
Dois projetos em execução simultânea pretendem recuperar e restaurar ecologicamente um trecho da mata ciliar do Rio Forqueta em Marques de Souza, no Vale do Taquari.
Na enchente de 2024, o município ficou isolado da localidade de Travesseiro porque a ponte foi destruída pela força das águas. Desde então, uma pinguela (ponte suspensa) assegura a travessia para pedestres e motociclistas.
Um dos projetos envolve obras de engenharia natural, com a contratação de caminhões e máquinas de grande porte e a compra de rochas e outros materiais. Já o segundo avalia a possibilidade do retorno da biodiversidade no trecho. Os trabalhos ocorrem da pinguela até o ponto em que a ponte desabou, o que equivale a cerca de um quilômetro de extensão.
A bióloga e botânica Elisete Maria de Freitas, professora da Universidade do Vale do Taquari (Univates) que coordena os projetos, explica:
— São obras de engenharia natural associadas à utilização de plantas características desse tipo de ambiente. Queremos promover a recuperação dessa área, reduzir ou interromper processos erosivos do solo e promover a formação da cobertura vegetal.
O valor total investido é de R$ 700 mil, financiado pela CEEE Equatorial, por meio da política pública de Reposição Florestal Obrigatória da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Infraestrutura (primeiro projeto), e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (segundo projeto).
Intervenções devem seguir até 2028

A iniciativa começou em fevereiro de 2025 com a coleta de sementes e a produção de mudas. Um engenheiro ambiental da Univates registrou imagens aéreas do Rio Forqueta. As obras de engenharia natural foram intensificadas durante este mês. Como o terreno tem verticalização acentuada, é preciso preparar o talude para a equipe. A estimativa é de que as intervenções no trecho se estendam até 2028.
— Queremos que a população visualize o que estamos fazendo ali para que possamos mostrar à comunidade que é possível restaurar. Só temos que executar e aplicar as técnicas adequadas — observa Elisete.
Doação de mil mudas nativas

Para recuperar e restaurar a mata ciliar, a equipe realiza o plantio de plantas de cobertura, que são herbáceas e subarbustivas com germinação e crescimento rápido. O objetivo é cobrir o solo e fornecer matéria orgânica. Também estão sendo plantadas espécies arbustivas e arbóreas nativas de mata ciliar.
— Com o apoio do Movimento Pró-Matas Ciliares do Vale do Taquari, integrantes do projeto saíram para coletar sementes nas margens dos rios. Na Univates, produzimos mudas e guardamos parte das sementes. São espécies de mata ciliar, como sarandis, caliandra, açoita-cavalo e pitangueira, que sobrevivem bem a esse ambiente — afirma a coordenadora dos projetos.
Em 30 de agosto, a Banricoop — primeira cooperativa de crédito mútuo do Brasil —, por meio do projeto Cooplantar, doou mil mudas nativas para o plantio. Mais de 20 voluntários, entre cooperados, colaboradores e parceiros, participaram da ação às margens do Rio Forqueta.
Um novo plantio de mudas e sementes de espécies arbustivas e arbóreas foi realizado no sábado (25). Até o momento, em torno de mil mudas já foram plantadas.
Impactos da falta de cobertura das margens
Em algumas partes mais inclinadas do terreno foram implantadas geomantas para evitar que o solo escorra em caso de chuva. E plantas de cobertura já podem ser visualizadas na área onde os projetos ocorrem.
As causas da degradação do relevo das margens do Rio Forqueta, assim como dos demais mananciais e arroios do Vale do Taquari, envolvem a redução da extensão e da largura da mata ciliar.
— Hoje, todos esses impactos são acentuados com qualquer volume de chuva. Isso se dá pela falta de cobertura das margens — explica Elisete, da Univates. — Essa falta de cobertura acontece pela ocupação urbana e agrícola, além da pecuária. Essa situação deixou as matas muito restritas em termos de faixas, a cinco metros de largura em alguns casos. Muitas vezes, essa mata é formada por espécies invasoras, que não cumprem o papel de proteção da margem.
Atenção a períodos de estiagem
A iniciativa em Marques de Souza prevê a construção de uma proteção com rochas ao longo de toda a extensão do trecho em execução. Na metade do talude, onde o manancial se apresenta menos inclinado e não avança com velocidade, foram utilizadas geomanta e plantas de cobertura. Na porção superior, onde o rio avança com força e ocasiona erosão, serão distribuídos por toda a extensão rochas e enrocamento vegetal, com plantas características desse ambiente.
Os rios na região do Vale do Taquari estão alargados e sem a presença da vegetação arbórea, o que tem impedido o sombreamento das copas das árvores sobre o leito.
— Essas árvores na beira dos rios protegem as margens dos processos erosivos e reduzem a força das águas — explica a coordenadora dos projetos. — Como não há mais essa vegetação nas margens, o leito está exposto ao sol e ao calor extremo. E com isso, em períodos de estiagem, haverá a redução acelerada da água disponível nos rios, o que significa ameaças à vida aquática e falta de água nas propriedades e cidades que dependem dos rios para seu abastecimento.
Experiência bem-sucedida em Arroio do Meio
Há alguns anos, a pesquisadora realizou experiência semelhante em trecho do Rio Forqueta em Arroio do Meio. A intervenção foi bem-sucedida e resistiu às inundações de setembro e novembro de 2023, além da verificada em maio de 2024.
— As técnicas que aplicamos lá são conhecidas como defletores. É como se fossem duas estruturas de rochas dentro do rio com o objetivo de desviar a água daquele barranco, que estava exposto. O talude era de 90 graus e o passamos para 45 graus. E ainda colocamos esse monte de pedras para dentro do rio. A água vinha para bater no barranco, encontrava essas rochas e era desviada novamente para o meio do leito. Não houve processos erosivos naquele local — lembra Elisete.
Em relação ao projeto em execução em Marques de Souza, a professora sublinha a importância das ações em tempos de aceleradas mudanças climáticas:
— Estamos promovendo a recuperação do espaço, e a diversidade da vida está voltando a ocupar seu lugar. É uma forma de mostrarmos para a comunidade que é possível fazer (a regeneração das matas ciliares).





