
Além de colocar os olhos do mundo sobre a realidade amazônica, a COP30, que será realizada entre os dias 10 e 21 de novembro em Belém, pretende viabilizar a maior participação indígena da história das conferências do clima da ONU.
São esperados mais de 3 mil representantes de povos originários de todas as regiões do Brasil, além de centenas de indígenas de outros países. Foram intensificados os esforços para que essas lideranças estejam preparadas para participar dos debates sobre mudanças climáticas, mitigação e preservação ambiental.
Viagens de barco
Enquanto autoridades nacionais e estrangeiras lidam com abusos de preços em hospedagens e desafios logísticos, os indígenas se organizam para viagens de barco que podem durar até duas semanas, dependendo do ponto de partida. O governo federal prepara um acampamento na Universidade Federal do Pará (UFPA), apelidado de Aldeia COP, com capacidade para receber a maior parte dos participantes.
De acordo com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), as maiores participações indígenas nas COPs ocorreram nas edições de 2015, em Paris, e de 2023, em Dubai, com cerca de 350 representantes em cada.
Na blue zone — área oficial da conferência onde ocorrem as negociações diplomáticas, reuniões de chefes de Estado e eventos das delegações credenciadas —, serão credenciados 500 indígenas brasileiros e 500 estrangeiros. Os demais poderão participar de discussões paralelas em outras áreas do evento.
— A presença dos povos indígenas no local das decisões é importante porque todos os segmentos participam. Na COP de Baku (Azerbaijão), no ano passado, para cada oito pessoas ligadas à indústria petrolífera havia um indígena — afirma Francisco Filippo, chefe da assessoria internacional do MPI.
Desde sua criação, em 2023, o ministério tem articulado, junto a organizações indígenas, iniciativas de capacitação de lideranças capazes de dar protagonismo aos povos originários na preservação ambiental e no combate à degradação e às mudanças climáticas. Um dos principais programas voltados à COP é o Ciclo Coparente, um processo de formação política que percorreu aldeias em todas as regiões do país.
Proteção das florestas

Entre os novos líderes está Maisangela Sateré-Mawé, da Terra Indígena Andirá Marau, na região do Baixo Amazonas. Detentora do título de "diplomata indígena", concedido pelo programa Kuntari Katu — Líderes Indígenas na Política Global, ela vê na COP30 uma oportunidade para reafirmar o protagonismo indígena na proteção das florestas.
— A gente acredita que será um marco histórico realizar a COP30 no coração da Amazônia. Estamos nos preparando para compreender as negociações e ter incidência nesses espaços. Nunca fomos ouvidas e respeitadas no nosso próprio território. Hoje, somos nós falando por nós mesmos e mostrando a nossa realidade — destaca.
A percepção predominante entre os povos indígenas é a de que as discussões e iniciativas globais sobre meio ambiente ignoram o trabalho dos verdadeiros "guardiões da floresta", financiando projetos com pouco impacto real nas comunidades.
— Queremos entender como esse financiamento chega aos nossos territórios para garantir que alcance a nossa realidade. Muitas vezes, são apenas palavras e discursos dentro desses eventos. Esperamos participar diretamente das decisões, compreender o processo e ter acesso aos recursos para proteger nossos territórios e preservar a floresta — complementa Maisangela.
Conhecimento indígena
Uma das principais propostas do governo brasileiro na COP será a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (Tropical Forests Forever Fund — TFFF), voltado ao fortalecimento da manutenção das florestas em pé e à valorização de sua proteção. O fundo poderá beneficiar ao menos 70 países em desenvolvimento com florestas tropicais e prevê destinar 20% dos recursos diretamente à aplicação pelos povos indígenas.
O desejo de maior participação nas decisões globais é recorrente entre as lideranças que vivem nos territórios. Originário da aldeia São José, na região do Alto Solimões (AM), Ludimar Kokama também buscou formação política para defender os interesses de seu povo.
— Queremos que a COP não fique só no papel. Esperamos que os resultados atendam aos povos indígenas, com a demarcação de territórios, maior proteção das nossas comunidades e o reconhecimento do nosso modo de vida — afirma.
Ele também sugere que as lideranças políticas nacionais e estrangeiras "coloquem o pé na mata" para compreender de perto os desafios de viver na Amazônia.
A distância dos grandes centros decisórios, segundo as lideranças, contribui para políticas públicas excludentes. Por isso, realizar a COP no coração da Amazônia é visto como uma oportunidade única — mesmo que o deslocamento exija longas viagens de barco e outros sacrifícios.
— As nossas estradas são os rios, nossa logística é completamente diferente e mais pesada. Não vamos para hotéis, vamos acampar e nos sacrificar para participar dos debates. Mas queremos ter voz e vez — conclui Maisangela Sateré-Mawé.



