
Nas vésperas da COP30, Belém recebeu governantes de todo o mundo, nesta quinta-feira (6), na Cúpula de Líderes, uma prévia dos debates sobre o clima e o ambiente.
Não por acaso realizado em uma das principais cidades da Amazônia, o evento tem, entre suas prioridades, a definição de políticas para a preservação de florestas tropicais.
A criação de um fundo para esse objetivo foi formalizada, com investimento bilionário de alguns países — US$ 5,5 bilhões já foram confirmados (veja mais abaixo).
Mais cedo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recepcionou chefes de Estado e de governo.
— A COP30 será a COP da verdade. É o momento de levar a sério os alertas da ciência. É hora de encarar a realidade e decidir se teremos ou não a coragem e a determinação necessárias para transformá-la — disse o presidente do Brasil.
Os eventos desta quinta servem para sinalizar compromisso político e definir o tom das negociações da COP30. As atividades oficiais da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima de 2025 começam no dia 10 de novembro e seguem até o dia 21 deste mês.
Abertura da Cúpula de Líderes
O evento foi aberto pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres. Prestes a entrar em seu último ano à frente da entidade, o português disse que "falta coragem política" para a transição energética.
— Não é mais tempo de negociação, é tempo de implementação — disse Guterres.
O secretário-geral ainda falou que as Nações Unidas não vão desistir da meta de 1,5°C — o limite simbólico do aumento da temperatura média global, estabelecido pelo Acordo de Paris a fim de evitar desastres climáticos. Ainda assim, Guterres disse considerar que o rompimento dessa barreira é inevitável.

Lula foca na Amazônia e na cooperação global
Ao destacar a importância de Belém como sede e o simbolismo da Amazônia, Lula chamou a atenção para a realidade das comunidades locais e dos povos indígenas.
— Aqui residem milhões de pessoas e centenas de povos indígenas, cujas vidas são atravessadas pelo falso dilema entre a prosperidade e a preservação — falou.
O presidente brasileiro, como fez na abertura da Assembleia Geral da ONU, defendeu o multilateralismo e apontou para os riscos da divisão global para o ambiente. Lula ainda defendeu a atuação dos países do G20 e dos Brics nas políticas climáticas.
— Provamos que a mobilização coletiva gera resultado, mas o regime climático não está imune à lógica de soma zero que tem prevalecido na ordem internacional. Em um cenário de insegurança e desconfiança mútua, interesses egoístas imediatos preponderam sobre o bem comum de longo prazo — acusou Lula.
Fundo para florestas tropicais

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês) foi anunciado em Belém durante almoço promovido pelo governo brasileiro. O programa é um fundo de investimentos internacional em que o rendimento será usado para pagar os países que preservarem suas matas.
— O TFFF não é baseado em doação, seu papel será complementar os mecanismos que pagam pela redução das emissões de gases do efeito estufa — explicou Lula.
A proposta, desenhada pelo governo brasileiro, pretende alcançar US$ 25 bilhões com as adesões dos países e mais US$ 100 bilhões via iniciativa privada. Enquanto cerca de 70 países com florestas tropicais receberiam os recursos, os investidores seriam beneficiados pelos lucros.
Adesão de países
Até agora, o aporte confirmado ao TFFF é de US$ 5,5 bilhões. Nações europeias, como Noruega, Alemanha e Portugal, já anunciaram investimentos.
Os noruegueses vão destinar cerca de US$ 3 bilhões ao fundo. Os portugueses devem repassar 1 milhão de euros — valor menor, destinado à operação do programa. O governo alemão ainda não definiu o montante.
França e Países Baixos (Holanda) cogitam fazer doações ao fundo, sem expectativas de retorno. De Paris, são esperados US$ 500 milhões.
Brasil, Colômbia, Indonésia e Congo devem ser os principais beneficiados. Os governos brasileiro e indonésio prometeram aportes de US$ 1 bilhão, cada um.
Por outro lado, a Finlândia disse apoiar o projeto, mas não prevê investir no TFFF.
— Achamos que o TFFF é uma ótima ideia, mas, se você perguntar se o governo vai investir dinheiro nisso agora, temo que a resposta seja, infelizmente, não — disse o presidente finlandês, Alexander Stubb, ao jornal O Estado de S. Paulo.
O Reino Unido teria se recusado a aderir à iniciativa. Também não se espera a participação dos Estados Unidos, que não enviaram uma delegação à COP30.
— Precisamos demonstrar um caminho claro para podermos chegar a US$ 1,3 trilhão em financiamento climático a países em desenvolvimento até 2035, conforme decidido na COP de Baku. Os países envolvidos têm que liderar para mobilizar esses investimentos, para que eles possam oferecer financiamentos acessíveis — defendeu Guterres.



