
O bioma Pampa teve queda de 42% no desmatamento em 2024. Neste quesito, o Rio Grande do Sul teve 0,1% de participação do total do país. A enchente, no entanto, teve impacto direto na Mata Atlântica, com aumento de 70% nas perdas. Os dados integram o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, elaborado pelo MapBiomas.
O levantamento, que começou a ser realizado em 2019 e teve sua sexta edição, emprega imagens por satélite de alta resolução para detectar desmatamentos, avaliar indícios de irregularidade ou ilegalidade. Também avalia as ações de fiscalização promovidas pelo poder público para reduzir o problema no país.
O governo do Rio Grande do Sul, por meio da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), comemora os resultados e explica o que tem sido feito para a preservação do bioma Pampa (leia abaixo).
Redução no desmatamento em áreas de florestas
Conforme o relatório, a queda de 42% no desmatamento do bioma Pampa ocorreu em áreas de florestas. Os sistemas de detecção de supressão de campos nativos ainda necessitam ser aprimorados e incorporados ao MapBiomas Alerta, o que deve acontecer no próximo ano.
Pesquisador do MapBiomas, o biólogo Eduardo Vélez Martin compartilha que o Pampa conta com dois tipos principais de vegetação nativa – os campos, que predominam na paisagem do território gaúcho, e as florestas.
— Esses números contam uma parte da história, o que aconteceu com as florestas nesses últimos seis anos. Não contam nada o que aconteceu com os campos — afirma.
Em sua avaliação, os dados em relação às florestas são positivos. Ou seja, menos florestas nativas estão sendo removidas do bioma Pampa. Porém, quando os campos estão no foco, o cenário preocupa:
— Os campos nativos no Pampa estão sofrendo, há mais de 10 anos, uma perda muito grande para a soja.
O biólogo menciona o Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes), um dos sistemas utilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) para avaliar as perdas por desmatamento no país. Neste serviço, os campos estão incluídos nas análises.
— As perdas nos campos de 2019 até 2023 (2024 ainda não foi lançado) têm sido, na média, de 97 mil hectares de vegetação nativa por ano — revela, dizendo que o Pampa perde 60 vezes mais na média do campo do que na floresta.
As imagens de satélite usadas pelo MapBiomas captam as áreas desmatadas, sejam de forma legal ou ilegal. As fotos auxiliam na produção de laudos que comparam a situação antes e depois da intervenção no local.
Esses números contam uma parte da história, o que aconteceu com as florestas nesses últimos seis anos. Não contam nada o que aconteceu com os campos.
EDUARDO VÉLEZ MARTIN
Biólogo integrante da equipe do MapBiomas
— Para as florestas essas imagens são conclusivas e provam quando houve desmatamento. Na vegetação campestre, onde acontece a pecuária no Rio Grande do Sul, em um tapete de gramíneas, quando se olha de cima por satélite, ele não é sempre uma prova conclusiva de desmatamento.
A explicação para isso é que, às vezes, quando a pastagem plantada é removida no campo, ela pode ser nativa ou alguma cultura desenvolvida posteriormente no local. Conforme o pesquisador, essa diferenciação ainda precisa ser aprimorada pelo sistema.
— Estamos sendo muito cuidadosos com a vegetação campestre porque temos esse problema técnico. A gente sabe, hoje, que esses alertas que o MapBiomas publica estão sendo usados por alguns bancos que estão condicionando o crédito agrícola a não ter nenhum desmatamento ilegal na propriedade — diz o biólogo.
Eventos climáticos de 2024 impactam na Mata Atlântica
Conforme análises do relatório, a enchente de 2024 contribuiu para perda significativa da vegetação nativa do RS. Foram registrados 627 alertas que totalizaram 2.805,8 hectares de áreas naturais perdidas, o que significa crescimento de 70%. Quase todos esses hectares de perdas foram registrados na Mata Atlântica. Apenas 6 hectares ocorreram no Bioma Pampa.
— Quando agregamos dados do Pampa e da Mata Atlântica, o Rio Grande do Sul não teve queda. Teve aumento no desmatamento em relação à 2023. Justamente em função dos eventos climáticos — pontua.
Dessa maneira, os deslizamentos de encostas em morros representam a maior parte do que foi perdido de florestas no território gaúcho.
— Esse aumento no Rio Grande do Sul foi totalmente atípico e compreensível dentro de um padrão anômalo do efeito das enchentes. Nós teríamos tido queda nos desmatamentos de florestas se não fosse as enchentes — assegura.
Autorizações para supressão de vegetação nativa
O biólogo afirma que o MapBiomas consulta órgãos municipais, estaduais e o governo federal sobre a emissão de autorizações para a supressão de vegetação nativa.
— No caso do Pampa, nos últimos seis anos, detectamos 9.865 hectares de perda florestal. Achamos 92,8% de indícios de irregularidades, porque encontramos só 7,2% de autorizações. Essas supressões estão acontecendo, ao que tudo indica, com muita irregularidade — avalia.
Em 2022, por exemplo, os dados são bastante negativos. Foram 5.218,2 hectares de áreas desmatadas no Estado. Trata-se do nível mais elevado desde que o MapBiomas começou a fazer os relatórios em 2019.
— Foi em 2022 que melhoramos a performance de detecção de alertas. Parte desse pico tem um efeito da melhora da detecção. Isso significa que subestimamos um pouco os valores de 2019, 2020 e 2021. Não teve algum efeito natural. Esse desmatamento está todo associado majoritariamente a efeitos da ação humana, especialmente da expansão da agricultura — detalha.
Segundo o biólogo, um terço de tudo desmatado foi embargado. Ou seja, o poder público ficou sabendo da intervenção, foi até o local e embargou a área depois do fato consumado. Ele expõe números:
— No Rio Grande do Sul, a supressão florestal acumulada entre 2019 e 2024 foi de 18.575 hectares. Desse total, nós tivemos acesso à informação de que 8.940 hectares sofreram embargo, o que representa 48,1%.
E acrescenta sobre o que percebe em relação ao poder público:
— As pessoas não estão pedindo autorização ou está faltando transparência dos municípios para saber. O Estado delega competência para os municípios. E os municípios não reportam para o Estado. Esse é um dado preocupante que mostra que estamos com problema de governança.
Supressão do campo passa despercebida
O professor Leonardo Deble, dos cursos de Zootecnia e Ciências da Natureza do Campus de Dom Pedrito da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), reforça que o problema está na parte que não aparece no relatório – os campos nativos.
— É bastante difícil você quantificar qual é o tipo de vegetação campestre que está ocorrendo em determinada área. E qual é a composição florística dessas espécies — divide.
De acordo com o docente, que pesquisa o manejo de ecossistemas campestres, o relatório mostra a diminuição das espécies arbóreas das matas, e não dos campos, onde geralmente ocorrem as mudanças do uso da terra.
— Por possuir uma vegetação baixa, quando um campo é suprimido, não chama a atenção das pessoas. Isso faz com que, de certo modo, a supressão passe despercebida.
Por possuir uma vegetação baixa, quando um campo é suprimido, não chama a atenção das pessoas. Isso faz com que, de certo modo, a supressão passe despercebida.
LEONARDO DEBLE
Professor de Zootecnia e Ciências da Natureza da Unipampa
O docente chama a atenção para duas situações importantes:
— Dentro do bioma Pampa temos o menor número de Unidades de Conservação. Se tu não tens unidades de conservação é mais difícil de proteger determinadas áreas — comenta, completando: — A segunda coisa é que o Pampa, embora campo, não é homogêneo. Ele é heterogêneo. Dentro do Pampa temos diferentes tipos de campos e espécies de plantas, aves. É uma biodiversidade que ainda está sendo inventariada.
Na avaliação do pesquisador, o bioma Pampa conta com algo valioso para os serviços do ecossistema. Trata-se exatamente dos campos nativos não contemplados no relatório.
— A joia do Pampa é o campo nativo. Tem o maior número de espécies de plantas, aves, lagartos, serpentes e mamíferos. É aí que mora a diversidade do Pampa — enumera.
Governo estadual enaltece dados sobre o Pampa
A secretária estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura, Marjorie Kauffmann, afirma que o relatório de 2023 do MapBiomas já demonstrava reduções no desmatamento no Pampa e na Mata Atlântica.
— Esta constância na redução demonstra a assertividade do próprio relatório. Ficamos felizes porque nós entendemos que as políticas empregadas têm trazido esses resultados efetivos. Nada mais do que uma melhor relação das populações com os biomas entendendo da importância e da manutenção dos mesmos — reflete a titular da pasta.
Em relação às áreas campestres não contempladas pelo relatório do MapBiomas, a secretária entende que "quando não há uma alteração de cobertura vegetal e só uma implementação ou, vamos dizer, um enriquecimento da pastagem com exóticas no inverno, nós estamos mantendo essa feição Pampa."
— Nós não dependemos do relatório dos alertas do MapBiomas para agir dentro da fiscalização ou ainda da implementação de ações que vão fortalecer o bioma. Então, atribuímos esses resultados a uma série de programas que nós temos dentro do bioma Pampa, que, com certeza, asseguram essa integridade dele como um todo — avalia.
Entre as ações do governo estadual para a preservação do bioma Pampa estão diferentes iniciativas. Veja algumas delas:
- corredores ecológicos – que conectam áreas protegidas e facilitam a dispersão de espécies, além da recolonização de áreas degradadas
- rota dos butiazais – conecta pessoas em prol da conservação e uso consciente da biodiversidade nas áreas de ocorrência dos butiazais no Brasil, Uruguai e Argentina
- trilhas de longo curso – amplia as experiências positivas do contato dos visitantes com o ambiente natural
A secretária aborda as limitações técnicas citadas pelo integrante da equipe do MapBiomas:
— Há uma dificuldade, sim, de uma identificação de campo nativo e exótico. Então, é esse ponto que fica. Mas, para nós, o bioma é muito maior que isso. E nós tratamos com a necessidade iminente de autorização para conversão para uso de solo.
A titular da pasta fala que ocorre acompanhamento do governo estadual quando existe solicitação de conversão.
— Ainda que o indivíduo tenha campo nativo e vá converter para soja, por exemplo, ele necessariamente precisa de uma alteração de conversão de uso de solo. Se ele não tiver essa autorização certamente será verificado não só no MapBiomas. Nós temos outros sistemas de monitoramento que enxergam isso. Não havendo essa autorização, ele é autuado e embargado.
Sobre os dados relacionados à Mata Atlântica, a secretária fala o que pensa:
— Nós tivemos uma grande redução (desmatamento) no ano passado. E neste ano tivemos a manutenção dos índices. Não tivemos redução no número de focos, mas tivemos muitos deslizamentos de terra e todos eles no bioma Mata Atlântica. Começamos a avaliar e são mais de 10 mil pontos. Então é um fator que pesou demais no relatório anual do desmatamento.
A secretária Marjorie salienta que as iniciativas em desenvolvimento contribuíram para atenuar os efeitos dos gases de efeito estufa na atmosfera.
— Toda a área de desmatamento é uma área potencial em emissões de gases de efeito estufa. Então, nós temos uma ação que não é só do ponto de vista da perda da biodiversidade, mas também do aumento da emissão do CO2 que se inibiu com essa redução de desmatamento — conclui.
