Em uma região repleta de vegetação na zona sul de Porto Alegre, quem não é especialista poderia passar batido pela Brosimum glaziovii Taub — ou como é popularmente conhecida: marmelinho, camboatã ou leiteiro, a depender da região do país. A árvore, ameaçada de extinção, foi localizada em uma área natural da Capital pela primeira vez em abril deste ano.
A espécie é nativa do Brasil. De acordo com o Centro Nacional de Conservação da Flora, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, está distribuída principalmente nas regiões Sul e Sudeste. No Rio Grande do Sul, é mais comum encontrar o marmelinho na bacia do Rio dos Sinos, conforme a Secretaria do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre (Smamus).
Até o registro de abril, na Rua Jacarandás, no bairro Ponta Grossa, a presença da Brosimum glaziovii Taub na Capital não havia sido identificada em nenhum levantamento ou estudo, como explica o engenheiro agrônomo Rogério Otávio Schmidt, chefe da equipe de produção vegetal do Viveiro Municipal da secretaria. Isso reforça, como afirma, que esse é o primeiro registro conhecido do marmelinho em um ambiente natural da cidade.
Com a descoberta, segundo a secretaria, a espécie passa a ser classificada como nativa e extremamente rara em Porto Alegre.
— O local em que a espécie foi encontrada é uma área natural, sem a presença de cultivos nas proximidades. Além disso, a própria condição de solo do local torna praticamente impossível qualquer tipo de plantio, já que o terreno é extremamente raso — explica Schmidt sobre por que a árvore é considerada nativa e não resultado de alguma ação humana.
O especialista fez parte da equipe que localizou a árvore. Ele conta que a identificação ocorreu durante um trabalho de levantamento feito por pesquisadores do Jardim Botânico em parceria com a prefeitura. O objetivo era encontrar plantas matrizes para o Viveiro Municipal. Ou seja, árvores que fornecerão material para produção de mudas. No mesmo local onde a camboatã ou marmelinho foi localizada, foram registradas outras espécies ameaçadas de extinção, já conhecidas da equipe, como a canela-preta (Ocotea catharinensis).
Em perigo de extinção

Na IUCN Red List of Threatened Species, a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, organizada pela International Union for Conservation of Nature, a Brosimum glaziovii é considerada como de Menor Preocupação. Mas a entidade esclarece que, embora com menor risco de extinção, esse tipo de classificação demanda ações de monitoramento e conservação adequados para evitar que as espécies em questão se tornem ameaçadas no futuro.
O Decreto 52.109/2014, do Rio Grande do Sul, por sua vez, classifica a Brosimum glaziovii como "em perigo" de extinção. Isto é, quando há "um risco muito alto" de ser extinta.
De acordo com a Secretaria do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre, a árvore encontrada na cidade possui 13m50cm de altura e estado de saúde avaliado como "bom".
A planta é monitorada pelo Viveiro Municipal para saber se irá florescer e produzir frutos. Conforme o engenheiro agrônomo Schmidt, a árvore localizada ainda não produziu frutos neste ano, o que pode ocorrer devido à sazonalidade, comum em espécies nativas, que podem passar alguns anos sem produzir frutos.
Quando for possível gerar mudas, a ideia é utilizá-las em Áreas de Preservação Permanente (APPs), assim como em ruas, praças e parques da cidade.
— A preservação é fundamental para garantir a manutenção da espécie e proteger a diversidade da flora e da fauna local. A perda de uma espécie na natureza pode afetar todo o ecossistema a que pertence, de maneira direta ou indireta, comprometendo funções ecológicas essenciais — destaca.
O Centro Nacional de Conservação da Flora descreve a Brosimum glaziovii Taub como uma árvore de grande porte, que pode chegar a 25 metros de altura. Os principais biomas onde existe são a Mata Atlântica e o Pampa. A planta costuma florescer durante os meses de março e abril, com os frutos amadurecendo em junho e julho.



