
Na abertura da Cúpula dos Líderes da COP30, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi enfático ao apontar o objetivo da conferência que reúne centenas de chefes de Estado e organizações.
— A COP30 será a COP da verdade. É o momento de levar a sério os alertas da ciência. É hora de encarar a realidade e decidir se teremos ou não a coragem e a determinação necessária para transformá-la — afirmou.
Lula relembrou que há mais de 30 anos, a então cúpula da Terra, no Rio de Janeiro (ECO-92), foi pioneira em pontos que hoje voltam a ser debatidos na COP30.
— A convenção do clima regressa ao país onde nasceu. Hoje, os olhos do mundo se voltam para Belém com imensa expectativa. Pela primeira vez na história uma COP do clima terá lugar no coração da Amazônia.
Em seguida, Lula fez uma defesa da floresta amazônica, como símbolo da causa ambiental.
— Aqui correm os milhares de rios e igarapés que conformam a maior bacia hidrográfica do planeta. Habitam as milhares de espécies de plantas e animais que compõem o bioma mais diverso da Terra. Residem milhões de pessoas de centenas de povos indígenas cujas vidas são atravessadas pelo falso dilema entre a prosperidade e a preservação. São elas que fazem a busca legítima por uma existência digna, com a missão vital de proteger um dos maiores patrimônios naturais da humanidade. Por isso, é justo que seja a vez dos amazonedas de indagar o que está sendo feito pelo resto do mundo para evitar o colapso de sua casa — afirmou.
Lula frisou que combate à mudança do clima deve ser de estar no centro das decisões de cada governo, de cada empresa e de cada pessoa.
— A participação da sociedade civil e o engajamento de governos nacionais, subnacionais, será crucial.
Lula voltou a falar obre o senso de urgência para as medidas mitigadoras das mudanças no clima, ao comentar sobre as "dramáticas perdas humanas" com o aquecimento global. Ainda neste tema, ele também classificou que "forças extremistas fabricam inverdades" para obter ganhos eleitorais.
A fala remete ao constante discurso da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, sobre "negacionismo climático". Sem citar nomes, o presidente brasileiro mencionou ainda que "rivalidades estratégicas e conflitos armados" desviam a atenção e acabam concentrando recursos financeiros que, de outro modo, poderiam ser canalizados para o enfrentamento do aquecimento global.
Veja outros tópicos do discurso do presidente Lula

Em busca de superar os descompassos
Estou convencido que apesar das nossas dificuldades e contradições, precisamos de mapas do caminho para planejar, de forma justa, reverter o desmatamento, superar a dependência dos combustíveis fósseis e mobilizar os recursos necessários para esses objetivos.Para avançar, terá preciso superar dois descompassos. O primeiro é a desconexão entre os salões diplomáticos e o mundo real. O segundo é a separação entre o contexto geopolítico e a urgência climática. Forças extremistas fabricam inverdades para obter ganhos eleitorais e aprisionar as gerações futuras a um modelo ultrapassado que perpetua disparidades sociais
Multilateralismo
O presidente brasileiro voltou a defender o multilateralismo e o acordo de Paris como ações imprescindíveis para salvar o planeta.
O ano de 2025 é um marco para o multilateralismo. Celebramos os 80 anos da fundação da Organização das Nações Unidas e os 10 anos da adoção do Acordo de Paris. A força do Acordo de Paris reside no respeito aao protagonismo de cada país em definição de suas próprias metas, à luz de suas capacidades nacionais. Passada uma década, ele se tornou o espelho das maiores qualidades e limitações da ação multilateral, graças ao acordo.
Aumento da temperatura global
Lula ressaltou que os países, quando mobilizados, conseguem resultados positivos na questão ambiental.
Nos afastamos dos prognósticos que anteviam o aumento de até 5°C na temperatura média global até o final do século. Provamos que a mobilização coletiva gera resultados, mas o regime climático não está imune à lógica da soma zero que tem prevalecido na ordem internacional.
O presidente relembrou os dados sobre 2024, como o ano que a temperatura média da Terra ultrapassou 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.
A ciência já indica que essa elevação vai se estender por algum tempo ou até décadas, mas não podemos abandonar o objetivo do Acordo de Paris. O relatório de emissões do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que o planeta caminha para ser 2,5°C mais quente até 2100. Segundo o mapa do caminho Baku-Belém, as perdas humanas e materiais serão drásticas. Mais de 250 mil pessoas poderão morrer a cada ano.
Cúpula dos Líderes
Para ele, o que for discutido na cúpula de líderes deve servir de bússola para as negociações técnicas. O grande evento com líderes mundiais antecede a COP30. É o momento preliminar, considerado essencial para a negociação.
O cerne da discussão é o financiamento. No ano passado, na COP do Azerbaijão, foi estabelecido que os países desenvolvidos devem "assumir a liderança" no fornecimento de, pelo menos, US$ 300 bilhões anuais até 2035, muito aquém do que é considerado necessário. O Brasil se comprometeu a apresentar, junto ao Azerbaijão, um roteiro de como alcançar a meta de US$ 1,3 trilhão.
Esta cúpula é uma inovação que trazemos ao universo das COPs. As convergências já estão conhecidas. Nosso objetivo será enfrentar as divergências. Nós, líderes, podemos e devemos discutir tudo para além dos muros da convenção. As palavras ditas aqui serão bússola da jornada a ser percorrida por nossas delegações.
Amazônia e Bíblia
O discurso, lido pelo presidente na maior parte do tempo, trouxe o tema da justiça climática. Ele disse que será impossível conter a mudança climática sem superar as desigualdades. "A Amazônia para o mundo é como uma Bíblia, todos conhecem, mas interpretam da sua forma", afirmou.
A Amazônia para o mundo é como se fosse uma Bíblia. Todo mundo sabe que existe e interpreta cada um da sua forma. E nós queremos que a pessoa viesse aqui para ver o que é a Amazônia de verdade.
Também hoje, o presidente vai receber as lideranças mundiais em um almoço oficial para o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, sigla em inglês). Durante o almoço Lula vai falar aos líderes sobre a importância da manutenção desse fundo para auxílio aos países que mantêm florestas tropicais, como é o caso do Brasil, e outros oito que têm a floresta amazônica em seus territórios.
Cúpula de Líderes
A Cúpula dos Líderes da COP30, organizado pela Presidência da República, tem como objetivo dar “direção política” às negociações climáticas.
O evento é realizado nesta quinta e sexta-feira (7) e reúne 143 delegações internacionais, incluindo 57 chefes de Estado e de governo, além de ministros e representantes de organismos multilaterais como ONU, Banco Mundial e FMI.
Entre os líderes confirmados estão o presidente da França, Emmanuel Macron, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, e o presidente do Quênia, William Ruto. Também participam o presidente do Conselho Europeu, António Costa, o premiê da Noruega, Jonas Gahr Støre, e o primeiro-ministro da Jamaica, Andrew Holness. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chegou a Belém na quarta-feira (5).
Histórico e objetivo
Na prática, a Cúpula do Clima busca dar peso político às negociações que se seguirão pelas próximas duas semanas de COP. A cada ano, um país recebe o encontro, que tem como principal missão buscar formas de implementar a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês). Esse documento foi adotado por diversos países em 1992, justamente em uma conferência no Brasil, a Rio-92. Desde então, a meta geral passou a ser a de estabilizar a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.
As COPs começaram em 1995, na Alemanha. Agora, 30 anos depois, vai ser a vez de o Brasil reunir líderes de todo o mundo pela primeira vez na Floresta Amazônica, bioma considerado essencial no equilíbrio climático global.
O principal objetivo da COP é definir medidas necessárias para limitar o aumento da temperatura do planeta a 1,5ºC até o final deste século, acelerando a implementação do que foi negociado nas COPs anteriores, principalmente a de 2015, em Paris.
Delegações na COP30
Cerca de 170 países se credenciaram para participar presencialmente. Nas últimas duas edições, o conjunto dos países decidiu iniciar uma transição para longe do uso de combustíveis fósseis (na COP28, em Dubai) e triplicar o financiamento oferecido por países desenvolvidos aos países em desenvolvimento, chegando a US$ 300 bilhões anuais (na COP29, em Baku), sem que a meta anterior de fornecer US$ 100 bilhões (cerca de R$ 537 bilhões) fosse cumprida.





