
É só o termômetro ameaçar ficar abaixo dos 10ºC que o gaúcho entra no modo sobrevivência: roupão por cima do moletom, cobertor nas pernas para trabalhar no computador e, inevitavelmente, a frase “lá fora faz mais frio, mas lá eles têm estrutura!” entra em cena.
E não é exagero. O que parece brincadeira é, na verdade, um resumo do problema: o frio gaúcho machuca mais porque aqui sentimos cada grau com pouca, ou nenhuma proteção.
Entre a pele arrepiada e as paredes geladas, o que nos faz sofrer tanto com o inverno no Rio Grande do Sul é uma soma de fatores: sensação térmica, falta de planejamento urbano, arquitetura pouco adaptada e até características físicas e hormonais. Para entender esse calafrio coletivo, ouvimos quem estuda o clima, desenha as cidades e cuida do corpo.
A tal da sensação térmica
Você já se perguntou por que sente tanto frio mesmo quando a temperatura não parece tão baixa? Segundo Josélia Pegorim, meteorologista da Climatempo, isso se deve à sensação térmica, ou seja, a temperatura que o corpo realmente percebe, e que pode ser muito mais baixa que a mostrada no termômetro.
— A sensação térmica é influenciada principalmente pela velocidade do vento e pela umidade do ar. Quando está frio e ventando, o ar em movimento rouba o calor da pele com mais rapidez, e por isso sentimos ainda mais frio — explica Josélia.
Imagine o cenário: 10ºC com vento de 30 km/h pode fazer o corpo sentir como se estivesse perto de 5ºC ou menos. E tem mais: em dias nublados e úmidos, o frio parece grudar na pele e não vai embora. Isso porque o ar úmido aumenta a condução térmica, ou seja, facilita a troca de calor entre o corpo e o ambiente. Em outras palavras: é um frio que entra e fica.
Além disso, a forma como sentimos frio não é padronizada. Ela vai depender do que vestimos, da nossa atividade física no momento e, principalmente, das características do nosso corpo.
Por que você sente mais frio que os outros (ou não sente nada)?
De acordo com a médica e especialista em dermatologia Suamy Goulart, a percepção do frio varia muito de pessoa para pessoa. E não é frescura — tem ciência por trás disso.
— Fatores como metabolismo, massa muscular, hormônios, idade e até o estilo de vida influenciam. Uma pessoa sedentária tende a sentir mais frio do que alguém que se exercita com frequência, porque o músculo é um verdadeiro aquecedor natural do corpo — diz a médica.
Além disso, mulheres geralmente sentem mais frio do que homens. Isso se deve, em parte, à diferença na distribuição do fluxo sanguíneo. O corpo feminino tende a preservar o calor nos órgãos internos, deixando mãos e pés frios com mais facilidade. Isso sem falar nas diferenças hormonais, que também alteram a sensibilidade térmica.
E sim, algumas regiões do corpo merecem mais atenção quando o assunto é frio: pés, mãos, cabeça e pescoço. São áreas que mais perdem calor e, portanto, as primeiras a dar o alerta de que algo está gelado demais.
— Abaixo dos 18ºC, muitas pessoas já sentem desconforto térmico, principalmente se estiverem paradas ou com pouca roupa. Abaixo dos 10ºC, o corpo precisa gastar mais energia para manter sua temperatura interna e isso pode afetar até a imunidade — alerta Suamy.
Quando o sofá é tão gelado quanto a calçada
Mas se o clima já complica as coisas, o problema se agrava quando olhamos para dentro de casa. O que deveria ser refúgio vira geladeira. Isso acontece porque, no Brasil, principalmente no Sul, a arquitetura e a construção civil raramente pensam no frio como um fator relevante.
Para a professora e coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Maria Alice Medeiros Dias, o padrão construtivo gaúcho não acompanha as necessidades do clima local.
— Temos uma variação térmica muito grande ao longo do dia e estações bem definidas. Mas as construções são pensadas de forma padronizada, muitas vezes copiadas de regiões mais quentes, sem considerar as características locais. O resultado são casas frias no inverno e abafadas no verão — afirma Maria Alice.

Outro fator agravante é o uso quase exclusivo de tecnologias ativas, como aquecedores e ar-condicionado, que geram alto custo de energia e resolvem parcialmente o problema.
Segundo a professora, os edifícios, em geral, são construídos sem levar em conta formas tradicionais de condicionamento térmico.
— Isso acontece porque os projetos muitas vezes são pensados com foco na redução de custos e na maximização do lucro, o que leva à simplificação das soluções voltadas ao conforto ambiental. Soma-se a isso a baixa qualidade dos materiais utilizados e, em alguns casos, o uso de mão de obra pouco qualificada — detalha.
Para ela, um dos primeiros aspectos que deveriam ser considerados ao se construir uma casa ou edifício é a orientação solar. Ambientes de permanência, como salas e quartos, deveriam ser voltados para a radiação solar no inverno, aproveitando o calor natural, e protegidos da incidência direta no verão.
— A melhor orientação, sempre que possível, é para o Norte. No entanto, nem sempre isso é viável, e muitas construções ignoram esse princípio básico, comprometendo o conforto térmico interno — complementa Maria Alice.
Outro fator essencial é a análise do terreno e do entorno. A professora ressalta que é necessário observar a topografia e os obstáculos ao redor, como prédios vizinhos que podem lançar sombra sobre os ambientes. A insolação adequada dos cômodos pode ser totalmente prejudicada quando não há esse cuidado. No contexto urbano atual, com alta densidade de construções, essas considerações nem sempre são viáveis ou priorizadas — o que agrava ainda mais a falta de conforto térmico nas habitações.
Como esquentar a casa
A urbanista defende o investimento em tecnologias passivas de isolamento térmico, como telhas cerâmicas, paredes duplas, revestimentos com materiais isolantes e esquadrias insuladas — janelas com vidro duplo ou triplo, que criam uma câmara de ar para impedir a troca térmica.
— É mais caro no início, mas compensa a longo prazo. Com o uso correto de materiais e o cuidado com a orientação solar dos cômodos, seria possível construir casas mais confortáveis sem depender tanto de aparelhos elétricos — diz.
E há soluções simples que podem ser aplicadas até em casas já construídas: veda-frestas nas janelas, cortinas térmicas, tapetes espessos e o velho truque de fechar bem as portas dos ambientes para concentrar o calor.
— O problema é que muitas vezes a população não tem informação, nem condições para adaptar a casa ao inverno — completa a professora.
Lá fora é pior, mas eles estão preparados
Enquanto enfrentamos 8ºC com edredom em cima da porta e dois pares de meia, países como Noruega, Canadá e Alemanha enfrentam -10ºC com conforto. A diferença está na infraestrutura.
Calefação central, isolamento térmico nas paredes, pisos aquecidos, vidros duplos, roupas apropriadas — tudo pensado para que a vida não pare no frio.
Aqui, não temos esse aparato, e acabamos dependendo da criatividade (e da paciência) para nos aquecer.
— O que falta é investimento, planejamento urbano, exigência técnica nas construções e consciência de que o conforto térmico não é luxo: é saúde pública — conclui Maria Alice.
E então, é só drama gaúcho?
Definitivamente, não. É um frio real, sentido de verdade, com corpo e alma. Mas, conforme especialistas, também é um frio agravado pela falta de preparo: das casas, das cidades, dos orçamentos.
Enquanto a reforma com isolamento ideal não chega, fica a dica: proteja as extremidades, feche frestas, cuide da hidratação e, se puder, invista em boas roupas térmicas.
O corpo agradece. E o gaúcho, bom… continua sofrendo, mas pelo menos com estilo.
É assinante, mas ainda não recebe as newsletters com assuntos exclusivos? Clique aqui e inscreva-se para ficar sempre bem informado!



