
A partir da extração da árvore invasora pinus, um projeto ecológico está regenerando a vegetação nativa do Parque Estadual de Itapuã, em Viamão, na Região Metropolitana. Nos pontos onde houve cortes, é possível ver os tocos no solo e as mudas de espécies nativas recém-plantadas no lugar.
Conhecida pelo nome científico de Pinus elliottii Engelm, a invasora espraia-se por quase 5,57 mil hectares da Unidade de Conservação de Proteção Integral do Rio Grande do Sul. No passado, foi plantada pelo homem na região e multiplicou-se com a ajuda do vento, que dispersa as suas sementes. A árvore cresce rápido e compete com as nativas.
Intitulado Nosso Itapuã, o projeto está sendo executado em conjunto pela Universidade La Salle, CPFL Energia e Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema).
Multiplicação das sementes nativas
Cerca de 13 mil exemplares, entre jovens e adultos, foram cortados em 107 hectares e 500 mudas de árvores nativas do próprio parque foram plantadas no lugar. Elas podem ser vistas com etiquetas brancas: ipê, angico, ingá-feijão, açoita-cavalo, chal-chal, vassoura-vermelha, aroeira, pata-de-vaca, pitanga, araçá e gabiroba, entre outras.
Um viveiro também está em processo de implantação. A ideia é preservar e multiplicar as sementes de nativas no espaço.
Conforme a diretora de Biodiversidade da Sema, Cátia Gonçalves, controlar as espécies exóticas invasoras em uma unidade de conservação é uma tarefa "extremamente complexa e ampla":
— Não é simplesmente retirar. Nesse espaço, já tínhamos retirado tudo e não foi suficiente. Precisamos tirar e fazer algumas outras ações para o pinus não voltar para esse local.
O coordenador do projeto Nosso Itapuã e professor da Universidade La Salle Mauricio Pereira Almerão define:
— É um projeto socioambiental para a comunidade que pretende restabelecer serviços ecossistêmicos importantes dentro do parque.
Reconexão da população do entorno
Os biólogos mapearam a região com o auxílio de drones e selecionaram duas áreas para começar a supressão do pinus: atrás do centro de visitantes e no Morro do Araçá. As ações, que começaram no final de fevereiro, agora se concentram na restauração e no monitoramento da vegetação nativa.
— No ano que vem, vamos começar a parte de educação ambiental junto dos proprietários de terra e da comunidade escolar — adianta Almerão, o coordenador do projeto.
Entre os objetivos, está a reconexão da população que vive no entorno do parque para auxiliar na recuperação da mata nativa e ações de conscientização voltadas para alunos das escolas da região.
— A presença do pinus aqui é um grande problema. Pretendemos estender o projeto para a Praia de Fora, que tem quilômetros de pinus no parque — acrescenta.
Segundo o coordenador técnico do projeto, o biólogo Rafael Borges, 9 mil exemplares foram identificados apenas no Morro do Araçá. Um levantamento realizado há cerca de 15 anos estimou a presença de 40 mil deles na Praia de Fora, local que não passou por supressão agora.
— Pretendemos conduzir a regeneração natural assistida, que é monitorar essas áreas que estão se regenerando pós-corte de pinus. E fazer a retirada de outras espécies exóticas que venham ou de novos pinus que possam germinar — diz Borges.
Segundo a botânica e bióloga Mariana Vieira, consultora do projeto, o plantio de mudas não ocorre em todas as áreas onde os pinus estão sendo retirados.
— Em alguns espaços, fizemos o plantio onde havia ilhas de pinus para já cobrir a área. Mas a principal estratégia é permitir que a vegetação nativa vá ocupando o terreno de forma natural.
Os pinus cortados foram picados em partes menores e ficaram no terreno para o processo de decomposição natural. Os coordenadores do projeto avaliaram que o impacto ambiental de remover os vegetais prejudicaria as nativas na superfície mais abaixo do solo.
Novas possibilidades
Mariana diz que as ações de manejo posteriores à extração das árvores também são executadas para evitar a reocupação pelos pinus:
— Teoricamente, tem espécies nativas ali embaixo esperando esse momento de luz e de corte para crescer. Mas há pinus também, esse é o problema. Após o corte, a nossa ideia é fazer o manejo com o que vai voltar a crescer.
A intervenção deve oferecer novas possibilidades para extensões verdes antes pouco aproveitadas em razão da presença das invasoras.
— Avaliamos como um projeto bem importante por sua extensão dentro de uma unidade de conservação. Agora, existe a possibilidade de fazer trilhas e ter um outro olhar neste espaço — conclui.
Saiba mais sobre o projeto
O projeto Nosso Itapuã, que deve se estender até 2027, ocorre por meio da política pública de Reposição Florestal Obrigatória (RFO) da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), com recursos da empresa CPFL Energia. O investimento é de R$ 2,5 milhões.
O projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) e inserido na Década da Restauração Ecológica (2021-2030). Dessa maneira, dialoga com experiências nacionais e internacionais de enfrentamento à crise ambiental.


