia.
Outra iniciativa é o Programa Kuntari Katu – Líderes Indígenas na Política Global, criado pelos ministérios dos Povos Indígenas, do Meio Ambiente e Mudança do Clima e das Relações Exteriores.
A ideia foi formar jovens líderes, a partir de agosto do ano passado, nos temas relacionados à governança global. Participaram do programa 31 indígenas, representando diversas regiões do Brasil: 12 da Amazônia, seis da Caatinga, quatro do Cerrado, quatro da Mata Atlântica, quatro do Pampa e um do Pantanal.
Ao todo, foram seis módulos presenciais em Brasília e diversas atividades virtuais, como seminários presenciais e acompanhamento permanente a distância, além de mentoria e curso de inglês.
— Quatro representantes do Kuntari Katu já estiveram na COP16 da Biodiversidade, em Cali, na Colômbia, e uma participou da COP29 do Clima, em Baku, no Azerbaijão. Na preparatória de Bonn, 23 alunos do curso estiveram presentes para compreenderem os desafios que encontrarão em Belém — afirma a ministra.



